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Os desvalidos

Há tendência a considerar técnicos seres injustiçados e incompreendidos. Não é assim

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2017 | 05h38

A saída de Dorival Júnior causou alvoroço na praça. A decisão da diretoria do Santos de dispensá-lo no domingo, poucas horas após a derrota por 2 a 0 no clássico com o Corinthians, em Itaquera, recebeu críticas de todo canto. O mínimo que se disse a respeito da decisão dos cartolas foi a de que agiram com precipitação, incoerência e falta de sensibilidade. Em resumo: eles erraram feio pra chuchu. 

Teria sido tudo isso e mais um pouco o conteúdo do saco de maldades dos dirigentes? Fico em dúvida. Não se deve descartar a hipótese de que agiram com emoção – de resto tão usual no futebol. Mandar embora treinador desponta como solução natural e corriqueira para a maioria das crises. Faz-se a troca ou por necessidade evidente ou para mexer com grupo de jogadores e acalmar as cornetas dos fãs.

Intempestividade do patrão à parte, se parou para observar o trabalho dos últimos tempos? O padrão do time corresponde ao que se esperava dele? Dorival e colaboradores andavam na trilha adequada? Com as atenuantes habituais – mudanças no elenco, baixas por contusões, acúmulo de jogos –, a resposta é não. O Santos de 2017 se mostra sombra daquele do ano passado, que faturou o Paulista e foi vice nacional.

A trajetória até aqui não chega a ser um desastre: o desempenho no Estadual foi mediano e as três derrotas em quatro rodadas no Brasileiro recém-iniciado não significam que cairá para a Série B. No entanto, o conjunto atual da obra não entusiasma. A exceção se restringe a algumas boas apresentações na primeira fase da Libertadores.

Há algum tempo não se notam mudanças significativas na maneira de o Santos jogar. Não surpreende, não acua adversários, não sai do trivial. Repito, ressalvadas as limitações de qualidade, etc e tal, que pesam sobre o trabalho coletivo, aí incluído o do “professor”. Comum a sensação de mais do mesmo. Por que, então, não mexer, sobretudo num momento em que se torna viável reviravolta, pois restam muitos meses, ainda, de campeonato?

No mundo ideal, técnico ficaria anos e anos no cargo, como ocorre com Arsène Wenger, no Arsenal, e olhe lá. Até europeus, tão incensados pela paciência e fidelidade com treinadores, há muito já aderiram à rotatividade; mesmo potências da bola, repletas de astros, apelam para renovação no banco de reservas, até após conquistas expressivas. 

Aqui, temos tendência a considerar esses profissionais como coitados, incompreendidos, injustiçados. Espécie de párias nesse universo perverso do futebol. Ok, são incontáveis os casos em que demissões poderiam ser evitadas. Em contrapartida, nem sempre elas são equivocadas e insanas – técnicos são “gestores”, bem pagos e com obrigação de apresentar resultados. 

Não há como negar, também, que certas rupturas são lamentadas nem tanto pela excelência do trabalho, mas pela “figura humana”. Gosta-se da pessoa, acima e além do profissional. Dorival está incluído nesse bloco. Sujeito bacana, correto, talentoso, e que teve seu maior tempo de permanência nesta experiência na Vila – salvo engano, com 127 jogos. Algo até então inédito na carreira dele. 

A passagem de bastão no Santos não embute revolução de métodos. Tanto que o preferido é Levir Culpi, figura carimbada, rodada, capaz, porém longe de guinadas fenomenais. Ficará na média. Que Dorival não se desespere; logo mais, estará à frente de um time importante. Técnico de futebol perde – e ganha – emprego com facilidade incomum para qualquer categoria, aqui e no mundo. 

Elano dará as diretrizes no clássico desta noite com o Botafogo, na Vila. Atuará como quebra-galho, e dará os primeiros passos em nova etapa profissional. Sorte e sucesso, e que não tenha pressa de assumir protagonismo, como alguns ex-boleiros; não precisa queimar etapas. 

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