Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Operação de amistoso da CBF, em 2010, no Catar, levanta suspeita

Investigadores da Suíça e dos EUA desconfiam da engenharia financeira montada por empresários no jogo Brasil x Argentina

JAMIL CHADE / CORRESPONDENTE EM GENEBRA, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2015 | 07h00

O amistoso Brasil x Argentina no Catar envolveu uma ampla engenharia financeira e, agora, levanta suspeitas por parte de investigadores da Suíça e dos EUA. Documentos obtidos pelo Estado revelam que o dinheiro pago no jogo em novembro de 2010 envolveu três paraísos fiscais e pelo menos oito entidades – duas eram de fachada. 

No total, um único jogo movimentou US$ 8,6 milhões oficialmente. Mas a suspeita dos investigadores é de que outros pagamentos tenham ocorrido por acordo secreto. O Estado revelou no início da semana que a Justiça suíça fez uma operação de busca na sede de uma das empresas envolvidas na partida, a Kentaro. Era a empresa quem, entre 2006 e 2012, organizava os amistosos do Brasil e havia sido contratada por Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF.

Mas a suspeita dos suíços é de que o jogo no Catar foi usado para pagar propinas a cartolas no Brasil e Argentina, em troca de votos para a escolha da Copa de 2022. A eleição na Fifa da sede ocorreu 20 dias depois da partida no Catar. 

Investigadores revelaram ao Estado que apresentaram ao CEO da Kentaro, Philipp Grothe, um organograma de qual teria sido o fluxo de dinheiro para aquele jogo. Grothe, no dia 27 de maio, confirmou que ele conhecia o esquema e, de fato, ele já havia repassado as mesmas informações para Michael Garcia, o ex-investigador da Fifa que pediu demissão de seu cargo ao ver que seu trabalho havia sido enterrado por Joseph Blatter, presidente da entidade. 

Quem pagou pelo jogo foi a GSSG, empresa de construção no Catar que está erguendo as principais obras da Copa de 2022. O dinheiro, em seguida, foi enviado à empresa sediada em Zurique, a Swiss Mideast.  Um total de US$ 8,6 milhões foram dados para Kentaro organizar o jogo e pagar as duas seleções. A empresa, porém, deu uma comissão de US$ 2 milhões para uma sociedade de Cingapura, a BCS. O pagamento foi apenas por terem “feito a apresentação” entre as partes envolvidas no jogo. 

Mais US$ 2 milhões teriam seguido para a empresa World Eleven, contratada pela Associação de Futebol da Argentina para organizar amistosos pelo mundo. O dinheiro, então, seguiria para a entidade esportiva de Buenos Aires e na época presidida por Julio Grondona, um dos que votaram pelo Catar.

No caso do Brasil, a Kentaro destinaria um valor inferior, em US$ 1,1 milhão, mais um pagamento extra de 300 mil euros. O dinheiro foi enviado para a ISE, nas Ilhas Cayman, que depois repassou para a CBF. “O que fica claro é que se criou uma engenharia financeira complexa para pagar por um jogo amistoso”, declarou ao Estado um dos responsáveis da Justiça suíça pelo caso. 

O que os investigadores suspeitam, porém, é que um contrato paralelo foi também organizado, contornando a Kentaro e permitindo que o dinheiro chegasse até as mãos dos dirigentes. Essa, pelo menos, foi a versão que os executivos envolvidos na organização da partida revelaram aos investigadores. 

A Justiça da Suíça e o FBI vão investigar as transações financeiras de Teixeira, inclusive uma conta mantida por ele em Mônaco. A apuração identificou depósitos de empresas do Golfo à conta no principado. Teixeira nega e diz que a conta foi aberta dois anos depois da escolha do Catar como sede.

Para o FBI, a resposta não convence. No caso de Jack Warner, outro que vendeu seu voto, as investigações apontam que pagamento da suposta propina ocorreu quatro anos depois. 


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