Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Otimismo moderado faz bem à seleção brasileira

O otimismo, justificável pela excelente campanha feita nos últimos dois anos, mais precisamente desde que Tite assumiu, não virou oba-oba

Almir Leite, enviado especial / Sochi, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 04h00

Há muito tempo não se percebia tanto otimismo com a seleção às vésperas da estreia em uma Copa. Mais precisamente, desde 2006. Naquela ocasião, a equipe havia feita uma Copa das Confederações arrasadora. Ronaldinho Gaúcho era o melhor jogador do mundo. Encantava. Ronaldo ainda jogava muito. Adriano justificava o apelido de Imperador. Kaká despontava em alto nível...

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Deu no que deu. A seleção, composta por muitos campeões em 2002 e vencedores já consagrados em suas carreiras, chegou à Alemanha aborrecida, enfastiada, de mal com a Copa. Em nenhum momento jogou bola. Caiu aos pés e à cabeça de Zidane nas quartas de final. Uma decepção.

Era preciso encontrar culpados. À época, culpou-se a bagunça da fase preparatória em Weggis, na Suíça - que voltou a ser lembrada agora, como contraponto à privacidade proposta por Tite. Privacidade parcial, aliás, visto que os jogadores podem se relacionar com parentes e amigos na concentração em Sochi, e até hóspedes/torcedores, sempre prontos para arrancar um autógrafo ou selfie.

Não há mal nenhum nisso, assim como não teria havido em Weggis, não fossem exageros como permitir que uma torcedora se agarrasse no pescoço de Ronaldinho ou que os treinos ocorressem com os atletas sentindo cheiro do churrasco que “comia solto” na beirada do campo. Weggis contribuiu, mas o que em 2006 derrotou aquela geração vencedora foi a empáfia, a soberba, a falta de interesse, de profissionalismo até.

 

Agora, não há nada disso. O otimismo, justificável pela excelente campanha feita nos últimos dois anos, mais precisamente desde que Tite assumiu, não virou oba-oba. Além disso, os jogadores têm gana de ganhar por motivos que vão desde o fracasso retumbante de 2014 à busca por se afirmar de vez no futebol europeu, algo para que um título da Copa do Mundo contribuiria velozmente.

Até mesmo a grande estrela da companhia, Neymar, que ao longo da bela carreira já deu várias demonstrações de pensar mais em si do que no resto, seja qual for esse resto, se mostra mais concentrada na luta pelo “bem maior”. O susto que levou três meses atrás pode ter contribuído para fazê-lo ter mais empenho em exercer o futebol coletivo, solidário, no qual sua genialidade é bem-vinda e pode ser fundamental. Como diferencial e não como única alternativa. A seleção ainda depende muito de Neymar, e isso se viu quando o caldo engrossou no amistoso com a Croácia. No entanto, o craque, hoje, tem se mostrado um jogador de grupo, preocupado com o “nós” em vez do “só eu”.

Méritos de tudo isso para Tite que, além de dar um padrão à equipe dentro de campo, atua de maneira decisiva fora dele, é democrático, gosta de ouvir, sabe elogiar, mas também baixar a bola, evitar que o pé saia do chão. Para uma Copa, está há pouco tempo no cargo. Para o futebol brasileiro, até que não. E a falta dos anos de estrada pode não vir a fazer diferença. Mesmo porque, dentro das possibilidades, a preparação foi boa e o trabalho de apoio, técnico, científico, profundo, pode levar o futebol brasileiro a novo patamar.

A sorte está lançada. A caminhada começa amanhã, contra a Suíça. Tomara chegue, vencedor, a 15 de julho. Se não der, tomara também que a CBF não interrompa mais uma vez o trabalho e sim dê prosseguimento, pensando à frente, como todos que se dizem de vanguarda devem fazer.

*ALMIR LEITE É EDITOR-ASSISTENTE DO ESTADÃO

 

 

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