Os bastidores dos cinco títulos mundiais brasileiros

Dino Sani, Zito, Clodoaldo, Mauro Silva e Edmílson contam as memórias das conquistas com a seleção brasileira desde 1958 até 2002

Gonçalo Júnior, Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2014 | 10h56

SÃO PAULO - A Família Scolari, símbolo da união dos jogadores na conquista do penta em 2002, também tinha seus arranca-rabos. Em um deles, Felipão deu uma bronca de meia hora em Luizão na hora da hidromassagem. Motivo: o atacante reclamou da reserva. Na Copa de 1958, a primeira conquista brasileira, Dino Sani conta que só caiu a ficha da importância do título no retorno ao Brasil, quando viram as ruas do Rio de Janeiro lotadas. No tri de 70, Clodoaldo é capaz de relembrar, passo a passo, o gol que marcou contra o Uruguai, na semifinal. Essas são algumas das histórias que os campeões mundiais com a seleção brasileira contam em entrevistas exclusivas ao Estado. Dino Sani (1958), Zito (1962), Clodoaldo (1970), Mauro Silva (1994) e Edmílson (2002) mostram que a Copa que o Brasil vai começar a disputar dentro de menos de duas semanas atualiza e revigora cada conquista anterior da seleção brasileira. O passado ganha cores novas. "Quando conquistamos um título importante durante a carreira, parece que estamos anestesiados. Não percebemos direito a importância. Agora, quando encerramos a carreira é que percebemos a importância de cada título", disse Edmílson.

1958

Dino Sani contou suas lembranças da Copa de 58 exatamente no dia em que completou 82 anos. Saiu mais cedo de um almoço com os amigos - uma moqueca bem leve era o prato principal - para reviver a primeira conquista da seleção brasileira. "Nós fomos saber mesmo o que significava ser campeão quando chegamos aqui no Brasil. Quando desembarcamos ao Rio, vimos que os torcedores se sentiam mais campeões do que nós. Eles se sentiram mais felizes por causa de 1950. Os jogadores tinham obrigação de tentar esquecer para se concentrar no jogo, mas o público ainda estava dolorido. É uma coisa engraçada. O público se sente jogador. Parece que ele está disputando também", afirma o ex- volante.

1962

"Você acha que eu vou me lembrar das coisas que aconteceram em 1962? Está de brincadeira, né? Foi com essa pergunta que o volante Zito recebeu a reportagem do Estado em sua residência em Santos. Era brincadeira, uma maneira de quebrar o gelo e tornar a entrevista mais amistosa. Deu certo. Apesar de levar alguns dribles da memória, o Gerente, como era chamado no Santos, ainda se emociona quando conta o gol que fez na final. "A lembrança mais forte que tenho da Copa de 62 foi o gol que eu marquei na final. Nós ganhamos de 3 a 1 da Checoslováquia, país que nem existe mais, e marquei o gol do título. O Amarildo correu de um lado e eu corri do outro. Ele tocou e eu entrei com muita facilidade, com a bola e tudo. Foi maravilhoso. Você imagina fazer o gol da vitória numa final da Copa do Mundo? Eu me senti o rei do futebol". 

1970

Clodoaldo queria dar seu depoimento no Memorial de Conquistas do Santos, mas como o local estava sendo visitando por alunos de uma escola pública de Santos, contentou-se com as arquibancadas do estádio onde escreveu sua história desde os 16 anos. A experiência adquirida na Vila fez com que se não intimidasse jogando ao lado dos reis do futebol. "Meu estilo é de boa marcação, mas fui me modernizando. Tinha boa visão de jogo e dava bons passes. Sempre me perguntavam porque eu não avançava, mas não havia necessidade. Eu olhava para frente e via tantos craques que eu achava que era uma ousadia ir ao ataque. Avancei contra o Uruguai e deu certo. Fiz um gol decisivo", afirma o eterno santista. 

1994

Organizado, metódico e disciplinado como exigia sua posição de volante, Mauro Silva preferiu abrir o baú de lembranças em um hotel sofisticado nos Jardins. Mandou e-mail de confirmação no dia anterior e, cinco minutos antes do horário marcado, mandou uma mensagem de texto para a reportagem. Afirma que o título de 1994 tirou o peso dos ombros de toda a nação. "Nós chegamos na Copa muito pressionados, porque os 24 anos sem título eram difíceis de se administrar. Sempre se questionava o trabalho, a escalação do time.. Não me lembro de ter vivido uma pressão tão intensa. Mas quando saímos do Brasil e fomos para os Estados Unidos, chegamos em um país que não vivenciava o futebol de uma maneira tão intensa. Então tínhamos mais tranquilidade para trabalhar". 

2002

Edmílson tem um museu particular em sua residência em Alphaville. Um dos destaques do rico acerto é uma réplica da taça do mundo e a camisa cinco que usou na conquista do penta na Copa disputada na Coreia e no Japão. As lembranças ainda estão frescas na memória do jogador articulado e inteligente, que costuma proferir palestra sobre sua carreira de sucesso. "Na final, eu estava muito mais tranquilo do que nos outros jogos. Nós havíamos sofrido muito antes, contra a Bélgica e a Turquia, e eu sabia que a gente ia ganhar da Alemanha. Foi o jogo em que me senti mais relaxado. Na hora da comemoração, eu fiquei perto do Cafu porque queria ser o segundo a beijar a taça. Consegui. Quando somos jogadores, ficamos um pouco anestesiados com as conquistas. Depois que paramos, elas ficam ainda maiores", diz o volante.

 

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