Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Olhos quase humanos

Entre Mito e Mico, havia apenas uma letra de diferença. Ceni saiu como os derrotados

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2017 | 05h00

Há um simpático animalzinho vagando solto e alegre pelos campos do futebol brasileiro: o mico. O mico é um animal curioso porque se mostra sob vários aspectos e disfarces. Há quem pense que está se livrando dele, quando efetivamente não é o caso. E há quem o receba na ilusão de que está fazendo grande negócio.

Como o animal foi parar no léxico popular, ignoro. Como a palavra se tornou sinônimo de fracasso, vexame e embaraço, também ignoro. Só sei que aí está, atual como nunca. 

Quando o provável mico acaba dando certo aparecem inúmeros pais da ideia, imediatamente se vangloriando do feito. Quando não dá certo somem todos os possíveis pais e a impressão é que o mico apareceu por geração espontânea. O mico é por definição órfão. A menos, como disse, quando dá certo. Não são só diretorias, treinadores e jogadores que se preocupam com o mico. A imprensa também. Porque se espera da imprensa sempre uma opinião que, quando emitida, imediatamente passa a incorrer nos perigos que o mico embute. Os cautelosos emitem sempre opinião com cuidado e só com o tempo se manifestam claramente. 

Só para exemplificar, vamos ao caso de um mico que deu, ou está dando, certo: Jô. Quando chegou ao Corinthians apresentava todas as características do mico, reveladas por sua carreira nos últimos anos. E, no entanto, debaixo da desconfiança geral, deu certo. Hoje, vozes que se mantinham caladas já falam dele sem medo. Os corintianos que também temiam o mico estão felizes. Parece que nesse caso o mico na verdade era um bom negócio. 

Em outros clubes acontece exatamente o contrário. No Palmeiras, por exemplo, Borja parece fascinado pelo estranho animal. Sua última partida, contra o Barcelona de Guayaquil, fez gente da imprensa, que se limitava antes apenas a olhares desconfiados, bradar vigorosamente. Falta só a “turma do amendoim” começar a se manifestar para que o mico se materialize completamente na rua Palestra Itália.

Aliás, falando no Palmeiras, o mico já rondava por lá, mas exatamente ao inverso. O mico parecia já estar no elenco há muito tempo. Deve ter sido identificado como tal e, nessa condição, providenciaram para se livrar do incômodo animal. E o mico foi dispensado e mandado para o Grêmio. Curiosamente o mico deve ter descoberto em Porto Alegre uma fonte da juventude desconhecida, pois não só não se machuca mais como desandou a fazer gols e é o artilheiro do time no momento. Acho que o mico do Palmeiras não se chamava Barrios. Alguém errou, talvez duplamente, aliás, lá para os lados do Allianz Parque. O fato é que o mico é insidioso e não respeita nada nem ninguém. Adora alvejar treinadores.

Quando o São Paulo anunciou seu treinador no começo do ano não houve ninguém que, secretamente talvez, não tivesse pensado no belo animalzinho. Mas não se podia falar nada, porque Rogério Ceni era apenas o “maior jogador da história do clube”, afirmação que receio não poder compartilhar inteiramente. 

A história do tricolor é longa e cheia de craques. Bem, mas ele chegou e desde os primeiros resultados a palavra mico começou a tomar forma em muitos lábios, mas sem que ninguém ousasse pronunciar. 

Finalmente não deu para calar: entre Mito e Mico, havia apenas uma letra de diferença. E Ceni saiu como saem todos os técnicos derrotados.

A diretoria não teve dúvidas e se livrou do mico que ela mesma tinha criado. Mas será que se livrou mesmo? O mico de hoje, como vimos, não é necessariamente o mico de amanhã. Talvez um dia o São Paulo enfrente um time e no banco contrário esteja Rogério. Por que não? De que lado, então, estará o mico, esse animal de olhos quase humanos, às vezes tristes, às vezes irônicos? 

Tudo o que sabemos sobre:
Futebol

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.