Denis Farrell/AP
Denis Farrell/AP

Orgulho de construir um estádio e a história

Trabalhadores como Ezzi transformam em centro do mundo um lugar em que há apenas 2 décadas a segregação era a lei

Rodrigo Cavalheiro - O Estado de S. Paulo,

26 de março de 2010 | 10h45

Ezzi tem 50 anos e ganha R$ 4 por hora para construir o Soccer City, em Johannesburgo, estádio em que 94.700 pessoas verão a abertura e a final da Copa. Na prática, ele começou a trabalhar para o Mundial bem antes de assentar o primeiro tijolo. Antes até de o presidente da Fifa, Joseph Blatter, anunciar a vitória da candidatura sul-africana, em maio de 2004. Primeiro, pelo lugar onde mora.

 

Ezzi vive em uma casa simples, construída em uma área de classe média, com água, eletricidade, transporte e, cada vez mais, turistas. Conquistas recentes. Soweto já foi um dos lugares mais cruéis em que um "não-branco"", classificação usada pelo apartheid, podia morar no continente negro. O mais emblemático dos guetos em que o regime confinava os negros - 80% da população sul-africana - era uma miserável urbanização de casebres de lata em que sobreviviam milhões de Ezzis.

 

Em 1976, esse operário começou a dar sua contribuição para um Mundial na África do Sul. Participou dos protestos que tornaram Soweto um símbolo contra a discriminação. Moradores se rebelaram diante do massacre de 500 estudantes que reclamavam d a qualidade inferior do ensino para negros.

 

Em dezembro de 1990, Ezzi era um dos que ajudavam a lotar as arquibancadas do antigo Soccer City - a atual rosca modernista está sobre as bases do histórico estádio. No dia 16 daquele mês, um vizinho que ele perdera de vista durante 27 anos encerrava um encontro histórico com a frase: "A vitória está à vista! Com um povo unido não há força na Terra que possa nos deter."" Nelson Mandela dava, exatamente no campo mais importante do Mundial, o primeiro discurso multitudinário depois de sua libertação, em fevereiro de 1990.

 

Mudanças. Em 1994, Ezzi deu uma nova força ao processo que permitiria à África do Sul organizar um Mundial. Ajudou o guerrilheiro, advogado, prisioneiro, prêmio Nobel e vizinho a colocar em seu currículo uma nova palavra: presidente. Mandela começou a diminuir diferenças, ainda brutais. Não resolveu todos os problemas (um em cada cinco sul-africanos é portador do vírus HIV), mas Ezzi já não vive em um barraco.

 

"Mandela foi decisivo para trazer o Mundial para cá e não vamos decepcioná-lo. Pode ter certeza de que o estádio vai estar pronto"", promete, enquanto esvazia o prato de carne picada com purê vendido a R$ 4. Tem meia hora para degustar a refeição. "Nossa situação política mudou, mas não a econômica. Os negros ainda ganham menos que os brancos e ocupam cargos inferiores"", reclama Ezzi, participante da greve de operários que assustou a Fifa no ano passado.

 

 OS NÚMEROS
R$ 4

por hora é quanto ganha Ezzi, operário braçal que trabalha nas obras do Soccer City, estádio da abertura e da final da Copa

30

minutos é o tempo que os trabalhadores do estádio têm para almoçar. O expediente

é das 8 às 18 horas

R$ 764

milhões é o custo total da remodelação do estádio. Foi admitido estouro de 45% no

orçamento inicial

No dia 11 de junho, quando o relógio em frente ao estádio exibir a frase "falta 00 dia para o pontapé inicial"", Mandela deve fazer uma de suas raras aparições públicas. Pisará a grama do novo Soccer City. Ele, que já usou o rúgbi para unir negros e brancos, vai concluir um processo que desencadeou há décadas.

 

Ezzi, desta vez, não estará nas arquibancadas - luxo que os R$ 4 por hora não permitem pagar. Como a maior parte dos 3 mil operários que levantaram a casa, verá a cena em seu sofá novo. Talvez vista o uniforme azul que usa de segunda a sábado. Nele, no lado esquerdo, lê-se a frase: "Orgulhoso de estar construindo este estádio." Ou essa história.

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