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Onde nem grama cresce

Não há um diagnóstico fácil sobre a derrocada do outrora grande clube da Portuguesa

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 04h00

Este jornal publicou na sexta-feira uma foto aterradora. Numa matéria do jornalista Guilherme Amaro sobre a situação da Portuguesa, havia a tal foto que mostrava um terreno devastado, de terra batida, uma espécie de lixão do futebol onde em outros tempos ficava o gramado e craques desfilavam sua arte. Como se chegou a tal ponto? Como a gloriosa Lusa despencou até seu gramado, ou melhor, ex-gramado, adquirir esse aspecto lunar, desolado, cicatriz mal curada de uma guerra abjeta?

Dirigentes incompetentes e corruptos. Esse é o diagnóstico fácil imediatamente invocado quando se deseja diagnosticar a causa da decadência do clube. Não concordo. Não que não tenha havido dirigentes corruptos e desonestos, mas todos os grandes clubes de São Paulo, sem exceção, enfrentaram crises causadas pelo mesmo fenômeno e nenhum desceu a um precipício tão fundo. 

A derrocada da Portuguesa me parece vir de causas mais complicadas e requer muito mais estudo e investigação. A Portuguesa, até poucas décadas atrás, era um dos grandes de São Paulo. Jogo contra a Portuguesa era considerado um clássico por todos os outros grandes. Teve times inesquecíveis e rara era a seleção brasileira que não tivesse jogador da Portuguesa. Na seleção da Copa de 1954, tinha três jogadores entre os titulares: Djalma Santos, Brandãozinho e Julinho Botelho. Ou quatro, se considerarmos Pinga, que tinha se transferido para o Vasco fazia pouquíssimo tempo.

A desgraça da Portuguesa vem de vários fatores, uns proporcionados pela sorte, outros pelos solavancos da história. O maior problema é que a Portuguesa jamais conseguiu reunir torcida numerosa. Por que, se combatia de igual para igual com os outros grandes? Acho que pelo fato de ser ligada a uma colônia sobre a qual havia disseminado muito preconceito. Preconceito latente, é verdade, muitas vezes não externado abertamente, como é feitio do preconceito brasileiro, silencioso, fugidio, dando a impressão até de simpático, feito de anedotas e riso, mas não menos destruidor. 

Ninguém, principalmente naqueles anos de Salazar, levava a sério Portugal. Portugal era uma piada de português, que idiotas teimavam em espalhar. Isso fazia com que fosse difícil, principalmente para garotos, aceitar a herança de torcer para a Lusa. Vi muitos filhos de torcedores da Portuguesa migrando para outros clubes. Alguns com certo sentimento de culpa, mas era quase irresistível a mudança. O nome Portuguesa não dava orgulho.

O Vasco só virou um clube de massa entre outras razões porque ninguém da massa sabia exatamente o que, ou quem, era Vasco da Gama. A Portuguesa, num certo sentido, estava consciente disso e muitas vezes se cogitou a mudança do nome. Mas falou mais alto o caráter, orgulho e valentia lusa, e ela permaneceu Portuguesa, para o que desse e viesse. Outros clubes chamados Portuguesa jamais deixaram de ser pequenos.

Além disso, ou por isso, a Lusa foi vítima da história. No momento em que massa passou a condição imprescindível para que a TV se ocupasse dela, a Lusa saiu das telas de tevês. A Lusa e sua pequena e heroica torcida não interessavam a anunciantes e patrocinadores. Desapareceram também as suas outras fontes de renda, principalmente com a promulgação da Lei Pelé e a entrada em cena de agentes e empresários. Não pôde mais o clube lucrar com as revelações que fornecia a cada ano. A Portuguesa foi minguando diante dos nossos olhos. Às vezes se erguia para depois tombar de novo.

Ninguém sobrevive por muito tempo na contramão de seu período histórico. Vivesse hoje seus primeiros anos e as coisas seriam diferentes. Hoje, quando Portugal entrou em moda e passou a modelo entre as nações, quando brasileiros correm para se abrigar em Portugal à procura de civilização que não mais encontram por aqui, talvez a sorte da Lusa fosse outra. 

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