Sergio Perez/Reuters
Sergio Perez/Reuters

OPINIÃO: árbitro de vídeo melhora a Copa

Colunista da Bloomberg aprova experiência com o VAR durante o Mundial da Rússia

Leonid Bershidsky*, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2018 | 18h32

O futebol pode ser irritante, especialmente para aqueles que só assistem aos grandes torneios. Há muitas faltas, erros frustrantes de juízes, jogadores rolando no gramado e simulando dores insuportáveis sem ter sofrido sequer um arranhão e, de quebra, poucos gols. Mas a Copa do Mundo de 2018 vem sendo surpreendentemente diferente (salvo poucas exceções). A melhora provavelmente se deve a uma simples mudança nas regras: juízes agora têm acesso a replays de vídeo.

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Em pouco mais de uma semana de uma competição prevista para durar um mês, ainda é cedo para se saber quanto a tecnologia chamada Video-Assisted Referees (VAR), ou árbitro de vídeo, vai mudar o jogo. Até agora, tem havido muito menos faltas graves do que costuma haver e nenhum erro grave de arbitragem chegou a alterar o resultado de um jogo. Além disso, em comparação a Copas do Mundo anteriores, os jogadores parecem estar mais focados em fazer gols ou impedir que sejam feitos do que em intimidar oponentes e catimbar para forçar decisões favoráveis dos árbitros.

Replays já são usados há anos nos Estados Unidos para resolver disputas em esportes profissionais. O futebol, contudo, é extremamente conservador, e qualquer ajuste nas regras causa controvérsias porque jogadores e técnicos consideram que o jogo está perfeito como é hoje. Algumas inovações, porém, parecem ter funcionado. Por exemplo, a decisão de que juízes podem expulsar jogadores que derem, de propósito, cotovelada na cabeça do adversário reduziu em 29% o número de lesões na cabeça.

Entretanto, a introdução do VAR pela primeira vez numa Copa do Mundo foi fortemente contestada. O futebol é um jogo analógico, visto universalmente como democrático, praticado e adorado em países ricos e pobres. O árbitro de vídeo é uma iniciativa de países ricos. Foi testado por uma temporada em algumas ligas ricas, como Alemanha e Itália, sem ter o indiscutível sucesso esperado. Torcedores dos países reclamaram do longo tempo, dois minutos ou mais, em que os juízes paralisam o jogo para consultar monitores.

Em um jogo na Alemanha, o juiz, após rever um lance no VAR, chamou os times durante o intervalo para uma cobrança de pênalti. Na Austrália, num jogo decisivo, a nova tecnologia entrou em pane num momento crucial e um gol que deveria ter sido anulado foi considerado válido. Na Itália, um juiz teimoso ignorou sistematicamente o VAR, cometendo erros que mudaram o resultado do jogo.

Apesar disso, estatísticas mostram que o VAR já produziu avanços importantes. Na Série A da última temporada italiana, ele reduziu a porcentagem de decisões erradas de juízes de 6% para 1%. Ao mesmo tempo, o número de faltas caiu 8%, o de cartões amarelos, 14,7% e o de faltas “cavadas”, 43%.

 

A tecnologia parece estar funcionando bem na Copa de 2018. Não se ouve falar dos erros desastrosos de arbitragem que mancharam competições anteriores. O VAR não elimina toda a subjetividade das decisões dos juízes, que podem avaliar a situação na tela do melhor modo possível. E dá a eles a mesma abrangência que os torcedores têm assistindo ao jogo pela TV, o que ajuda a reduzir a possibilidade de erros clamorosos.

Um estudo da Universidade Leuven publicado logo antes da Copa mostra que árbitros que veem trechos do jogo em slow motion tendem a ser mais rigorosos ao aplicar punições. Eles se tornam propensos a considerar faltas mais como ações imprudentes ou intencionais do que acidentais. Já os jogadores, sentindo que nada escapará aos juízes, provavelmente cometerão menos faltas.

Quem assistiu aos jogos até agora certamente notou que os jogadores ficam menos tempo simulando contusões do que costumavam ficar em Copas anteriores e jogam mais limpo (embora o astro brasileiro Neymar provavelmente vá discordar: no primeiro tempo do jogo de seu time contra a Suíça, ele sofreu dez faltas). De qualquer modo, o número mais baixo de cartões amarelos e vermelhos pode mostrar esta como a mais gentil das Copas em duas décadas.

Não há conexão óbvia entre a introdução do VAR e a natureza mais competitiva dos jogos na Rússia. No entanto, talvez esteja ocorrendo uma ligação mais profunda. Fora do radar, o futebol pode ser um jogo sujo, no qual jogadores ferem uns aos outros por meios que escapam ao escrutínio dos árbitros. Com o VAR, a equipe que vê os jogo por muitos ângulos de câmera tem condições de alertar o juiz em campo se alguma coisa menos ética estiver ocorrendo. Assim, fica quase sem sentido, ou pelo menos mais arriscado, empregar violência – o que leva os jogadores a se concentrarem em fazer uma competição mais limpa.

Tudo isso, claro, são apenas teorias de um espectador. Entretanto, não existe qualquer outra grande mudança que explique por que esta Copa do Mundo vem sendo decididamente diferente das predecessoras - e, na média, um espetáculo melhor . / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*Colunista de opinião da ‘Bloomberg’

 

 

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