TV Estadão | 15.08.2015
TV Estadão | 15.08.2015

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2015 | 17h00

A auxiliar de enfermagem Ester Gasparin fica angustiada quando o neto vai ao estádio. Ela não fala nada porque não quer estragar as boas experiências desse santista de 11 anos que adora descer a serra para ver os jogos na Vila Belmiro. Ester não assiste aos jogos e não quer mais saber de futebol desde o dia 20 de agosto de 1995.

Seu filho, Marcio Gasparin, foi assistir São Paulo x Palmeiras pela final da Supercopa São Paulo de Juniores, no Pacaembu. Não houve cobrança de ingressos. Depois que o atacante Rogério deu o título para o Palmeiras, os torcedores aproveitaram que havia poucos policiais e invadiram o gramado. Armados com pedaços de madeira de uma obra do tobogã, protagonizaram um dos momentos mais terríveis do futebol brasileiro. Foi um confronto violento, ao vivo pela tevê, domingo de manhã. Foram 102 feridos, entre eles, Marcio, que faleceu oito dias depois por causa dos golpes que recebeu. “Eu me lembro de tudo”, diz Ester.

A briga foi um divisor de águas na questão das torcidas organizadas. “Era uma final de campeonato, mesmo de juniores, com transmissão pela tevê, com torcedores dispostos ao conflito, e provocou grande reação na opinião pública”, explica Bernardo Buarque de Holanda, professor e pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas.

Foi o primeiro caso de briga de torcidas que foi a julgamento no Brasil. Apesar da participação de inúmeros torcedores, a polícia só identificou o palmeirense Adalberto Benedito dos Santos pela morte de Márcio. Adalberto foi condenado a 14 anos de prisão pelo 1º Tribunal do Júri, em São Paulo, por homicídio duplamente qualificado, pena confirmada pelo Tribunal de Justiça em 98. Ele cumpriu quatro anos em regime fechado e hoje está solto, em dia com a Justiça. Foi admitido como garçom, vive em São Paulo e leva uma vida normal. Não quer falar sobre o caso.

Na área criminal, Adalberto foi o único punido. No campo cível, Ester foi derrotada em uma ação contra os administradores do Pacaembu. Ela pedia a responsabilização da Prefeitura de São Paulo, dona do estádio, em um processo de R$ 300 a R$ 500 mil, em dinheiro de hoje. O Tribunal de Justiça negou, alegando que Márcio estava no gramado e “havia dado causa ao evento”. Ester afirma que os vídeos mostram Márcio sendo empurrado para dentro do campo. “A culpa foi de quem deixou o jogo ser realizado lá, com aqueles entulhos.’’

Para Ademar Gomes, advogado de Ester na época, a Justiça acertou. “Na área cível, o tribunal entendeu que o Márcio estava na briga. Na área criminal, o Adalberto foi condenado e preso. Foi solto de acordo com a lei.”

Torcedores concordam com Ester: os organizadores falharam. “A torcida tem culpa, sem dúvida. Mas não é possível que os dirigentes não tivessem avaliado o risco”, afirma Wildner D’ Paula Rocha, da Gaviões. “Se fosse hoje, eles seriam responsabilizados”, completa. “Pela experiência de torcedor, eu vi que tinha pouca polícia e aquele monte de entulho”, diz Hélio Silva, da Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP).

Fernando Capez, promotor público à época e hoje deputado estadual, explica que a estratégia do Ministério Público após o episódio foi pedir a extinção das organizadas. “Era necessário um tratamento de choque.”

Para asfixiar financeiramente as torcidas, foram extintas a Mancha Verde e a Independente. A Federação Paulista proibiu todas as uniformizadas nos estádios de São Paulo. Durante dois anos, praticamente sumiram e só se reorganizaram a partir dos desfiles de carnaval.

Capez reconhece que houve avanços e recuos nesses 20 anos. Ex-integrantes da Mancha Verde formaram a Mancha Alviverde e a Independente, na prática, só mudou sua estrutura. Algumas leis simplesmente não pegaram. Por outro lado, foi criado o Estatuto do Torcedor, o MP está em todas as discussões sobre segurança nos estádios e foram criados os Juizados Especiais Criminais, que conseguem resolver as infrações menores na hora. Para Bernardo Buarque de Holanda, a repressão tem de ser acompanhada de prevenção e reeducação, com a participação do governo e dos clubes.

A Alemanha, paradigma para tudo depois dos 7 a 1, reorganizou os estádios, mas manteve a festa das torcidas. “Aqui, os estádios são pouco atraentes – as bandeiras são proibidas – e as pessoas têm pouco engajamento com o espetáculo”, opina Bernardo.

Ester não quer mais saber de nada disso. Cuida das duas filhas, Alessandra e Shayenne, e do neto Eric. Acha que a violência sempre vai existir nos estádios. Para ela, o futebol acabou em agosto de 1995.  

 

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2015 | 17h00

A maioria dos torcedores organizados que vivem em São Paulo e no Rio de Janeiro é homem, solteiro, tem entre 20 e 29 anos, realiza alguma atividade profissional ou é estudante. Em geral, seu grau de escolaridade é o ensino médio e ele paga mensalidade ou anuidade para a torcida.

Esse é o retrato do torcedor formado a partir de uma pesquisa inédita do Museu do Futebol e do Centro de Pesquisa e Documentação da Escola de Ciências Sociais da Faculdade Getúlio Vargas, com apoio da Fapesp e do CNPQ.

O levantamento incluiu dados qualitativos e quantitativos e considera “torcedor organizado” aquele que vestia camisa, boné, calça ou bermuda da facção, bem como aqueles com bandeira ou instrumentos musicais nos estádios dos dois estados. 

Em São Paulo, foram colhidos 21 depoimentos de lideranças, atuais e históricas, do São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Santos, Portuguesa e Juventus. Parte dos relatos foi a matéria-prima para o documentário “Territórios do torcer”, que mostra a visão dos torcedores sobre diversos momentos da história das torcidas, como o início dos grupos na década de 70, a atuação durante o período militar, a batalha campal do Pacaembu, a explosão da violência, a extinção e a reorganização nos desfiles carnavalescos.

Na pesquisa quantitativa, foram distribuídos mais de 1000 questionários ao todo, no Rio e em São Paulo, com o objetivo de investigar o vínculo com o clube e a torcida, conhecer os hábitos e as percepções sobre a violência e a festa nas arquibancadas.

“A pesquisa mostra que os torcedores tinham responsabilidades antes e depois dos jogos para organizar a festa das bandeiras e dos adereços. Com a proibição, muitos ficaram ociosos e intensificaram a rivalidade com outros grupos”, diz a pesquisadora Aira Bonfim, do Museu do Futebol.  

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2015 | 17h00

O Campeonato Paulista de 2016 vai apresentar uma série de medidas para tentar controlar a violência nos estádios. Algumas delas procuram evitar as aglomerações dos torcedores organizados nas arenas e definem multas para os organizadores dos jogos e também aos torcedores.

Os estádios que não tiverem todos os assentos numerados não vão conseguir o alvará para realização dos jogos da Série A-1. Os torcedores que não respeitarem a numeração poderão ser multados. O mesmo raciocínio se aplica aos organizadores do jogo: se não tomarem providências para que cada torcedor ocupe o seu lugar, também poderão ser multados. Nos dois casos, a multa varia entre 100 e 1000 Ufesps (Unidade Fiscal do Estado de São Paulo), ou seja, entre R$ 2.100 e R$ 21.250.

O projeto de lei, de autoria coletiva, foi aprovado pela Assembleia Legislativa no mês de julho e será aplicado em 180 dias, exatamente na próxima edição do Paulistão. “Um dos objetivos é fazer valer os dispositivos do Estatuto do Torcedor”, afirma Fernando Capez, deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa. “Como consumidor, o torcedor tem o direito de encontrar seu lugar reservado no estádio no horário em que ele chegar. Isso é o mínimo”, completa.

Em relação às torcidas organizadas, Capez explica que os estádios podem reservar 20% dos lugares para elas, atrás dos gols. Isso vai ficar a critério dos organizadores. “No aspecto de organização, temos de aproximar o futebol brasileiro do futebol europeu e do norte-americano”, diz o deputado.

As bandeiras, um dos pontos mais polêmicos das medidas históricas contra as organizadas, devem continuar proibidas. Os mastros são considerados como armas brancas em potencial.

Na batalha do Pacaembu, os torcedores usaram as bandeiras para agredir os rivais, além das madeiras das obras do tobogã. “Acho que deveriam voltar”, opina o professor Bernardo Buarque de Holanda, da Fundação Getúlio Vargas. “Ainda temos um trauma daquele evento, mas é preciso pensar em uma agenda positiva. As bandeiras fazem parte do futebol de espetáculo”, diz.  

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