Os craques revivem Corinthians x Palmeiras

O Corinthians está em crise, o Palmeiras também não vive os seus melhores dias. Nada disso, porém, diminui o brilho, a importância, a rivalidade e a tensão do maior clássico do futebol paulista e um dos maiores do futebol brasileiro. Corinthians e Palmeiras é Corinthians e Palmeiras (ou vice-versa, para não desagradar ninguém). Sempre foi assim, e sempre será. É o que garantem cinco personagens que fizeram a história do clássico: os corintianos Paulo Borges, Wladimir e Biro-Biro e os palmeirenses Dudu e Ademir da Guia. Reunidos pelo Agência Estado na quinta-feira, eles relembraram, num papo bastante animado, os muitos dérbis de que participaram, os ?sufocos??, as alegrias, tristezas e até algumas coisas que aprontaram. Wladimir abriu a conversa e foi logo lembrando de um carrinho que deu em Ademir da Guia, no seu primeiro Corinthians e Palmeiras. ?Eu me lembro muito bem, a bola estava até mais para você, mas fui com tudo e cheguei primeiro. Você não me conhecia, estava acostumado com os carrinhos de frente que o Zé Maria dava e eu dei de lado??, disse o ex-lateral. Ademir, na primeira de suas muitas tiradas bem-humoradas, respondeu: ?Você chegou primeiro, né? Deu carrinho de lado, né? Aliás, o que você dava de carrinho...?? Do outro lado da mesa, Paulo Borges ouvia e gargalhava (justificando plenamente o apelido de Risadinha), enquanto Wladimir se explicava. ?Pô, era o meu primeiro Corinthians e Palmeiras, estádio cheio (não foi bem assim, o público registrado naquele 5 de agosto de 1973 no Morumbi foi de 12.729 pagantes), eu tinha 17 anos (na verdade, tinha 18) e pensei: se eu vacilar, ?tô? morto. Aí, fui com tudo para o jogo.?? Foi mesmo: aos 7 minutos, cometeu um pênalti em Edu. Quem bateu? Ademir da Guia. ?Ainda bem que você perdeu??, agradeceu, provavelmente mais uma vez, quase 31 anos depois, Wladimir. Ademir cobrou e o goleiro Sidnei colocou a bola para escanteio. Logo depois, aos 9 minutos, Vaguinho fez Corinthians 1 a 0 e o Palmeiras só empataria com Leivinha aos 43 minutos da etapa final. Wladimir fez história no Corinthians (é quem mais defendeu o clube, 803 jogos) e no clássico. Como fez Dudu, que defendeu o Palmeiras por 44 vezes contra o rival ? mesmo número de partidas feitas pelo corintiano Luizinho. Ambos só perdem para Ademir da Guia, o jogador que mais vezes, 57, disputou o clássico, segundo levantamento da recém-lançada revista Grandes Clássicos. E o falante Dudu lembra muito bem o primeiro deles. ?Foi em 1964, era recém-chegado ao Palmeiras, nos concentramos no Pacaembu e fomos para o jogo. Eu entrei no segundo tempo, não lembro se no lugar do Zequinha ou do Ademir (foi no de Ademir). A gente estava perdendo por 1 a 0, mas o Servílio empatou e fizemos 2 a 1 naquele que, acho, foi o único gol do Geraldo Scotto na carreira??, recorda, sorrindo.Dudu lembra que Palmeiras e Corinthians era um jogo diferenciado. ?A gente se enfrentava quatro vezes por ano, duas pelo Campeonato Paulista e duas pelo Rio-São Paulo. E a semana do jogo era tensa, a gente tinha de ficar concentrado. O Pacaembu ficava cheio desde cedo, a cidade toda esperava pelo clássico. Havia o Santos, mas jogo com o Santos era técnico. Com o Corinthians era vibração, rivalidade, amor à camisa.?? Ou seja, a responsabilidade era (e é) grande. ?Perde do Corinthians para ver!??, grita Dudu, como se estivesse ainda nos anos 60. ?No Corinthians, era a mesma coisa??, interfere Paulo Borges. O volante da Academia trata o clássico com seriedade. Tanto que, num deles, deu a maior bronca no zagueiro Luiz Pereira, que havia feito uma aposta com o ponta-direita Paulo Borges. ?Eu fiquei p(...) com o Luiz Pereira, por causa daquilo. Uma palhaçada. E se a gente perdesse??? Paulo Borges continuava rindo. E contou como foi sua estréia no clássico, no seu quarto jogo pelo Corinthians. O ano era 1968 e o time do Parque São Jorge, que estava havia quase 14 anos sem títulos, atirava para todos os lados na tentativa de acabar com o jejum. ?Eu cheguei no mesmo dia do Buião. E o Corinthians tinha 8 pontas-direitas. Pensei, meu Deus, como vou jogar? Ainda bem que também jogava de centroavante e o Aimoré Moreyra gostava de me colocar ali.?? Mas foi na ponta-direita que Borges fez seu primeiro Corinthians x Palmeiras. ?Ganhamos de virada, 2 a 1. O Tupãzinho fez o gol deles, mas no final o Ditão (41 do segundo tempo) e o Benê (44) viraram. Ainda bem, pois a torcida do Corinthians tinha ido em grande número ao Pacaembu e já estava indo embora. Voltaram todos correndo para comemorar, pois assim que viramos terminou o jogo.?? Daquela vez, Tupã não tinha salvo o Palmeiras. Mas 6 anos antes, na estréia de Ademir da Guia, fez o gol da vitória de 1 a 0. ?Mas não me lembro direito desse jogo, acho que vencemos??, brincou Ademir, que marcaria pela primeira vez contra o arqui-rival na segunda vez que o enfrentou pelo Palmeiras, numa vitória por 2 a 0, em setembro de 1962. Com todos falando de suas estréias, Biro-Biro, até então calado, se animou. Não falou exatamente de seu primeiro jogo contra o Palmeiras (talvez porque o rival ganhou por 2 a 0 no dia 24 de setembro de 1978). Preferiu falar de um jogo muito especial: Corinthians 1 x 0 Palmeiras, em 30 de janeiro de 1980, válido pelo Campeonato Paulista do ano anterior. ?Fiz o gol da vitória, fomos para a final (contra a Ponte Preta) e ganhamos o título??, recordou Biro. ?E o gol que você fez foi de canela, lembra???, acrescentou Wladimir. ?É. O Matheus (Vicente, presidente do clube à época) paralisou o campeonato e, na volta, fomos campeões??, devolveu Biro. ?É, havia um acordo para que o campeonato não fosse parado. Mas o Matheus não respeitou, paralisou em dezembro e nós saímos de férias. O Palmeiras estava embalado e o Telê não deu férias a seus jogadores. Eles ficaram 30 dias treinando e nós, passeando. E ganhamos o título??, comemora até hoje Wladimir. Jogo inesquecível ? Dos cinco convidados da Agência Estado, três (Dudu, Ademir e Wladimir) estiveram em campo no dia 22 de dezembro de 1974, quando o Palmeiras venceu o Corinthians por 1 a 0, gol de Ronaldo, calando pelo menos 100 mil corintianos que foram ao Morumbi. E os três coincidem numa coisa: aquele foi o Corinthians x Palmeiras inesquecível para eles. ?Foi o jogo que mais mexeu comigo. O Morumbi estava cheio e 80% das pessoas torciam pelo Corinthians??, disse Ademir. ?Foi realmente incrível. Eles venceram e não comemoraram??, falou Wladimir. ?Havia um clima todo para o Corinthians ganhar, mas a gente sabia que iria vencer. É que o Palmeiras tinha mais conjunto??, explicou Dudu, o mais falante do quinteto, que vira-e-mexe interrompia os companheiros para expor suas opiniões, a ponto de ser alvo de um comentário de Ademir: ?O seu Olegário (nome do Dudu) está demais hoje??, disse o Divino a Paulo Borges. No meio das gargalhadas, Dudu retrucou. ?Mas não é por causa do vinho não, viu??? Mas e hoje, o que vai dar no clássico? ?É difícil fazer prognóstico. Mas a história mostra que, normalmente, o time que está em pior situação vence??, se apressa Wladimir, que planejava ir ao Morumbi esta tarde. ?Eu não vou! É muito sofrimento ver jogo no estádio. Fico nervoso, começo a suar??, avisa Paulo Borges, que espera que dê Corinthians. ?Vai ser um jogo difícil??, opina Dudu. Ademir entendia que o jogo que o Palmeiras teria na noite da quinta-feira com o Vitória iria sinalizar o que aconteceria no clássico. ?Se o Palmeiras vencer, ganha moral e entra como favorito.? As opiniões são divergentes, mas numa coisa todos concordaram: o clássico entre Palmeiras e Corinthians significa a diferença entre o céu e o inferno. E Dudu, com o espírito de liderança que o caracterizou nos tempos de Academia, quando por muito tempo foi o capitão do time, levanta uma polêmica: o comprometimento dos jogadores atuais com seus clubes que, claro, não é o mesmo do passado. Até porque as passagens pelos times, atualmente, são quase meteóricas de maneira geral. ?Na minha época, todo domingo a gente tinha de provar que era bom. Senão não jogava no Palmeiras??, diz. ?Hoje é difícil dizer quais atletas têm a identidade do clube. No Palmeiras, Magrão e Marcos.? O atacante Gil e o goleiro reserva Rubinho foram os indicados pelos ex-corintianos. O futebol mudou, mas a rivalidade entre Corinthians e Palmeiras não. Por isso, o clássico de hoje, como quase todos, pode ver nascer novo (os) herói (s). E também novo (s) vilão (ões).

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