Arte/Estadão
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Alex: 'Clubes de futebol devem se aproximar do futsal para resgatar o drible e a criatividade'

Na série FUTEBOL EM DEBATE, eterno craque diz que País valoriza a tática em relação à técnica

Entrevista com

Alex - ex-jogador e comentarista esportivo

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2019 | 09h00


Uma solução para promover a evolução técnica dos jogadores brasileiros, fazendo com que os dribles sejam mais frequentes, por exemplo, é aproximar os clubes de futebol das equipes de futsal, caracterizadas pela criatividade e habilidade. Essa é uma das saídas propostas pelo ex-jogador Alex, o sétimo entrevistado na série especial Futebol em Debate, promovida pelo Estado.

Neste capítulo, ex-camisa 10 talentoso e cerebral do Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe e hoje comentarista da ESPN também avalia que os clubes deveriam administrar o futebol brasileiro. "Temos de dissociar o futebol brasileiro da CBF", afirma o ex-jogador.  

A entrevista pode ser ouvida em podcast. Basta acessar os canais de distribuição, como a Deezer e Spotify, e baixar o aplicativo no seu computador ou celular. O conteúdo também é publicado no canal Estadão Esporte Clube. Com a série Futebol em Debate, o Estado se propõe a discutir a qualidade do futebol brasileiro ouvindo personalidades do País, como jogadores, ex-jogadores e técnicos. Confira os outros capítulos com: Paulo Roberto Falcão, Rivellino, Emerson Leão, Muricy Ramalho, Dorival Junior e Carlos Alberto Parreira.

Você está satisfeito com o nível técnico dos jogos do Campeonato Brasileiro?

Depende do jogo. Generalizar é algo que não serve. Vamos traçar um paralelo com o futebol europeu. Os elogios que são feitos para os jogos do futebol europeu são feitos para os jogos da Champions League. Nos jogos do Campeonato Alemão, falamos de Bayern e Borussia. Na Espanha, Real e Barcelona. No final de semana, jogaram Parma e Fiorentina. A gente não assiste Parma e Fiorentina. Na Liga Italiana, a gente assiste Juventus e Napoli, por exemplo, que são times no melhor nível. Os principais nomes estão jogando no futebol europeu, na China ou até no mercado árabe. Isso diminui a qualidade técnica do nosso jogo. Dentro do que nós temos, é possível ver bons jogos.

O futebol brasileiro perdeu sua identidade?

Isso foi perdido. Isso é inegável. É preciso ver a condição social do País. Nós tínhamos ruas, praias e também o futsal. Hoje, só temos o futsal. Com o erro absurdo dos clubes de ter jogado o futsal para longe. É difícil um clube permitir que uma criança jogue futsal e futebol. Quando você larga isso, a técnica diminui. O futsal te dá técnicas maravilhosas. Na história do futebol brasileiro é impossível não relacionar os ganhos do futebol brasileiro ao futsal. Na rua, você tinha de se virar e se tornava inventivo. Hoje, perdemos coisas simples, como o “um para um”, por exemplo. Podemos citar pontas por dez minutos que driblavam os laterais. Isso foi diminuindo. A gente começou a imaginar que a parte tática fosse a mais importante. Eu ouvi falar de parte tática quando tinha 16 e 17 anos e estava chegando ao time principal. Hoje, os treinadores falam da parte tática aos 10 e 11 anos e esquecem o condicionamento técnico e a coragem para fazer algo natural, que não seja treinado, que é a questão do drible.

Uma reaproximação dos clubes de futebol profissional com o futsal pode resgatar a inventidade?

Para mim, o que teria de ser feito é o resgate do futsal, que deveria estar mais próximo do futebol. Não consigo ver os dois separados. A história do futebol brasileiro mostra isso. Um bom percentual dos nossos grandes nomes passou pelas quadras. Outra coisa que mudou muito é que o treinador tinha a função de formar e entregar jogadores. O técnico do mirim tinha de entregar bons jogadores para o infantil e assim para o juvenil e os juniores. E aconteciam algumas perdas na troca de categoria. Além disso, os treinadores da base ficavam longos anos na base. Hoje, as diretorias entendem que os times têm de ser campeões. Quando um diretor encerra seu mandato, ele fala que a passagem foi boa porque ganhou 40 e tantos títulos. Nessa conta estão dois sub-11, três sub-15... Para mim, o sub-11 deve chegar melhor ao sub-13 e assim sucessivamente.

Pode dar um exemplo?

Vários pais me procuram para indicar jogadores. Uma coisa que me assustou é que algumas dispensas são feita da seguinte maneira. O avaliador diz que o menino é bom, mas que ele é igual a outro que já treina naquela escola há três anos. Se ele diz isso, ele tem de mandar embora o menino que já está treinando há tanto tempo com uma evolução mínima. Isso me chamou a atenção. Além disso, os treinadores da base ficam um ano. É um profissionalismo conduzido de forma errada. Tenho três atletas dentro de casa: uma joga tênis, a do meio joga vôlei e o menino joga futsal. Quando eles sofrem uma derrota, a conversa é simples. Eu falo sobre a evolução. No ano passado, você foi às oitavas de final; neste ano, você foi à final. Neste ano, você já consegue usar seu pé contrário e assim por diante. O treinador do sub-11 não é ruim porque perdeu o título, mas sim porque não entregou a geração que ele treinou com alguma evolução.

E as escolinhas de futebol?

As escolinhas substituíram os campinhos de terra. Existem boas escolinhas e outras com proprietários que só pensam em ganhar dinheiro. Na escolinha, é possível descobrir se os filhos têm aptidão ou não. Outra coisa é o pai que sonha com o filho jogador e quer que ele jogue de qualquer forma. Não podemos confundir o esporte competitivo com o esporte como atividade física. Na rua, a seleção era natural. Tinha aquele que se destacava e outro que só completava o time. A escolinha vai fazer a seleção. A escolinha tem de indicar aquele que tem potencial e tem de ter coragem de falar que aquele menino não pode jogar futebol.

O futsal faz essa distinção, formando salonistas e futebolistas. Ele dá as coisas que usamos no futebol: drible, passe, controle, tomada de decisão, poder de marcação, fechamento de espaço. Hoje, alguns jogadores de futebol não conseguem fazer uma diagonal. É culpa dele? Provavelmente não. Na idade de formação, ninguém deve ter passado isso para ele. Estão preocupados em ganhar não em passar conceitos. É uma diferença grande. É bom passar conceitos, dando liberdade para jogar bola.

Qual é a influência da venda de jogadores nesse processo?

Os europeus tinham na tática seu poder principal. Nós também tínhamos tática, nosso time não era uma bagunça. A tática vinha depois da parte técnica. Quem vai jogar? Quem for tecnicamente melhor. Quando começamos a achar que deveriam jogar aqueles que fossem melhor taticamente, aí nós começamos a perder. Hoje, algum treinador usaria minhas características como jogador ou tentaria me encaixar? Essa é uma pergunta interessante.

Ao longo dos anos, acho que fizemos uma troca. Hoje, os europeus têm a técnica e mantiveram a organização. Fizemos o contrário. Passamos a ter uma preocupação exagerada com a parte tática e esquecemos de dar liberdade para quem tinha técnica. O principal problema não é o futebol profissional, mas as categorias menores. No sub-14, o menino com qualidade técnica é preterido. O treinador sabe que não precisa formar jogadores, ele está ali para ganhar títulos. Ele tem de colocar o que é melhor naquele momento e não aquele que vai evoluir.

O Neymar tem sido o grande craque brasileiros nos últimos anos, mas sempre se envolve em polêmicas. Ele vai mudar?

É preciso separar as duas coisas. Dentro de campo, ele é um gênio. Ele está na primeira prateleira dos jogaores que eu vi. Ele senta na mesa com o Zico, que é o maior que eu vi. Pessoalmente, eu achava que ele fosse evoluir em algumas situações. O Barcelona normalmente educa. No período do Barcelona, ele teve um comportamento dentro daquilo que o Barcelona exigia.

No Paris, ele tem o mesmo comportamento que ele teve no Santos, que é se colocar acima de qualquer situação. O Santos permitiu, agiu de maneira paternalista; o PSG permite. A maioria esperava que o comportamento dele fosse diferente. Para mim, um cara que o admira e torce por ele, eu acho que teremos pouquíssimas mudanças. Não acho que ele vai virar outro tipo de pessoa daqui para a frente. Lidar com as frustrações que a carreira mostra, ele tem uma dificuldade maior do que teria outra pessoa. Ser ele não é simples. É muito difícil. Mas ser ele (Neymar) pede esse controle. Ele tem alguns gestos que algumas pessoas condenam.

Paralelamente aos problemas dentro de campo, como está a gestão do futebol brasileiro?

Eu não gosto. Nós tínhamos de dissociar o futebol brasileiro da CBF. Esse é o primeiro ponto. A CBF faz muito bem o trabalho dela com a seleção brasileira. Isso é inegável. A gente vê os ganhos financeiros. Os resultados de campo podem até não ser bons, mas ninguém pode falar nada sobre os resultados financeiros e de organização. Eu joguei dez anos na seleção e não me faltava nada. A gente pode discutir se ela se distancia ou se aproxima do ponto por causa desses jogos fora do Brasil, mas acho que isso tem de ficar à parte do futebol brasileiro. Acredito que o futebol brasileiro tem de ser organizado pelos próprios clubes.

Pelos clubes?

Sim. Eles deveriam imaginar quem vai transmitir, que tipo de contrato será feito com as televisões, com mídias e patrocinadores. Mas a gente ainda não tem esse pensamento coletivo. A gente fica na ideia que Flamengo e Corinthians têm mais torcedores e devem ter maior rendimento. No Campeonato Brasileiro, no entanto, eles vão enfrentar clubes como a Chapecoense, que tem um número de torcedores bem menor. Ou Athletico Paranaense, que está vivendo um crescimento natural como clube, mas não sabemos o quanto mais ele poderá crescer. Enquanto a gente imaginar esse distanciamento e o clubes discutindo a questão de maneira individual, a CBF fica ali, juntamente com a Globo, detentora dos direitos. Os clubes jogam quando eles quiserem e ficam como reféns. Acredito que o calendário ainda é o grande “calo” do nosso futebol.

Por quê?

É impossível jogar tanto em períodos curtos sem dar a condição de o treinador recuperar os jogadores, fazer com que o time evolua e o jogador tenha tenha para evoluir. Ainda tem a questão cultural, com partipação da imprensa e das redes sociais. O questionamento em cima de treinadores, jogadores e diretores executivos é feita meramente em cima de resultados não de trabalho. Para mim, o maior mistério do futebol brasileiro se chama Roger Machado.

Como assim?

É impossível dizer se ele é bom ou ruim, pois ele nunca terminou um trabalho. O percentual dele indica que ele é um bom treinador. No Grêmio, Atlético e Palmeiras, ele tem percentual acima de 60%. Mas ele não termina o trabalho. Por alguma razão, alguém acima dele resolve que ele tem de ser mandado embora. Depois, o Grêmio ganha o campeonato; o Palmeiras ganha o campeonato. Com isso, parece que o trabalho dele não aconteceu. Parece que o treinador que veio a seguir é muito melhor, o que para mim não é verdadeiro. Quem faz isso é a imprensa, que passa uma ideia para o torcedor, que “compra” essa ideia. Temos outro exemplo. O Alberto Valentim foi mandado embora porque perdeu a decisão do Campeonato Carioca. Se ele ganhasse o torneio, o trabalho dele seria bom? Esse tipo de análise rasa faz com que as trocas vão existindo e os trabalhos sejam interrompidos. Culturalmente, a gente gosta dessa rotatividade. Os clubes e os treinadores ficam tão vulneráveis que a única ideia é ganhar e ganhar a qualquer custo. Muitas vezes isso não é o correto.

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