Os que atrapalham

Com o tempo, vamos conhecer um só torneio que moldará nossa forma de atuar

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 04h00

Quinta-feira jogou-se mais um clássico deste Campeonato Paulista. Todos sabem o que aconteceu. No primeiro tempo, quando houve realmente jogo, o Palmeiras massacrou o São Paulo e só não houve goleada por milagre.

No segundo, não houve jogo. Havia um time apenas controlando a vantagem e o outro não conseguindo diminuí-la. Após o jogo, ouvi vários comentários de imprensa e de jogadores dizendo que o Palmeiras tinha feito um jogo de Libertadores. O que implica em dizer que a partida foi de um time que disputa a Libertadores contra outro que não a disputa, limitado, portanto, ao velho Paulista. Fiquei pensando um pouco e vi que muito do que disseram era verdade. Realmente o Palmeiras jogou, não como se estivesse disputando a Libertadores, mas à moda da Libertadores, isto é, adotando um tipo de jogo aparentemente típico dessa disputa.

Um jogo assombrosamente físico, de extremo empenho, correria desenfreada, ocupando os espaços e não deixando o rival levantar sequer a cabeça para tentar colocar a bola no chão. Esse jogo extraordinariamente impetuoso onde todos corriam implicava ainda em contato físico constante, para não dizer, pancada. Não sei se o São Paulo foi surpreendido por esse ímpeto do rival, mas o fato é que claramente não estava lá para jogar uma Libertadores.

Fisicamente seus jogadores pareciam incomparavelmente mais frágeis que os rivais, que ganhavam na raça todas as divididas e saíam em ataques rapidíssimos. O São Paulo, portanto, jogava à la Campeonato Paulista tradicional, perdendo todos os duelos físicos. No fim do jogo um conhecido comentarista observou que Rodrigo Caio, o mais técnico defensor do time, jogador de méritos inegáveis, na marcação de Borja parecia um atleta de equipe infantil enfrentando profissional. O que ele quis dizer com isso?

Claramente se referia ao físico. Borja ganhou todas as bolas, todos os combates diretos com Rodrigo Caio, seja pelo alto seja pelo chão, na base do contato físico e da rapidez, dando-se ao luxo de ele, Borja, fazer a marcação da saída de bola do são-paulino. Esse combate resume parte fundamental do duelo. Um dos atletas jogava uma competição, da qual, aliás, é representante típico e à qual deve sua fama, o outro estava preparado para jogar outra competição tradicionalmente mais adequada ao seu tipo físico e seu futebol. 

Não estou analisando Palmeiras e São Paulo jogador por jogador nem tentando diminuir a grande vitória do Palmeiras.

Evidentemente o time do Palmeiras é melhor, mas tanto como se viu no primeiro tempo? O treinador do Palmeiras pode ser também um jovem talentoso e competente, mas tão mais competente do que Dorival Junior, como se viu no mesmo primeiro tempo?

Não acredito. Acho mais possível que jogavam cada um a sua competição. Na Libertadores não há lugar para garotos, talvez talentosos, mas de físico não apropriado ainda.

Os garotos do Morumbi sentiram o que significa jogar nesse torneio do qual, aliás, estão fora. Os torcedores do São Paulo que encheram o último treino do time, em mais uma comovente demonstração de amor ao clube, não poderiam supor que do outro lado do muro treinava um adversário que não pensava no São Paulo, mas na Libertadores.

O fantasma dessa disputa assombra definitivamente o futebol nacional. O Palmeiras ganhou bonito e vistosamente. Alguns lances foram de encher os olhos, mas, por outro lado, desapareceu do Palmeiras o drible, tanto que Keno, o único capaz de executar essa jogada tão brasileira, nem entrou. O time não precisava dele. Com o tempo, vamos conhecer um só futebol e um só torneio que moldará nossa maneira de jogar. Não será certamente o velho Paulista. Hoje ele só atrapalha.

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