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Os abraços de hoje

Renato Gaúcho e Felipão se abraçam, mas são bastante distintos como treinadores

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2019 | 04h00

Durante as três partidas seguidas de Palmeiras x Grêmio, jogadas recentemente, tive chance de ver, por três vezes antes dos jogos, Renato Gaúcho e Luiz Felipe Scolari se abraçando longamente. Poucas vezes na vida vi abraços entre pessoas tão diferentes. O tempo costuma aplacar diferenças e diminuir atritos, por isso pareciam radiantes de se encontrar e os abraços davam a impressão de ser sinceros.

Mas, para quem está acostumado a vê-los por anos e anos, embutem uma ironia inegável e evidente. 

Os dois são frutos desse misterioso Rio Grande do Sul, que talvez seja o lugar do Brasil mais difícil de se apreender a essência, que sempre nos escapa, inatingível, enganadora e fugidia. Quando chegamos à conclusão que é uma coisa, revela-se outra e, por mais que estudemos, nenhuma é verdadeira. Parece homogêneo, mas é múltiplo. 

Renato e Felipão são produtos dessas dissimetrias que aparecem também no futebol, como seria óbvio. O futebol gaúcho é retrancado, disciplinado taticamente, duro, cinzento, às vezes triste como os ex-jogadores Tite, Felipão e Hellmann ou leve, irreverente, alegre e quase de praia como Renato Gaúcho, Ronaldinho Gaúcho e Everton Cebolinha. Difícil, não? 

Por isso me chamou tanto a atenção os abraços entre os díspares do Sul. Até na origem de suas carreiras são diferentes. Felipão sabia que seu horizonte como jogador era muito limitado. Talvez desde o início pensasse em ser treinador. Homem de defesa, duro, devia estudar os melhores métodos para se defender. Sonhava desde o início com táticas que empregaria depois, em outra função. Talvez por esse final de carreira já tenha se solidificado em sua mente uma maneira de ver o jogo que não abandonaria jamais. Forte na defesa, privilegiando o jogador disciplinado, que talvez tenha sido. 

Renato, ao contrário, era craque até as entranhas. Não era tático, sequer tinha posição definida. Era chamado de ponta-direita para simplificar. Podia estar lá ou não. Fazia o que lhe pedia o momento do jogo. Não abria mão de atacar, da jogada individual e do drible. Não era jogador que técnicos disciplinados e sérios gostavam muito. Lembremos do que aconteceu entre ele e Telê Santana. 

Os abraços trocados antes das partidas pela Libertadores podiam ser de amigos, nunca de admiradores mútuos, jamais de semelhantes. Para Scolari o empate é um resultado bastante aceitável, às vezes procurado, e até a derrota, conforme o caso, não é de todo decepcionante. Sua frase ao final da partida em que o Palmeiras saiu da Copa do Brasil, eliminado pelo Inter do mesmo Sul, é ainda lembrada por torcedores: “Afinal, ninguém morreu”. É uma frase que Renato nunca usaria. 

A ele só interessa a vitória. Não sabe jogar de olho no regulamento, não é capaz de entender plenamente a vantagem de um empate. Quando a câmera o focaliza, em momentos em que o Grêmio está perdendo, sua expressão não é de preocupação, mas de raiva. O rosto crispado como se já tivesse perdido o jogo, os olhares coléricos para lances que não aprova, o desespero da bola desperdiçada. Tem dificuldade de aceitar o erro.

Após as partidas, naquelas inoportunas entrevistas com os treinadores, é visível a diferença. Felipão ouve, mesmo com certa impaciência. Renato parece não ouvir, como demonstra seu olhar furioso. Se pudesse atacaria até quem fez a pergunta. Felipão, numa entrevista antes de um desses três jogos, disse que infelizmente não tinha podido conviver com Renato como atleta, pois, quando chegou ao Grêmio pela primeira vez, Renato tinha acabado de sair. Graças a Deus não houve esse encontro. Teria rendido boas histórias para jornalistas e torcedores. Mas, em compensação, esses abraços de hoje jamais existiriam.

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