Miguel Pereira/Reuters
Miguel Pereira/Reuters

'Os interesses da Conmebol passaram por cima da vontade dos jogadores'

Especialista na questão da violência no futebol argentino vê Buenos Aires capaz de receber decisão, que foi para Madri

Entrevista com

Fernando Segura, sociólogo mexicano

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2018 | 11h11

A Argentina teria condições de receber o segundo jogo da decisão da Libertadores entre River Plate e Boca Juniors, marcada para este domingo, em Madri, na Espanha, mesmo depois dos episódios de violência no dia 24 de novembro. Além disso, a capital espanhola foi escolhida por critérios comerciais.

A opinião é do sociólogo mexicano Fernando Segura, estudioso da questão da violência no futebol argentino e membro da ONG Salvemos Al Fútbol. Em entrevista ao Estado, o especialista, que também trabalha na Universidade Federal de Goiás e no Centro de Investigação e Docência Econômica do México, afirma que os interesses comerciais da Conmebol se sobrepuseram à vontade dos jogadores, que não queriam jogar na capital espanhola e sim em território argentino.

1. Como o senhor avalia a escolha de Madri como sede da final, considerando a questão dos torcedores argentinos?

Eu avalio como uma falha da organização em geral, do policiamento e um problema constante de violência entre torcedores na Argentina. Não diria que foi um problema da barra brava. Ela tem seu poder, esteve envolvida de alguma forma, mas a barra não estava presente no momento da passagem do ônibus do Boca Juniors. 

2. Como assim? 

Nos últimos doze anos, nós analisamos múltiplos fatos de violência. Na análise deste fato, identificamos que foi uma falha do policiamento e houve a agressão de torcedores comuns. A barra brava estava perto, mas não estava aí. Depois, ela brigou com a polícia naquelas cenas que nós vimos, um escândalo. As autoridades do futebol na América do Sul, a Conmebol, procuraram tirar a maior vantagem desse episódio absurdo. Elas poderiam ter cancelado, adiado a final. Diante do cenário da Copa do Mundo de Clubes, eles quiseram dar um valor comercial maior à final. 

3. O jogo poderia ter sido mantido na Argentina?

Estou falando de fora, sou mexicano, mas acho que a Argentina tinha capacidade de sediar o outro jogo. Poderia ter sido em outro estádio de Buenos Aires. Poderia ter sido em Mendoza, Rosario, Córdoba... A Argentina sediou o G-20. A escolha de Madri responde a uma ideia de tirar a vantagem comercial possível desta final e de vender essa final, que talvez seja o maior produto que a Conmebol tenha para vender neste momento, no mercado internacional. 

4. Podem ocorrer novos conflitos no jogo deste domingo?

A questão da rivalidade das torcidas é complexa. Se formos analisar os confrontos dos últimos anos entre Boca e River Plate, nos jogos com presença das duas torcidas, pois a Argentina joga-se com torcida única, não tivemos conflitos entre as barras bravas. Um exemplo é o jogo deste ano. As barras bravas têm um uso instrumental da violência. Elas sabem utilizar a violência para fins específicos. Elas têm capacidade de violência, obviamente, mas nem sempre a utilizam de forma irracional. Elas sabem quando, como e por quê usar a violência. Na final da Copa Argentina, não houve problema. Às vezes, os problemas acontecem com torcedores comuns. Existe possibilidade de novos confrontos em Madri. Mas não acredito em fato massivo. Haverá um controle rígido. Seria da mesma forma se a final ocorresse em outra cidade Argentina. O controle seria tão forte que não haveria brigas massivas. Podem acontecer brigas na rua, numa estação de trem, na rodoviária, como acontece na Argentina, no Brasil ou quaisquer países do mundo. 

5. Os times se mostraram contrários à realização do jogo em Madri, mas vão entrar em campo mesmo assim. O que isso significa?

Isso significa o poder das instituições do futebol por cima dos jogadores e dos clubes. Na final da Copa Sul-Americana em 2012, os jogadores do Tigre foram agredidos pelos policiais no Morumbi, estádio do São Paulo, e resolveram não jogar o segundo tempo. A Conmebol declarou o São Paulo como campeão. Se os jogadores se rebelam, existe o risco de o clube pagar as contas. Aqui ninguém queria pagar as contas. O Boca Juniors não quer deixar a possibilidade do River Plate ser declarado campeão. São as instituições que decidem. O ponto de vista e as decisões dos jogadores são subestimadas.

6. Alguns torcedores criticaram a mudança do local e, ironicamente, usaram a expressão "Copa Colonizadores da América". Como o senhor analisa essa postura? 

É uma opinião geral de desconforto dos torcedores. Desde o momento que a Copa foi levada para outro continente por questões comerciais, nada muda. Se fosse Catar, Estados Unidos, nada muda. O fato de mudar o continente é um critério da Conmebol e responde a outro tipo de interesse. É a percepção do futebol como um produto a ser vendido. 

7. Como o senhor imagina que essa decisão será lembrada dentro de 20 ou 50 anos? Ela perdeu sua transcendência, como citou o técnico Santiago Solari, do Real Madrid? 

Tenho sido muito crítico em relação à tomada de decisão. Se houver uma festa grandiosa, um jogo interessante, cenas de convivência e uma grande celebração, em Buenos Aires e Madri, o jogo não vai perder toda sua transcendência. Vai ficar para sempre uma história esquisita pelo fato de a final da Libertadores ter sido disputada em Madri. Mas essa é a tendência. A Copa Intercontinental de clubes era no Japão. Agora, o Mundial de Clubes é realizado no Japão, Marrocos, Catar. As confederações e a Fifa pretendem isso no futebol. Elas vão tudo para que a final seja lembrada como uma grandiosa festa. 

 

 

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