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Os demitidos

Presidentes de clubes de futebol aparecem em fotos sorridentes com treinadores em cerimônia macabra

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2020 | 21h00

Não vou dar conselhos a ninguém, meus fracassos não permitem isso. Mas, se fosse obrigado a dar, diria aos jovens jornalistas esportivos que procurassem investigar, além dos méritos dos treinadores, também, e em primeiro lugar, os presidentes dos clubes. Mas investigar mesmo, pesquisa séria, de biógrafo profissional. Traçar o perfil completo, para ser divulgado preferencialmente no dia que chegam à presidência.

Não seria uma investigação meramente policialesca, mas informativa da personalidade, do que pensa, do que supomos que possa pensar e do que provavelmente fará na presidência do clube. Seus anos escolares, suas influências de juventude, como ganham a vida e como surgiram no clube e ascenderam à posição de mando.

Só isso já demandaria duas páginas de jornal. Em suma, para dizer a verdade, não recomendo mesmo uma simples reportagem, mas uma alentada biografia. Biografia não autorizada, claro. É imprescindível que os presidentes dos clubes sejam tão conhecidos, tão íntimos dos torcedores e do público, como os jogadores que supostamente contratam e comandam. Talvez mais.

É preciso que sejam conhecidos simplesmente para serem responsabilizados. É preciso atravessar uma rede de proteção bastante grande para chegar a qualquer presidente. As criticas, quando chegam a ele, já enfraquecidas pelo longo trajeto que tiveram que percorrer, chegam atenuadas pelo treinador, que leva a primeira bordoada, pelo resto da comissão técnica, pelos conselheiros e diretores de plantão.

Só quando a crise assume proporções alarmantes esse senhor é incomodado, assim mesmo à distância. Depois da guarda pretoriana ultrapassada e vencida.

Toda essa corte precisa ser também esmiuçada e trazida para a luz, com nomes e sobrenomes. Todos. A minha ideia seria vê-los através da pesquisa como realmente são e visa a que se chegue mais rápido a eles.

Não é possível continuar olimpicamente instalados numa bela sala fechada de reunião, enquanto outros vão levando pancadas em seu lugar. Não é possível que só apareçam nas fotos ao lado do craque que acabaram de contratar e sobre o qual enfiam a camisa do clube, sorridentes. Esse momento alegre é sempre do presidente. Mas se o craque não der certo, se não for o que se esperava dele, jamais se verá o presidente explicando a contratação que deu errado.

Com treinadores, então, é pior ainda, já que são os primeiros a desabar. Gostaria muito de saber o que os presidentes falam para os treinadores segundos antes da fotografia comemorativa. Duvido que hoje em dia alguém tenha coragem de prometer muita coisa, sobretudo clubes cuja reputação e vida recente não oferecem credibilidade alguma quando se trata de segurança do cargo para os treinadores.

Os mais escolados treinadores deveriam dispensar a foto, ou melhor, dispensar a presença do presidente ao seu lado. Esse endosso festivo não significa absolutamente nada. À primeira pressão, que venha de onde vier – muitas vezes ninguém sabe de onde vem –, pode fazer ruir todo o apoio, a solidariedade e a confiança que o sorridente presidente depositou no contratado.

É uma cerimônia macabra essa foto, uma verdadeira cerimônia de adeus. O adeus ronda esse ritual, os dois sabem que ele está presente e sabem ambos que têm pouco tempo de paz. Um sorri porque sabe que nunca será chamado a explicar essa contratação; o outro sorri pensando na multa contratual.

O presidente nunca mais será visto se as coisas correrem mal. O que ele vai fazer é desaparecer e deixar a cargo de seus apoiadores a tarefa de inventar outro nome de treinador que o clube pretende contratar. Esse nome é distribuído à imprensa. Quanto mais incrível e inverossímil ele for, melhor. Ganha-se tempo para crise diminuir. Quando for o caso de uma nova foto com o novo treinador, ai sim, contem com ele e seu melhor sorriso.

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