Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

'Os resultados foram melhores que o esperado'

Dirigente da CBF aciona o governo para manter jovens

Entrevista com

Gilmar Rinaldi

Ronald Lincoln Jr., O Estado de S. Paulo

20 de julho de 2015 | 07h00

Gilmar Rinaldi, coordenador de seleções da CBF, vai pedir ajuda do governo para tentar impedir que jovens jogadores deixem o País muito cedo para atuar no futebol estrangeiro. Esse é um dos próximos projetos do dirigente, que completou um ano na CBF na última semana. Ao fazer um balanço sobre o período, em entrevista exclusiva ao Estado, ele considerou que o seu trabalho, junto com a comissão técnica comandada por Dunga, foi acima do esperado, baseando-se nas onze vitórias que obteve em amistosos.

 

Gilmar, porém, acha que os jogadores da seleção brasileira precisam se adaptar ao “fair play negativo do futebol sul-americano” para ter um bom rendimento nas Eliminatórias. “A única forma de pegar experiência é no campo. É ir lá e apanhar”, diz o dirigente da CBF. 

Qual é o balanço de um ano como coordenador de seleções na CBF? 

A primeira radiografia que busquei para fazer foi na base. Depois de um tempo, Dunga e eu começamos a tomar algumas filosofias de mudança. É a filosofia da meritocracia. Na seleção brasileira tem que chegar à excelência, o melhor.

A demissão de Gallo teve a ver com essa filosofia?

Quando você vai fazer uma convocação, o médico liga para o médico do clube para ver se o jogador está bem, o treinador para treinador. Eu identifiquei que não estava sendo feita uma coisa. Então falei para o presidente: eu acho que tem que ser a mudança agora, apesar do desgaste, estou convicto.

Com o que você não concordou?

Convocamos um atleta do Grêmio (Matheus Biteco), que estava sem jogar desde novembro, com uma carta de ameaça de uma empresa que tem os direitos dele. Se a lesão se agravasse, a CBF seria responsabilizada. Não foi feita a checagem.

Pode fazer um balanço da seleção principal nesse período?

Pegamos uma seleção vindo do 7 a 1. Sabíamos que precisávamos trabalhar para retomar a auto confiança. E aí nós criamos uma relação muito boa e começaram a vir os resultados. A gente tem de reconhecer que foram melhores do que o esperado. Não se esperava onze vitórias. Houve erros, mas são internos. Não temos prepotência de achar que vamos acertar sempre. 

Qual é sua avaliação do Brasil na Copa América? 

Perdemos algumas referências. A lesão do Luiz Gustavo, jogador muito importante, depois a do Danilo, a do Oscar e a ausência do Neymar, 40% do time. Tentamos mostrar ao time que na Copa América há uma condição muito especial, parecida com a Eliminatória. Nossos jogadores saíram daqui muito cedo. Estão acostumados com tudo certinho, e aqui (na América do Sul) não tem nada de certinho.

O Neymar foi repreendido após a confusão com a Colômbia?

Não é repreendido. Ele já tem 23 anos. Ele quis ficar e foi punido (pela Conmebol). Mas ele amadureceu muito.

Por que não recorreram da punição do Neymar?

A parte jurídica não é da minha alçada. A permanência dele ou não com o grupo foi decidida por mim e pelo Dunga. É a parte que nos compete junto com o Neymar.

Depois da Copa América houve muitas críticas quanto à qualidade dos jogadores. Qual é sua visão?

Nossos jogadores estão nos maiores clubes do mundo. Temos jogadores de muita qualidade que saíram muito cedo e que tentam criar identidade com o nosso País. O que têm de fazer é se adaptar ao futebol sul-americano.

O que é preciso para adaptá-los?

É muito simples. A única forma de pegar experiência é no campo. É ir lá e apanhar. Enfrentar esse fair play diferente. Saber se controlar.

Você falou que os jogadores são de destaque. Mas porque o conjunto não funciona?

Aí é que está: o conjunto perdeu quatro. Nós conseguimos fazer um belo time. Talvez com 11 jogadores que formam o sempre o mesmo time. Mas eu não posso ter 11 jogadores. Preciso ter 23, 30. 

A convocação de jogadores que estão saindo dos grandes centros pode ser revista, visto que não foram bem?

A gente só ia saber isso chamando. Hoje a gente já tem uma visão de como eles estão nos mercados. 

Como é a sua relação com o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero?

Todos os dias que estou aqui levo uma lista de assuntos para tratar com ele. Afinal, ele precisa saber de tudo que está acontecendo.

Acha que o caso de corrupção na Fifa pode ter causado algum tipo de pressão à seleção?

Não, zero. Uma coisa se chama “entidade CBF” e outra a “seleção brasileira”. Não temos autoridade, nem competência para julgar. Fazemos a nossa parte. Não nos compete dar opinião.

O que espera do conselho estratégico da CBF? Na primeira reunião havia técnicos que há tempo não trabalham em alto nível...

Eles têm um passado muito bom, quase todos eles. Têm sabedoria. Estou aberto para aceitar sugestões. Se alguém der uma ideia melhor que a minha, vou pegar. Vou chamar jogadores campeões, Nelinho, o Zico, Junior. Pessoas que sejam referência. 

Já houve algum projeto prático que foi fruto da reunião?

Uma deles é um problema sério. Todo mundo leva nossos craques. Com 12 anos eles estão indo embora. A nossa legislação não deixa fazer contrato com uma certa idade. Precisamos chamar a atenção para isso. Vamos acionar o governo. 

O Brasil não ficou entre os quatro melhores da Copa América. Vai se repetir nas Eliminatórias? 

É um jogo, vamos entrar. Tenho certeza da classificação.

Acha que a seleção está distante do torcedor brasileiro? 

Não tem a química que eu gostaria. Nem na hora do jogo. Não é como no clube, do qual a torcida está acostumada a ir aos jogos e a fazer a musiquinha. Nada melhor do que deixar o pessoal ver o treino. 

Como fazer para ter esse contato com amistosos na China, por exemplo?

Nós precisamos jogar na China. Precisamos jogar com adversários fortes em outros lugares. Mas concordo que precisamos jogar aqui e vamos. Pedi também que a seleção olímpica jogue sempre aqui. 

Dunga contestou recentemente a colaboração de técnicos estrangeiros. O que acha disso?

O Dunga sugeriu nomes de estrangeiros para o conselho junto comigo. Fomos visitar na Alemanha o (Jürgen) Klopp, técnico do Borussia Dortmund, fomos ao Chelsea falar com o Mourinho. Depois, no Real Madrid, com Ancelotti. Claro que temos que ver o que está sendo feito lá, mas não vamos copiar, não. O Dunga é o cara mais aberto a novidades. A gente está vendo aqui quem chamar (para o conselho), quem pode dar retorno técnico. 

Pensam em chamar técnicos que estão fora do Brasileiro?

Sim. A gente quer fazer um conselho específico com os principais treinadores. Não posso deixar de fora o Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro.


Tudo o que sabemos sobre:
CBF, Futebol, Gilmar Rinaldi

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.