Igor Lopes Maceno/Operário
Igor Lopes Maceno/Operário

Operário-PR estimula leitura entre os atletas da base para a formação profissional

Ação faz parte do 'Jovens Talentos Pontagrossenses', programa social do clube paranaense que foi reconhecido internacionalmente no fim do ano passado

Caio Possati, especial para o Estadão

07 de março de 2022 | 05h00

A partir deste ano, os livros deverão ganhar mais espaço na rotina dos jovens atletas do Operário, equipe do Paraná que disputa a Série B do Campeonato Brasileiro. O clube acaba de lançar o projeto “A Base Lê”, que tem por objetivo estimular os jogadores das categorias sub-17 e sub-20 a adotarem o hábito da leitura dentro de um cotidiano preenchido pelos treinos, jogos, viagens e concentrações.

Anunciada em fevereiro, a proposta não foi colocada em prática ainda porque até o mês passado os atletas estavam de férias depois de disputarem a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Mas o clube já dispõe de uma biblioteca recém-criada e, por meio de parcerias com editoras e campanhas de doação, vem trabalhando para encher as estantes com a maior quantidade possível de livros que despertem o interesse dos jovens jogadores.

“Vai ter o momento em que vamos levar os jogadores para a biblioteca, seja com todos ou em grupo, para poder ler um pouco. É uma forma que estamos tentando encontrar para estimulá-los (à leitura)”, disse Fabiano Castro, coordenador das categorias de base do time paranaense e um dos responsáveis pela iniciativa.

Para a pedagoga do clube, Adriane Presaniuk, a leitura é capaz de gerar uma série de benefícios, como adquirir conhecimento, cultura, ter aumento do potencial cognitivo e lógico, enriquecer o vocabulário, além de estimular o senso crítico e a criatividade. “São  habilidades que vão ajudar o indivíduo a viver em sociedade, e a saber se adequar a diferentes ambientes, como o familiar, profissional e educacional”, ressalta Adriane.

Ainda segundo a pedagoga, o rendimento dos atletas em campo também podem aumentar a partir do hábito de ler. “Aquele atleta que possui conhecimento, cultura, senso crítico e maior desenvolvimento cognitivo”, explica Adriane, "consegue associar toda a parte tática e teórica com a parte prática dentro de campo. O atleta, possivelmente, terá melhor compreensão do jogo e tomada de decisão quando estiver jogando”.

Mesmo assim, Castro reconhece que convencer os jogadores em formação a se dedicarem a uma atividade que não seja ligada diretamente ao ato de jogar será um desafio. "O jogador vem focado em treinar, performar. É o objetivo de todos eles, que já vêm batalhando desde os 7 anos de idade. Então, qualquer atividade que não seja campo, que não seja treinar, a primeira reação tende a ser negativa”, pondera.

Mas Ruan Matheus Borghezan, pelo menos, se mostrou empolgado com a ideia. Ao Estadão, o jovem jogador do Operário, de 19 anos, disse que  ler livros é uma tarefa que promove a evolução, tanto dentro como fora de campo. “Além disso, eu acredito também que a leitura é essencial para o crescimento do ser humano”, contou Ruan, que revelou ser fã dos livros que inspiraram a produção de filmes, como Harry Potter e Percy Jackson. “Eu sempre leio um pouco antes de dormir, cerca de 10 a 15 minutos. Ler me faz dormir melhor”.

FUTUROS CIDADÃOS

Inserir uma atividade educacional em uma rotina dominada pelo futebol não é uma novidade no Operário. “A Base Lê” faz parte do “Jovens Talentos Pontagrossenses”, programa criado pelo clube em 2014, e aprovado pela Lei de Incentivo ao Esporte, que vem buscando dar alternativas de desenvolvimento educacional, social e cultural aos 60 atletas que hoje integram a base da equipe.

Um exemplo prático, mencionado por Castro, são cursos extracurriculares online que o Operário disponibiliza de forma gratuita para os jogadores, como aulas de idiomas, de economia doméstica e até de mecânica básica. Ao todo, são mais de 100 opções de cursos oferecidos que miram o desenvolvimento dos jovens atletas para além das quatro linhas.

“Quando vem o resultado de uma avaliação da comissão técnica dizendo para dispensar o jogador, não tem como a gente segurá-lo. Então, enquanto ele estiver aqui, precisamos fazer algo que, pelo menos, ele saia melhor preparado, seja para outros clubes ou para outras situações”, ressaltou o Fabiano Castro, coordenador da base.

A BASE DA BASE

Nos últimos dois anos, quando muitos padeceram da crise sanitária e econômica agravadas pelo covid-19, o Operário buscou também formas de auxiliar diretamente os parentes dos seus jovens atletas. Para isso, o clube chegou a fazer um mapeamento com base em índices educacionais e sociais, que Castro definiu como “IDH” (Índice de Desenvolvimento Humano), com o objetivo de entender detalhadamente a realidade de seus atletas.

O corpo técnico do Operário, então, percebeu que para conhecê-los melhor era necessário conhecer também de onde seus jogadores vieram. “Veio a pandemia e a gente começou a perceber as dificuldades que as famílias dos atletas passavam. O pai perdeu o emprego, a irmã está grávida, esses problemas sociais. Com isso, a gente foi tentando criar alternativas para auxiliar também a base desses atletas”, conta Fabiano Castro.

Uma das alternativas foi dar, aos parentes, acesso para cursos profissionalizantes.  “Também conseguimos dar um suporte na criação de currículos e oferecer cursos dentro da área em que os pais já tinham conhecimento”, disse Castro.

RECONHECIMENTO INTERNACIONAL

Em dezembro de 2021, o clube paranaense foi reconhecido internacionalmente pelos trabalhos feitos na base e com as famílias. O projeto  “Jovens Talentos Pontagrossenses” foi um dos cinco finalistas do prêmio International Sports Awards na categoria relações com a comunidade, que acabou tendo como vencedor a equipe inglesa do Newcastle. Equipes de diferentes modalidades esportivas do mundo se inscreveram no evento.

Orgulhoso pelo reconhecimento, Castro reconhece que, dentro de uma agremiação, a prioridade é moldar jogadores de futebol, mas também salienta a importância da formação cidadã. “A gente sabe que o fundamental são os resultados e também o rendimento dentro de campo. Mas a gente sabe também que é necessário cuidar desses atletas e ter uma visão de formação integral do jogador”. 

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