Padrão Fifa

A Fifa levou um baque com o vendaval de detenções realizadas às vésperas da assembleia que deve reconduzir Joseph Blatter a outro período na presidência. O que seria mais uma aprazível reunião da “família”, como a entidade autointitula os encontros entre seus integrantes, virou tormenta. O piquenique na bucólica paisagem suíça azedou com a ação entre FBI e autoridades locais que tirou de circulação um punhado de peixes graúdos. 

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

28 de maio de 2015 | 03h00

A reação imediata da instituição que comanda o grande negócio do futebol no mundo não a afasta do furacão. Não adianta a Fifa suspender temporariamente os confrades sob suspeita, como forma de livrar-se da lama de seus pés. O esforço de Blatter de manter distância dos investigados por corrupção e outros crimes tem peso de jogo de cena, de firula para a torcida, no caso a polícia e, por tabela, seus alarmados parceiros comerciais.

Deserdar os filhos ingratos é o mínimo que poderia fazer neste momento, como prova de boa vontade com o inquérito. Um jeito de dizer para a plateia “não vou me meter nem criar obstáculos”. Lavar as mãos também é comportamento corriqueiro, em certos círculos, quando a casa cai. Ao estilo “eu não sabia nem tenho nada com isso”. Você já ouviu algo semelhante por aí... 

Por isso, soou patética a declaração do chefe da comunidade de que “o futebol, os torcedores e a Fifa” vivem momento difícil. Constrangimento há para ele, seguidores, apoiadores, colaboradores, agregados e afins. Para o público, a quarta-feira 27 de maio de 2015 representa marco na história do esporte, talvez o início do fim da impunidade de turma que curtiu mamata anos a fio. 

Havia muito que setores importantes da imprensa internacional cutucavam as atitudes da Fifa, por causa dos participantes das diversas comissões, sobretudo aquelas ligadas à escolha de sedes de Mundiais masculinos. Não faltaram interrogações em torno das definições para as Copas desde 2002 (a divisão entre Coreia do Sul e Japão) até as de 2018 e 2022, na Rússia e no Catar. 

Não é de ontem que pipocam denúncias – muitas com farta e indesmentível documentação – de desvio de conduta de cartolas de alto quilate, com voz ativa na entidade e com influência para movimentar a roda da fortuna gerada pelos torneios, sobretudo os profissionais. Copa é business bilionário, que mexe com interesses econômicos e políticos pesados. Não é à toa que as trupes da Fifa sempre circularam com desenvoltura e como donas da bola nos países ungidos com a graça de organizar os eventos monumentais.

Como esquecer os inúmeros pitos que Jerôme Valcke distribuiu por aqui nos anos que antecederam à Copa de 2014? Era o gerente cobrando eficiência. E a recepção a Blatter e adidos? Coisa de chefe de Estado. Sem contar as exigências, de garantias oficiais a isenções de impostos, de lucro certo à transferência de ônus. Soberana, inflexível. 

Tanto que reagia rotineiramente com desmentidos ou silêncio diante de denúncias. Não foram poucas as ocasiões em que interpretava reportagens e dossiês como ataques ressentidos, sobretudo se viessem de britânicos, notórios opositores . Vez ou outra puniu um “familiar”, em atitudes que pareceram movimento para afastar quem despontasse como ameaça a quebrar a aliança tácita entre os demais parentes. A corrente não pode ser rompida, sob risco de quebrar a cadeia de poder. 

Não tem como dissociá-la da avalanche, embora não signifique que seja culpada em tudo; cabe à Justiça julgar. Raciocínio idêntico adequa-se à CBF, atingida com a presença de Marin no rol dos detidos. A ressalva, na nota oficial, de que a gestão iniciada em abril “reafirma compromisso com verdade e transparência” é o mesmo que dizer que a CBF começou um mês e tanto atrás. Antes, era o caos. Para recordar: Marin herdou o cargo de Ricardo Teixeira e o repassou a Del Nero, seu fiel escudeiro nos últimos três anos.

Lembra do “padrão Fifa” para estádios, aeroportos, hotéis, etc? Eis aí escândalo “padrão Fifa” e tanto.  

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