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Os clubes e a História

Para os dirigentes, o futebol ainda é fenômeno localizado e interessa apenas a um grupo de torcedores

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2017 | 03h00

Faz muitos anos que o interesse pelo futebol não atingia nem as elites nem a classe média bem pensante. Era algo que pertencia ao povão e só a ele. As coisas mudaram bastante desde esses tempos e hoje, quando se fala de futebol, fala-se de algo que atinge a nação inteira. Não é incomum que intelectuais e acadêmicos dediquem tempo para escrever livros, ensaios e artigos sobre futebol, de um ponto de vista refinado e inovador. 

A própria crítica e imprensa especializada mudaram e hoje é possível perceber em muitos analistas de futebol uma vida além do esporte, uma visão do mundo da qual o futebol participa, mas não é tudo. É muito importante essa mudança e muito bem-vinda. Apesar das patranhas, da corrupção que todos sabemos existir no futebol, ainda assim há esperança quando pessoas de nível se ocupam dele.

Os clubes, porém, se modificam pouco. Parecem se modificar, são eleitas diretorias aparentemente novas, mas, no fundo, o que temos em geral é o mesmo: velhas raposas, malandragem, e, sobretudo, profunda ignorância. Para os dirigentes dos clubes, o futebol ainda é um fenômeno localizado, que interessa apenas a um grupo de torcedores e exclui todos os outros. Passa longe deles a compreensão de que seus clubes fazem parte não só da história do esporte, mas da história da nação.

A instalação da internet na vida diária vem confirmar essas impressões. Hoje é fácil criar um canal de comunicação no YouTube, por exemplo, e expor a um enorme público ideias e intenções. Os clubes compreenderam isso e é comum encontrar noticias provenientes dele próprio, produzidas lá mesmo, elaboradas como o melhor que podem divulgar de si mesmos. 

E o que dizem? Nada. Nada que preste. Só noticias ocas que qualquer um já sabe. Uma espécie de autoelogio esportivo, sem qualquer preocupação de revelar alguma participação do clube na vida da cidade e do País. São filmagens de treinamentos, brincadeiras de jogadores, instalações modernas. A biografia do clube, os momentos em que foi testemunha e até partícipe de acontecimentos importantes, disso não se fala.

Vou dar um exemplo. Há um belo documentário sobre o período da democracia corintiana, que descreve o famoso movimento que passou além do futebol para se misturar com o movimento das Diretas Já, que acontecia ao mesmo tempo e sacudia o País. Esse documentário deveria ter sido produzido pelo Corinthians. Deveria ser algo a ser divulgado entre suas conquistas e títulos, deveria estar na sala de troféus do clube. No entanto, partiu da iniciativa individual de uma equipe de cineastas. Não fosse isso o filme não existiria, como até hoje creio que não exista oficialmente para o clube, como algo que lhe diga respeito oficialmente.

Esse é só um exemplo. Todo clube grande, pela sua grandeza, está obrigatoriamente envolvido na comunidade que o cerca. Todos têm momentos em que sua história, enquanto clube, se entrecruzou com a história maior da nação. Uma história não é só esportiva, mas social, política, etc.

Tome-se a Portuguesa como exemplo. É inacreditável que um clube dessa grandeza não se utilize dos canais de internet para pôr à disposição de todos sua grande participação, quase centenária, na vida de São Paulo, vivendo os acontecimentos da cidade, sendo testemunha e vítima deles. A Portuguesa é caso de um documentário, para que se averigue como a transformação radical de uma sociedade afundou, ou contribuiu para que afundasse, um clube glorioso, mas que não se ajustou à nova realidade social.

Se nada consegue resgatar a Portuguesa, a história poderia fazê-lo. Mas isso é só para quem é capaz de compreender onde está a grandeza do futebol.

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