Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2017 | 17h00

Mesmo depois de citadas no maior escândalo de corrupção no futebol, empresas de marketing esportivo e operadoras suspeitas e com seus presidentes presos continuam a dar as cartas na modalidade, com reflexos no Brasil. É o caso da Datisa, detentora de contrato com a Conmebol sobre os direitos da Copa América de 2019, que será no País. A empresa alega já ter negociado esses direitos com várias redes de TV pelo mundo, e não quer abrir mão dos seus direitos. O impasse é mostra do poder dessas intermediárias, obtido muitas vezes por meio de corrupção.

+ Ricardo Teixeira multiplicou viagens a Mônaco às vésperas da Copa de 2014

A atuação de empresas de televisão, intermediários e companhias de marketing esportivo, que têm papel decisivo na gestão do futebol, voltou à ordem do dia com o julgamento em Nova York do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, e de dois outros cartolas. Eles são acusados de crimes como fraude, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa.

De acordo com investigações do FBI, quatro dezenas de dirigentes de vários países sul-americanos ligados à Fifa, à Conmebol e também à Concacaf receberam mais de US$ 200 milhões (R$ 645 milhões) em propinas em duas décadas, para que cedessem direitos de TV e de marketing de seus torneios.

O cálculo é conservador, considerando-se que uma testemunha de acusação no processo em curso no Tribunal do Brooklin, o argentino Alejandro Burzaco, disse ter pago, só ele, US$ 160 milhões (R$ 516 milhões) em suborno a 30 cartolas. Burzaco foi por anos alto executivo da Torneos Y Competencias, empresa argentina que negociava direitos de transmissão de torneios como Copa América, Libertadores e Sul-Americana.

ORIGEM

O envolvimento de intermediários no futebol surgiu na própria Fifa. No anos 80, a entidade, alegando não ser especialista em marketing, se associou à ISL, empresa encarregada de revender direitos de transmissão da Copa do Mundo para a TV. O brasileiro João Havelange era o presidente da Fifa.

A estratégia funcionou. A renda com o Mundial deu um salto sem precedentes, atingindo o recorde no Brasil, em 2014 – foram arrecadados mais de US$ 2 bilhões (R$ 6,4 bi) apenas em transmissão. O dinheiro que as TVs injetaram no futebol nos últimos 30 anos transformou o esporte, elevou salários, enriqueceu clubes e aumentou a exposição dos patrocinadores.

A ISL passou a ser investigada na Suíça por se transformar também em banco paralelo da Fifa, por onde passaria o dinheiro que não podia ser contabilizado, a propina. Havelange e Ricardo Teixeira (ex-CBF) chegaram a ser acusados de receber propinas por meio de contas da ISL. Eles negaram. Mas tiveram de pagar multas na Justiça suíça para encerrar o processo.

Mesmo com a falência da ISL em 2001, o sistema estava inaugurado e seria utilizado em dezenas de países. A CBF e a Conmebol, em vez de negociar com as TVs, repassavam a tarefa a uma empresa intermediária.

“A TV é o sangue do futebol’’, afirmou ao Estado Patrick Nally, especialista em marketing que, nos anos 1970, foi contratado pela Fifa para ensinar um jovem dirigente chamado Joseph Blatter a montar a estrutura comercial da entidade. Hoje, Nally é considerado um dos papas do marketing esportivo.

“As redes globais não apenas estão pagando preços substanciais pelo futebol, seja por Copas, Ligas dos Campeões ou Nacionais, mas também expondo times e federações para obter patrocínio, marketing e renda.’’

O que agora as investigações revelam é que, ao longo dos anos, esses direitos passaram a ser concedidos com a condição de que os cartolas participassem dos lucros gerados com a venda. Ou seja: pediam, e receberam, propinas. “As intermediárias cobram um valor acima do estipulado pela federação e a diferença é repartida aos dirigentes”, disse ao Estado ex-funcionário de emissora de TV que pediu anonimato.

HERANÇA MALDITA

O problema, segundo dirigentes que assumiram cargos após a prisão dos cartolas em 2015, é que muitos dos contratos vigentes são aqueles assinados com as empresas que confessaram a corrupção. Um dos aspectos mais complicados juridicamente é a Copa América de 2019. Oficialmente, a empresa que detém os direitos para vendê-los às TVs é a Datisa, acusada nos EUA de pagar mais de US$ 100 milhões em propinas para ficar com os direitos do torneio entre 2013 e 2023.

A Datisa reúne as empresas Traffic, Torneos y Competencias e a Full Play, todas acusadas de corrupção. Seus dirigentes – J. Hawilla, Alejandro Burzaco e Hugo e Mariano Jinkis – foram denunciados por lavagem de dinheiro, fraude e organização criminosa. Hawilla admitiu ser culpado e passou a colaborar com a justiça dos EUA. As revelações de Burzaco semana passada apontaram para o envolvimento de Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, no esquema de corrupção. Ele nega.

A Datisa considera que o contrato da Copa América no Brasil, em 2019, é seu. Alega que já revendeu seus direitos para várias empresas, como a Rede Globo. De fato, ao longo de dez anos, a megaempresa destinou US$ 352 milhões pelas diferentes edições da competição.

O Estado apurou que dirigentes brasileiros e da Conmebol já admitem ter de pagar “compensação” para que a Datisa libere o contrato e outra empresa revenda os direitos de TV. A CBF diz que o assunto é “exclusivo’’ da Conmebol, que já anunciou que vai romper judicialmente o contrato. Na Copa América de 2016, nos EUA, a Conmebol conseguiu tirar a Datisa e revendeu ela os direitos. A suspeita é que rescisão teria envolvido pagamento de US$ 40 milhões feito pela entidade à empresa para o acordo. COLABOROU ALMIR LEITE

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Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2017 | 17h00

A Europa também adota intermediários na venda de direitos de TV. Mas, nos últimos anos, algumas entidades e ligas optaram por negociar diretamente com a Uefa. São os casos, por exemplo, da Liga dos Campeões e da Premier League.

O fato é que o envolvimento das TVs no futebol europeu garantiu uma multiplicação sem precedentes na renda do futebol e na criação de campeonatos com uma legião de estrelas internacionais. Hoje, estão em vigor contratos de TV para a transmissão de torneios nacionais europeus no valor de quase US$ 12 bilhões (R$ 38 bilhões). A maneira de negociar acordos coletivos permitiu um incremento no valor pago. Unidos, os clubes turcos, por exemplo, já obtêm renda superior aos do Campeonato Brasileiro.

O campeonato mais lucrativo é a Premier League, da Inglaterra. Manchester United, Arsenal e Chelsea abriram mão de um controle total dos recursos para que o pacote de transmissão pudesse ser vendido. Se o critério fosse a divisão por títulos ganhos, o United teria direito a mais do que o dobro do que recebe. Mas aceitou o pacote.

Cada clube ganha um valor base e US$ 30 milhões (R$ 96 milhões) ainda são colocados em um fundo e distribuídos para a formação de jogadores em 72 clubes de Segunda Divisão e divisões amadoras pelo país.

Outro segredo do sucesso foi a venda de pacotes para dezenas de TVs pelo mundo. A família real de Abu Dhabi pagou US$ 300 milhões (R$ 969 mi) para transmitir o torneio nos países árabes, mesmo valor desembolsado pela TV de Cingapura, país com 5 milhões de habitantes.

Na Itália, a renda chega a 911 milhões de euros. O Campeonato Francês espera ganhar a partir de 2018 1 bilhão de euros com a transmissão dos jogos e de Neymar. Em Portugal, não há venda coletiva de direitos. Benfica, Sporting e Porto recebem metade do que as TVs pagam, cerca de 24 milhões de euros anuais. Os outros 15 times da Primeira Divisão ficam com o restante do bolo.

PRISÃO

O negócio das TVs na Europa também gerou crises. Em julho, um dos peso pesados do futebol e último herdeiro da era Blatter na Fifa foi preso na Espanha. Angel Villar era presidente da Federação Espanhola de Futebol e vice da Fifa e Uefa. É acusado de desviar parte da renda de amistosos da Espanha. Seu filho, Gorka, é acusado de participação no esquema.

A partida entre Espanha e Coreia do Sul em 2016 está sob suspeita. Jogos contra a Bósnia e Argentina, em 2010, também são alvos de investigação. Ambos negam irregularidades.

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Almir Leite e Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2017 | 17h00

A CBF, e por extensão a seleção brasileira, tem envolvimento com empresas que estão na mira do FBI. Durante o julgamento de José Maria Marin, foi revelado que a Full Play vendia nos EUA os direitos de TV do Campeonato Argentino, mas que isso ocorria graças a outra companhia: a Pitch International.

A Pitch foi a empresa que assinou um contrato com a CBF em 2012 para organizar os amistosos da seleção e, claro, revender seus direitos de TV no exterior. O acordo é por dez anos, até 2022, e deverá ser honrado. “Sem prejuízo dos contratos em vigor, a CBF sempre busca adaptações positivas aos interesses do futebol brasileiro’’, disse a CBF ao Estado por meio de nota. “A discussão de novos contratos ou modelos de negócio dependem do encerramento dos acordos atuais.’’

Em junho de 2015, ao depor na Câmara dos Deputados, o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, disse que o contrato com a Pitch seria “reavaliado’’.

Antes de 2012, foi justamente a venda de direitos sobre a seleção para intermediários da saudita ISE que permitiu, segundo investigações na Espanha, que mais de 8 milhões de euros fossem distribuídos entre o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e o ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell. Eles negam.

No mercado interno, a CBF tentou mudar o modelo de venda dos direitos. Em setembro, abriu concorrência para 37 jogos da seleção até 2022 (28 amistosos e os 9 pelas Eliminatórias da Copa do Catar). O pacote para TV aberta e por assinatura não teve lance. Em outubro, a entidade fechou com a Globo. O valor não foi revelado. A CBF afirma que o sistema de leilão “é um modelo vigente conforme estabelecido em seu estatuto e nos regulamentos internos.’’

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