Clayton de Souza
Clayton de Souza

Oscar recorre aos médiuns na luta contra o câncer

Ex-jogador de basquete também faz quimioterapia

Entrevista com

Oscar Schmidt

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 Março 2015 | 17h00

Oscar tenta tudo na luta contra um glioma, câncer no cérebro diagnosticado em 2011. Depois de duas cirurgias, sessões de radioterapia, quimioterapia e novos tratamentos feitos nos Estados Unidos, um dos maiores jogadores da história do basquete mundial visita médiuns em busca de tratamentos espirituais. Ontem, ele esteve com o mineiro Paulo Neto, que costuma fazer mais de mil atendimentos por dia em Minas e interior de São Paulo. Antes, havia feito uma consulta a João de Deus, líder espiritual que costuma atrair 5000 pessoas a Abadiânia, em Goiás. 

Outro remédio do tratamento é o bom humor. “Vou morrer, mas vou atirando. Não vou ficar sentado em casa. O que aparecer de tratamento eu vou fazer. Quem cura é a cabeça”. Nesta entrevista exclusiva ao Estado, o Mão Santa – apelido do qual ele gosta, mas não tanto assim por valorizar o treinamento –, mostra otimismo sobre dos Jogos de 2016. “Vamos bater o recorde de medalhas no Rio”, diz. 

Como está sua saúde hoje?

Estou bem, mas faço tratamento. Uma vez por mês, durante cinco dias, eu tomo Temodal, remédio para quimioterapia. Essa é minha principal obrigação. Além disso, fiz um tratamento em Los Angeles em que injetaram plasma do meu próprio sangue na minha coluna. A ideia é que as células sadias ajudem a recuperar as outras. Eu vou morrer dando tiro. 

Você tem tomado cuidados espirituais também?

Sim. Eu já fui no João de Deus e no Paulo Neto (ambos são médiuns). Sempre aparece alguma coisa e eu acabo indo. A gente não pode ficar em casa fazendo só o que os médicos mandam. Também não posso deixar o Temodal. Aí, eu morro mesmo. 

Você acredita nos médiuns?

Eu sou católico, isso não vai mudar. Mas esses lugares têm uma energia muito boa. Não vou perder nada indo até lá. É de graça. Tem 1300 pessoas que vão lá. Vou e levo uma garrafa de água para ele energizar. Vou em quantos aparecerem na minha frente. Eu sei que eu tenho a doença, mas se eu ficar sentado dentro de casa, eu vou morrer. Eu preciso me mexer. Quem cura é você. É a cabeça que cura. 


Você pensa na doença?

Quase nunca. Só penso nela na semana do tratamento. Mas é uma doença traiçoeira. Aí, eu abro a cabeça e tiro de novo. 

Incomoda falar sobre ela?

Não. Todo mundo vai morrer. Minha vida foi linda e cheia de desafios. Esse é mais um. Eu faço um monte de piadas comigo mesmo. Ultimamente, eu diminuí as piadas. Minha mulher e minha filha não gostam. Elas sofrem mais do que eu com isso. 

Tem efeitos colaterais por causa da quimioterapia?

É um tratamento pesado. É bom tomar um remédio antes das sessões para controlar os enjoos. Eu só vomitei uma vez, mas eu me sinto bem. Não tenho restrições, posso fazer tudo e até jogo futebol. 

Pode jogar?

Não tenho restrições. Faço até gols de cabeça, mesmo com isso (mostra os riscos finos no cocuruto, de orelha a orelha, sinais das duas cirurgias para retirada do tumor que apareceu em 2011 e retornou em 2013). 

O que você faz diariamente?

Hoje, eu vivo basicamente de palestras para empresas. Costumo fazer entre oito e doze por mês no Brasil inteiro. 

O que fala nas palestras?

Tenho três tipos de palestras. Uma, chamada de “Obstinação”, aborda cinco valores (Visão, Decisão, Time, Obstinação e Paixão). As outras duas são “Trabalho em Equipe” e “Desafios”. 

Você foi escolhido como melhor palestrante do mercado brasileiro em 2013...

Foi um sonho que consegui realizar. Fiquei feliz. 


Por outro lado, algumas reclamaram que foram xingadas por você em uma palestra em Caruaru (PE), em novembro. O que aconteceu?

Deu tudo errado. Os organizadores contrataram uma empresa que não soube coordenar o evento, meu laptop e meu microfone não funcionaram. Além disso, eles atrasaram muito. Todo mundo era vítima e todo mundo era culpado, começando por mim. Então, o pessoal começou a ir embora e não tem coisa pior do que isso. É irritante. Não faço mais palestras abertas. Agora, só dentro das empresas. 

Esse episódio teve grande repercussão na internet. Teve algum impacto nas palestras?

Os convites para novas palestras caíram bastante. No final do ano, eu estava descartando convite e depois disso fecho um ou outro orçamento. 

Essa confusão arranhou sua imagem?

Não tenha dúvida que arranhou. Manchou muito. Mas sou guerreiro e as coisas não vai ficar assim. Não posso revelar o que vou fazer, mas já sei. 

Vai mudar as palestras?

Não. As pessoas adoram as palestras e me aplaudem de pé. O esporte traz ensinamentos para a vida. Tenho uma palestra – Vencendo o invencível – que reúne a parte final das outras. Eu falo e as pessoas pegam o que é melhor para elas. Das 722 palestras que eu fiz, só duas tiveram problemas. 

O título dessa palestra é uma referência à vitória da seleção de basquete sobre os Estados Unidos em Indianápolis?

Sim. Essa foi a maior emoção da minha vida. Quando você faz uma coisa possível, é ótimo. Quando você faz alguma coisa que é impossível, é sensacional. Foi a primeira vez que os Estados Unidos perderam em casa. Foi bom demais. 

Você acredita que a seleção de basquete também pode conseguir algo marcante no ano que vem nos Jogos do Rio?

A seleção tem um time forte e grandes chances de conquistar uma medalha. Só precisa jogar bem e fazer algumas mudanças na equipe. 

Quais mudanças?

Os jogadores não podem esnobar a equipe, têm de querer jogar pela seleção. É hora de colocar um técnico brasileiro. O Magnano (Rubén Magnano, argentino à frente do Brasil desde 2010) já fez seu papel. 

Quem deveria ser o técnico?

Minha geração foi esquecida. Não falo por mim, eu não aceitaria ser treinador. Onde estão Guerrinha, Kadu e Marcel? Ninguém mais fala deles. 

Todas as modalidades, não só o basquete, têm chances em 2016?

O Brasil vai fazer os melhores Jogos de sua história. Vamos bater o recorde de medalhas. Temos times e atletas fortes em várias modalidades e vamos disputar as competições em casa. Isso faz uma grande diferença. O negativo é que muita gente vai ficar rico com uma canetada. Como aconteceu com a Copa. Isso irrita. 

Você é popular, tem uma visão ampla do esporte, dentro e fora das quadras. Pretende voltar à política?

Não, nem pensar. 

Porque? Você ficou frustrado com a derrota para o Senado em 1998 (perdeu para Eduardo Suplicy em São Paulo)?

Ainda bem que eu perdi. Maldita hora que me meti nisso por um ano. Descobri rápido e saí. Ali tem muita coisa que eu não concordo e acaba respingando em todos que estão lá. Meu lugar é no esporte. 

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