Maxim Shemetov/Reuters
Maxim Shemetov/Reuters

'Organização do doping na Copa da Rússia estará sob supervisão da Fifa'

Alexey Sorokin, CEO do Mundial de 2018, afirma que todos os testes serão realizados fora do país

Entrevista com

Alexey Sorokin, CEO da Copa de 2018

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

06 Março 2018 | 07h00

No centro de uma tempestade por conta das suspeitas de doping de seus atletas, a Rússia garante que o problema não existirá na Copa do Mundo que ela organiza e que começa em cem dias. Em entrevista ao Estado, o CEO do Mundial, Alexey Sorokin, confirmou que os testes de doping serão realizados fora da Rússia e que os atletas russos serão alvos de 'rigorosos' exames. 

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Investigações realizadas pela Agência Mundial de Antidoping revelaram que jogadores de futebol estiveram entre os suspeitos de se beneficiar de um esquema de doping promovido pelo estado russo. Entre 2011 e 2016, pelo menos 13 jogadores pegos em testes de doping na Rússia foram protegidos e seus exames foram trocados por testes limpos, segundo a agência. 

A fraude no doping do futebol havia sido coordenada não apenas por funcionários de escalões inferiores do governo russo. Mas pelo próprio ex-ministro dos Esportes, Vitaly Mutko, que também foi um dos membros do Conselho da Fifa, o órgão máximo da entidade. O russo ainda acumulava a função de organizador da Copa de 2018 e, na Fifa, foi membro da Comissão para o Desenvolvimento Técnico do Futebol. Ele acabou sendo afastado. 

Mas, segundo Sorokin, para a Copa do Mundo, os exames de doping serão realizados fora da Rússia e sob a supervisão da própria Fifa. 

Os comentários ainda ocorrem em meio à decisão nos EUA de dar o Oscar de melhor documentário a Icarus, uma produção que revela como o governo russo promoveu e incentivou o doping entre seus atletas. Ao receber o prêmio, no domingo, os produtores do documentário pediram a renúncia do presidente do COI, Thomas Bach, por ter autorizado a participação de atletas russos nos Jogos de Inverno, na Coreia. 

Quanto à preparação e atrasos nas obras dos estádios, Sorokin indicou que todos serão suficientemente testados e insinuou que o rigoroso inverno que o país sofreu neste ano foi um fator 'desafiador'. 

Mas questionado se os eventos no Brasil em 2014 tinham ensinado algo aos russos, ele deixou claro que seu país tem mais experiência em sediar grandes eventos que as cidades brasileiras. "Com todo respeito ao Brasil, a Rússia está acostumada a realizar grandes eventos esportivos e temos orgulho em os apresentar de uma maneira excepcional", disse.  

Quais são os principais desafios até o início da Copa?

Tenho a satisfação de dizer que não temos grandes preocupações. Os estádios estão sendo entregues um por um e serão devidamente inspecionados e testados ao longo das próximas semanas. Agora, nosso foco é nos detalhes de vários procedimentos, concluir a organização de partidas e da competição. Na semana passada, a Fifa e o Comitê Organizador local realizaram um seminário com os treinadores em Sochi, o que era outro ponto importante em nossa caminhada para a Copa. Os relatórios que apresentados e os vários assuntos relacionados com as delegações foram recebidos de forma positiva. Mostramos a eles em detalhes como pensamos em cuidar de cada um deles em termos de administração das instalações, organização dos jogos, transporte, segurança e assim por diante. 

Quais serão os próximos testes?

Estamos nos preparando para amistosos de um perfil elevado, como o jogo contra o Brasil em Moscou e contra a França em São Petersburgo para uma vez mais testar os serviços dos estádios e organização de jogos. Essas serão oportunidades para nós, mas também para as autoridades e serviços para testar nossa preparação e afinar nossos procedimentos. Claro que sabemos que, agora, estamos na reta final de nossa preparação. Um dos desafios será o de monitorar todas as atividades de todos os envolvidos, como autoridades, fornecedores, serviços. Tudo isso, enquanto mantemos um alerta para qualquer problema que possa aparecer de último minuto. Mas temos um plano e vamos segui-lo. Estou confiança de que concluiremos nossos trabalhos nos prazos e pronto para o ponta pé inicial. 

O senhor considera que mesmo os estádios estarão prontos, mesmo com os atrasos? Isso não ameaça impactar a qualidade dos jogos?

Sim, tudo será entregue. Estamos monitorando diariamente o progresso das obras., com o governo federal encarregado do trabalho que está sendo feito. Entre janeiro e março, muitas visitas técnicas foram realizadas nos estádios. Tanto o Comitê Organizador como a Fifa estão satisfeitos. Em comparação ao Brasil, o clima é um pouco mais desafiador nesse ponto, já que estamos saindo de um dos invernos mais rigorosos que já tivemos. Apesar disso, temos já seis estádios totalmente operacionais e na semana passada a Arena de Ekaterinburg recebeu os documentos necessários. Seis outros estádios estão em fase final e esperamos concluir os trabalhos burocráticos dentro das próximas semanas. Planejamos realizar três jogos testes em cada um dos sete estádios que serão entregues em 2018. Ekaterinburg será o primeiro, com uma partida no dia 1 de abril entre o FC Ural e o Rubin Kazan. Em Kaliningrad, inauguraremos o estádio no dia 11 de abril, com um jogo entre Baltika e Krilia Sovetov. Iremos agendas outras partes de teste para os demais locais. Isso, de forma alguma, cai afetar negativamente os eventos.  

Muitas questões foram colocadas nos últimos anos sobre a xenofobia no futebol russo. Quais são as medidas concretas que o sr. está tomando para evitar esse problema?

Para mim, a Copa das Confederações em 2017 foi muito positiva nesse aspecto. Lembre-se que o clima nos estádios, mas também nas cidades sedes, foi muito positivo, com os russos cordialmente recebendo e ajudando os convidados. Ver o estádio inteiro de São Petersburgo torcendo para Camarões foram um momento essencial. Estou absolutamente confiante de que esse espírito de hospitalidade prevalecerá e mudará a percepção. Mais de 180 grupos étnicos vivem na Rússia, temos diferentes religiões. Estamos acostumados com diversidade e variedade. Quanto às iniciativas, temos trabalhado com a União Russa de Futebol e seu inspetor antidiscriminação, Alexey Smertin. O trabalho está sendo feito sobre educação e engajamento, dos jovens aos adultos. Queremos fazer da Rússia um exemplo positivo para todos os demais. Queremos mudar a percepção ao ser o melhor anfitrião da Copa do Mundo e liderar por exemplo. A Copa será um catalisador para mudanças positivas na percepção e especialmente nas atitudes sobre isso e em diversos outros assuntos. Queremos falar com a comunidade, não apenas torcedores, para iniciar um diálogo nacional sobre discriminação. O sindicato de jogadores russos também está em contato com jogadores para que fale contra a discriminação. 

O doping afetou a imagem do esporte na Rússia. O sr. considera que o impacto positivo que a Copa possa ter será minado por esse escândalo?

Não. Apenas rumores e especulações. Mas nada mais. Se existem fatos, vamos discuti-los. Se não existem fatos, vamos falar de futebol. Em primeiro lugar, a organização inteira do controle de doping na Copa de 2018 estará sob a autoridade e supervisão da Fifa. Como ocorreu no Brasil em 2014, a Fifa planeja testar as amostras em um laboratório fora do país. O mesmo ocorreu durante a Copa das Confederações em 2017. Nenhum resultado positivo foi registrado na Copa das Confederações. Jogadores russos tem sido testados em competições internacionais e serão alvo de verificações rigorosas previstas pela Fifa com todos os times. Sobre as alegações contra a Rússia e seus jogadores, apenas posso reiterar o que já vem sendo duto. A União de Futebol Russa criou uma força tarefa, conduziu suas próprias investigações, questionou pessoas, respondeu a todas as perguntas e os jogadores não estão se escondendo. 

Como sua organização conseguiu realizar os trabalhos diante das sanções internacionais que afetaram seu país?

Se algo ocorreu foi o fato de que as sanções nos levaram a trabalhar de forma ainda mais dura e melhor. Cumprimos nossas promessas. A Rússia é um país com imensos recursos e fizemos um uso muito eficiente de nossos meios e possibilidades. 

Quais lições a Rússia aprendeu do Brasil e que pode evitar que os mesmos erros se repitam?

Nossos colegas no Brasil foram muito generosos ao compartilhar sua experiência e estamos muito gratos por isso. Entretanto, ainda que algumas coisas não mudem de forma fundamental, cada Copa é diferente. Além disso, com todo respeito ao Brasil, a Rússia está acostumada a sediar grandes eventos esportivos e temos orgulho em os apresentar de uma maneira excepcional. Planejamos nossos projetos de forma cuidadosa e os implementados de maneira rigorosa.

Protestos serão autorizados a ocorrer durante a Copa?

Fico relutante em comentar um assunto que é decidido pelo governo, que é o responsável por garantir total segurança na Copa. As ordens e regulações necessárias foram aprovadas e serão implementadas pelas autoridades. 

Qual será o maior legado da Copa?

Ela vai galvanizar um país inteiro. Mostraremos ao mundo que, além de percepções e clichês, os russos são capazes e um povo que acolhe a todos, que é orgulhoso de sua nação e suas conquistas. De forma mais concreta, o evento permitirá maiores investimentos e modernizar cidades sedes no que se refere a transportes, estradas, aeroportos. Gerações inteiras foram se beneficiar. Em termos de futebol, estamos comprometidos em fazer o melhor uso de nossos estádios para desenvolver o esporte na Rússia. 

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