Os intocáveis

Respeito é bom e todo mundo gosta, diz o velho ditado. Perfeito. Brincadeira de mão, brincadeira de vilão, avisavam as mães de antigamente. Corretas, como sempre. Dura lex sed lex (A lei é dura, mas é a lei), apregoavam juristas romanos, até que um dia, lá pelos anos 1950, um publicitário por aqui acrescentou “e no cabelo só Gumex”, desaparecida marca de brilhantina. Claro, não se vive sem lei.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2015 | 03h00

A junção dessas frases feitas é para discutir a punição de Dudu. O meia do Palmeiras tomou seis meses de suspensão na cacunda pelo arremedo de empurrão depois de levar vermelho de Guilherme Ceretta de Lima segundos antes do intervalo do jogo com o Santos na final do Paulista. O moço se irritou com a decisão do árbitro, que optou pela expulsão dele e Geuvânio por se estranharem em cobrança de falta. Partiu para cima a fim de tirar satisfações e entrou pelo cano.

A pena foi excessiva, desproporcional ao gesto do condenado e contemplou apenas o lado da “ordem e autoridade”, no caso representadas pelo apitador. Sem fazer apologia à violência, ao mau-caratismo ou ao desrespeito, que ninguém é sonso nem estúpido, o episódio merece reflexões, que fogem do estrito terreno esportivo.

O clássico de encerramento do Estadual estava tenso, como é normal em partidas de tal nível. Mas não violento. Reclamação aqui, dividida ali; enfim, a catimba habitual. Ceretta desde os primeiros minutos de bola a rolar escolheu o estilo durão, que agrada a tanta gente - cartolagem, crônica esportiva, ex-colegas de profissão que ditam regra em transmissões e aparecem mais do que o comentarista. O famoso bordão “tem de manter o controle do jogo” usado como palavra mágica.

O empurra-empurra entre Dudu e Geuvânio foi tosco, na cara do juiz e não mereceria nada além de uma boa bronca. Expediente que Suas Senhorias usam quando assim o desejam. O entrevero acabaria ali, já que após a falta seria hora de irem para o vestiário.

Fiel ao mantra de não-perder-o-controle-do-jogo, Ceretta lascou o cartão nos dois. Dudu não se conformou e ensaiou um gesto mais brusco; tentou recuar, quando estava com as mãos nas costas do árbitro. Era tarde. Inconveniente? Sem dúvida. Abusado? Certamente. Violento, não. Não a ponto de ver-se impedido de jogar futebol por meio ano, como se fosse delinquente.

Um punhado de jogos de molho para Dudu e estaria bem adequada a carraspana. Como comparação, há o incidente de Petros com Rafael Claus, na mesma Vila, no mesmo lado do campo, pelo Brasileiro de 2014. Na ocasião, o corintiano nem foi advertido. Na sequência, foi denunciado, julgado, pegou seis meses e a pena, em seguida, reduzida para três jogos. A iniciativa de Petros foi acintosa e gratuita, coma alegada atenuante de que se tratou de choque casual, sem querer. Dudu teve a agravante de reagir a uma advertência.

A questão é delicada e tem a ver com a valorização da figura do juiz de futebol. Evidente que precisa ser preservado; caso contrário, levaria sopapos a cada decisão que desagrade a um dos times, independentemente de acerto ou erro. Há, no entanto, tentativa de elevá-lo a Ser intocável, inatacável, imune a falhas; acima do bem e do mal. Pode ter a postura que lhe convier. Sem qualquer contestação, vagueia entre a autoridade que as regras lhe conferem e o autoritarismo ao qual não tem direito.

O árbitro está sujeito a falhas, tensão, vacilos técnicos, erros de interpretação, descontrole emocional, problemas pessoais. Cabe-lhe, portanto, o benefício da indulgência, e o pressuposto de que não age por má-fé. Quantos deles são afastados por longos períodos por causa de erros graves? Por que não se concede ao atleta igual tolerância? Por que partir da conjectura de que ao juiz tudo é permitido, até a insensatez?

O poder que se concede aos homens de preto é desmedido, policialesco. Poucos sabem usar bem da prerrogativa do comando; por isso, extrapolam e corroem a relação com os jogadores. Algo a ser revisto.

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