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Pai de jovem morto em Oruro cobra explicações das autoridades

Um ano depois da tragédia na Bolívia, Limbert Beltrán ainda tenta reconstruir a família

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2014 | 17h04

SÃO PAULO - Em depoimento ao Estado, Limbert Beltrán, pai de Kevin Espada, garoto de 14 anos morto no dia 20 de fevereiro de 2013 durante partida entre Corinthians e San José, pela Libertadores, fala em tom de desabafo sobre a morte do filho. Veja abaixo:

"Um ano depois daquela tragédia em Oruro, ainda estamos tentando reconstruir a nossa família. Não é fácil perder um filho. A lógica indica que os filhos devem enterrar os pais, e não o contrário. É um processo muito complicado. Mesmo tendo outros três filhos, a dor é muito grande.

Pior ainda é saber que ninguém está preso. A Justiça não conseguiu identificar os responsáveis pela morte do meu filho. Há muitas limitações e entraves nesse processo. A diplomacia e a política, que deveriam nos ajudar, na verdade acabaram não sendo boas. Ocorreram muitas intervenções. É doloroso saber que muitas pessoas tentaram se aproveitar da tragédia da minha família.

Depois da morte do Kevin, perdi o interesse pelo futebol. Não tem sentido uma pessoa fazer sacrifícios, ser apaixonada por um clube, adorar jogadores e ser morta por isso. O mundo do futebol é cruel. Os dirigentes ficam em camarotes e os jogadores ganham cifras exorbitantes à custa de quem? Dos torcedores. Mas quando acontece uma tragédia num estádio, todo mundo desaparece. Ninguém é responsável.

Depois da morte do Kevin, a única coisa que recebi da Conmebol foi uma cópia da resolução determinando que em todas as partidas da Libertadores fosse respeitado um minuto de silêncio. Isso foi tudo o que fizeram pela minha família.

Também fiquei muito decepcionado com o Corinthians. Prometeram me dar US$ 200 mil, mas depois diminuíram para US$ 50 mil. Isso é deplorável. Não esperava isso. Para eles, esse é o preço da vida do meu filho. O problema não é a quantia, mas não gostei da forma como depreciaram a vida do meu filho. Antes tinha um valor, e depois passou a ter outro. Não se preocuparam nem em me dar um abraço.

Repito que não estou reclamando da quantia, até porque estou reconstruindo a minha família com o meu esforço e trabalho. O problema é a forma como essa questão foi conduzida. Dei todo o dinheiro para a minha mulher e nem quero tocá-lo. Vejo esse dinheiro como um patrimônio que o Kevin deixou para os irmãos.

Mesmo diante de toda essa confusão que se tornou a morte do meu filho, pedi desculpas aos 12 torcedores presos. Gostaria que eles entendessem. Eu sabia que os 12 não foram responsáveis por matar o meu filho, mas em dois havia indícios de envolvimento e até foi encontrada pólvora nas mãos deles.

A mídia sempre me consulta sobre a morte do Kevin, mas na realidade tem de perguntar para o José Maria Marin (presidente da CBF) por que ele não cumpriu a sua promessa de doar à minha família a renda do amistoso entre Bolívia e Brasil. No final, repassaram apenas 3% do valor arrecadado. O Mário Gobbi (presidente do Corinthians) também precisa explicar por que ofereceu US$ 200 mil e depois reduziu a oferta. Não preciso de dinheiro, mas de explicações.”

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