Os brasileiros das Arábias

O dia dos quatro brasileiros que fazem parte do Al-Ittihad, time que lidera o Campeonato Árabe e está invicto há seis meses, começa com uma consulta à internet. No site do Arab News são divulgados os horários das seis orações diárias que são obrigatórias no país.Para estrangeiros como o diretor João Paulo Medina, o técnico Candinho, o meia Tcheco e o atacante Dimba, essa é apenas uma das adaptações necessárias para viver no mundo árabe. Mas, se no cotidiano e nos costumes, os brasileiros ainda precisam de adaptação, no futebol eles estão no time mais vencedor do futebol árabe. Com a espinha dorsal brasileira, o Al-Ittihad lidera a liga nacional com 15 vitórias e três empates em 18 partidas, já está classificado para a fase decisiva, e conquistou no mês passado o título da Copa do Príncipe, que fez o time ser recebido no palácio do governador de Meca e Jedá. No total, são 33 partidas invictos na temporada.Candinho é um dos técnicos brasileiros mais experientes no mundo árabe. Trabalhou lá pela primeira vez no Al Hilal, em 1984, e fez parte do grupo que levou a seleção da Árábia Saudita a disputar a Copa do Mundo de 1994. Para ele, não dá para negar a evolução do futebol no continente, principalmente por causa do contato com brasileiros e outros estrangeiros. ?As condições culturais e de clima às vezes limitam um pouco a realização de um trabalho mais aprimorado. Mas o trabalho de base vem sendo aperfeiçoado com o passar dos anos. Está havendo uma profissionalização gradativa nos principais clubes do país, fruto da importação de know-how estrangeiro. Embora eles não tenham a mesma condição técnica da média dos jogadores brasileiros, são super aplicados taticamente?, diz Candinho. O futebol árabe se moderniza ao mesmo tempo em que o continente vive uma revolução de costumes. Assim como o trabalho no país ficou mais fácil para os técnicos brasileiros, o cotidiano ficou mais próximo do ocidental. Hoje, não só estrangeiros, como também os árabes de melhor poder aquisitivo já têm acesso a TV a cabo e internet. Programas em inglês e outras línguas já podem ser vistos com mais facilidade. Mas o choque cultural ainda é grande, como explica João Paulo Medina, diretor do Al-Ittihad. ?Esta rotina de rezar cinco vezes ao dia é uma das coisas que mais impressiona todo o estrangeiro, não muçulmano. Embora já se possa observar alguns árabes que não seguem esta obrigatoriedade ao pé-da-letra, quase a totalidade das pessoas exercita diariamente esta rotina, quer por fé, quer por receio de serem cobrados pelos demais?, diz. O costume influi até no futebol. Medina conta que, em uma viagem, os jogadores do Al-Ittihad pararam e se ajoelharam em um aeroporto, enquanto esperavam o vôo, para o contato com Alá. ?A mudança do horário das rezas provoca grandes confusões no dia-a-dia das pessoas. Os horários dos jogos, por exemplo, estão submetidos ao compromisso da reza. Eles quase nunca sabem o horário exato da reza. É preciso perguntar para os líderes religiosos. Os jogos são sempre programados para que não interfiram no horário sagrado das orações. Nós, como católicos, não precisamos seguir estes hábitos. Apenas nos cobram respeito. É o que fazemos?, diz Medina, lembrando que um desses líderes religiosos faz parte do Al-Ittihad. No início de maio, o time dos brasileiros começa a disputar a fase final do Campeonato Árabe como favorito ao título. A comemoração deve ser em outro palácio dos barões do petróleo. Mas sem bebidas alcóolicas, proibidas no país. E as penas são severas, inclusive para estrangeiros.

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