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Organização, o segredo do 15 de Novembro

A explicação para o sucesso do 15 de Novembro está na ponta da língua dos jogadores. "Organização, planejamento e salários em dia", repetem todos eles. A filosofia, adotada em 1994, quando o clube mais vezes campeão amador do Rio Grande do Sul se tornou profissional, já rendeu o vice-campeonato gaúcho em 2002 e 2003 e agora coloca o time na condição de semifinalista da Copa do Brasil, algo que os grandes do Estado, o Grêmio, o Internacional e o Juventude, não conseguiram. As condições elogiadas unanimemente pelos jogadores são a oferta de moradia e incentivo para que os casados levem a família a Campo Bom, um bem equipado centro de treinamento e dois pagamentos mensais, nos dias 20 e 5, cumpridos religiosamente pelo clube. Os diretores do 15 de Novembro não revelam o valor da folha de pagamento. O teto salarial é de R$ 3 mil e admite algumas exceções. Os custos são bancados por patrocínios e contribuições de indústria de calçados e de componentes, que também são a base da economia da cidade. A história do time atual revela o jeito quinzista - é assim que os sócios e os torcedores do clube se identificam - de administrar o futebol. Assim como em outros anos, o elenco foi desmontado na metade de 2003, quando terminou o Campeonato Gaúcho, tudo dentro do planejamento. O gerente de futebol Alceo Bordignon, funcionário remunerado desde 1997, retomou a rotina de viajar e ver muitos jogos em Santa Catarina, Paraná e São Paulo. O técnico Mano Menezes chegou em outubro e passou a participar das pesquisas. Em dezembro o grupo de jogadores já estava montado, com nomes como Dauri, Perdigão, Edmílson, Canhoto e Bebeto, que viriam a se tornar ídolos da torcida. Sem condições de manter categorias de base e equipe profissional ao mesmo tempo, o clube optou por montar times experientes, com jogadores garimpados em clubes médios, interessados em receber em dia e dispostos a dar um novo impulso às suas carreiras. A média de idade do grupo atual é de 27 anos. Na primeira conversa com cada atleta, Mano Menezes identifica o melhor momento da trajetória do jogador e como ele se posicionava naquela situação. O centroavante Dauri recordou o ano de 2001, no Juventude, quando era atacante de referência na área adversária. Recebeu a companhia de Bebeto, ex-Marília, um jogador que, segundo o técnico, "tem a força e a velocidade para complementar as características de Dauri", e voltou a ser um artilheiro implacável, com sete gols em oito jogos na Copa do Brasil e 18 gols em 20 jogos no Campeonato Gaúcho. "O Mano tira o melhor de cada atleta em cada posição", elogia Dauri, que, às vezes troca de função com Bebeto durante o jogo para confundir os adversários. "Formamos uma boa dupla, um sabe onde o outro está e sabe onde ir para receber a bola", avalia Bebeto, que atribui a Dauri a condição de ídolo do time. O meia Gerson Lente, 31 anos, um peregrino do futebol que começou no Santo André e já passou por dois clubes do Peru, um da Espanha, três da Turquia, um da China, um da Arábia Saudita e mais o Grêmio Maringá e o União São João, chegou a Campo Bom no início de 2004. "O Mano já me conhecia e me chamou para preparar as jogadas pela direita, com o Patrício (lateral)", conta. "Eu e o Perdigão (pela esquerda) fazemos o trabalho sujo para os outros brilharem", diz, brincando. Ao montar o time, Mano Menezes buscou também o diferencial da inteligência. "Jogadores com bom entendimento de táticas facilitam a execução do plano traçado para cada partida", acredita o técnico, que admite perder para times melhores, mas nunca por falta de informações. Quem se destaca por fazer funcionar a organização tática ou descobrir novos caminhos durante o jogo são os meio-campistas Perdigão e Gerson Lente. Mas a experiência do zagueiro Borges Neto e dos atacantes Bebeto e Dauri também contam muito. Além da Copa do Brasil, os jogadores do 15 de Novembro têm outro objetivo comum. Todos querem aproveitar a campanha para chamar a atenção de grandes clubes. O atacante Belmonte, acionado sempre que Dauri e Bebeto não jogam, resume o pensamento de todos quando fala de suas projeções pessoais. "Ganhar um campeonato é abrir portas", comenta. A organização permitiu que o 15 chegasse ao Campeonato Gaúcho e à Copa do Brasil com um time pronto quando muitos concorrentes ainda definiam seus elencos para 2004. O grupo grande, com 28 jogadores e boas peças de reposição, facilitou o trabalho do técnico, que conseguiu manter o padrão de jogo e tornar o time competitivo nos dois torneios que disputa - além da Copa do Brasil, o 15 de Novembro é o único que ainda tem chances de tomar da Ulbra ou do Glória uma das duas vagas disponíveis para as semifinais do Campeonato Gaúcho. Os resultados poderiam ser melhores, no entanto, se a maratona não exigisse que o time entre em campo a cada dois dias e meio, em média. Depois de jogar contra o Santo André, nesta quarta-feira, o 15 de Novembro enfrenta o Glória, na sexta-feira, em Campo Bom, e volta a campo no domingo, contra o Veranópolis, fora de casa. Apesar da organização e do planejamento, o 15 de Novembro não tinha planos de ir tão longe na Copa do Brasil. Tanto que os contratos de diversos jogadores terminam no dia 15 de junho, prazo suficiente para disputar as finais do Campeonato Gaúcho, mas não para a decisão da competição nacional, que termina em 23 de junho. A solução, em caso de classificação, será firmar acordos prorrogando o compromisso por pelo menos dez dias. Se conquistar o título, é possível que o 15 de Novembro mude até o plano de desativar o time no segundo semestre e, em vez de liberar e emprestar jogadores, opte por segurá-los em Campo Bom, já pensando na Libertadores de 2005. O clube espera para saber como será a fórmula da disputa da Série C do Campeonato Brasileiro. Se ela mantiver os clubes em atividade até o fim do ano, sem eliminações precoces, o 15 de Novembro poderá deixar de ser time eficiente de um semestre para assustar no ano todo. Seria uma alternativa interessante para jogadores que depois de eliminar a Portuguesa Santista, com empates por 1 a 1 e 2 a 2; o Vasco, com empate por 1 a 1 e vitória, fora, por 3 a 0; o Americano, com vitórias por 2 a 1 e 3 a 2; e o Palmas, com vitórias por 3 a 0 e 1 a 0, podem ficar campeões e desempregados. Agora, na condição de ídolos de todo o Rio Grande do Sul eles acreditam no que parecia impossível. "Para quem começou desacreditado, o título é o limite", afirma Dauri.

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