Ocaso

Ronaldinho Gaúcho foi exuberante, magnífico, vistoso - no auge da carreira, até dez anos atrás. Tantas as estripulias com a bola, tão estupendos os dribles, os gols e os lançamentos no Barcelona, a ponto de dominar plateias hostis e fazer com que o aplaudissem de pé. Os torcedores do Real Madrid deram testemunho do encantamento em pleno Bernabéu.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

30 de setembro de 2015 | 03h00

O astro de luminosidade intensa agora se apaga, se esvai, desola os que nele se inspiraram. A trajetória de Ronaldinho declina de maneira opaca, como a de milhões de boleiros comuns, daqueles que passam pelos gramados sem deixar saudade. Injustiça que comete contra ele mesmo e contra o futebol. 

A passagem fugaz pelo Fluminense - e sobretudo a ruptura - se mostrou outra etapa desnecessária, só para prolongar a decadência. Como foi supérflua a aventura no Querétaro. Mitos como Ronaldinho não podem submeter-se a micos. Não pelos clubes que o contrataram, respeitáveis. Mas por se negarem a encarar que não têm mais pique, fôlego, disposição, vontade e gana para seguir a rotina profissional. 

Ronaldinho não é mais jogador. Precisaria dizer isso para si mesmo, a olhar-se no espelho. Sem ressentimentos, sem mágoas, sem a sensação de derrota. A história que escreveu é brilhante, os títulos que conquistou jamais lhe serão tirados. Ele tem lugar cativo no Olimpo dos semideuses da bola, como Garrincha, Maradona, Messi, Platini, Zico. Pelé, não. Pelé é deus.

É de se supor que Ronaldinho não tenha dificuldade financeira. Portanto, não se trata de falta de dinheiro a motivação para arrecadar mais uns milhares de dólares e de reais aqui e ali. Essa grana lhe tem custo salgado, se estiver minimamente preocupado com a biografia. Há um ponto em que cifras não acrescentam grande coisa.

Ao assinar com o Flu, se imaginava Ronaldinho a atuar como chamariz, garoto-propaganda e, eventualmente, dando uma canja em campo. Uns minutos aqui, umas faltas ali, uns lances de efeito e o público a aplaudir. Um charme. Guardadas as proporções, como foi o papel que o xará representou na maior parte do tempo em que ficou no Corinthians. Nesse aspecto, a parceria poderia mostrar-se bem-sucedida.

Também nisso falhou. Os comunicados oficiais de agradecimento, de clube e atleta, devem ser relevados. Não passam de amontoado de palavras gentis e ocas de ambas as partes. O Flu não lucrou em nada. Não funcionou a estratégia de marketing, tampouco houve acréscimo de qualidade técnica ao time. Ronaldinho não jogou, e foi constrangedora a imagem dele no banco, largado, preterido, abandonado, a não contar nem sequer como alternativa. 

Ronaldinho, parece, cogita a possibilidade de se aposentar. Decisão íntima, particular, certamente delicada e dolorida. Difícil para qualquer um dar conselhos. Mas o tempo alcança todos, mesmo artistas do futebol, e há a hora de retirar-se. Pode ser que ainda aceite ofertas de mercados como os da China, das Arábias ou, sabe-se lá, dos EUA. Direito dele se disser “sim” a propostas. E continuará a confundir e a iludir-se, pois parou, de fato, após a conquista da Libertadores com o Atlético-MG em 2013.

Ronaldinho merece troféus, estátuas, nomes de avenidas, de estádios. É um ícone. Só que não pode transformar-se em sombra de si mesmo. Os fãs não merecem. 

COPA DO BRASIL

São Paulo e Palmeiras tentam hoje avançar às semifinais. A tarefa tricolor em teoria é muito mais relaxante, porque leva para o Rio vantagem de 3 a 0 obtida uma semana atrás. Nem a boa fase do Vasco (que reage no Brasileiro) deve assustar a turma de Juan Carlos Osorio. Reviravolta seria milagre de um lado, incompetência de outro e desmentido da lógica.

A missão palestrina requer atenção redobrada. O Palmeiras tem jogado melhor do que o Inter, atua em casa e aposta na força do ataque. No entanto, o 1 a 1 da ida não é placar que proporcione conforto. Haverá tensão. 

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