DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO
Luiz Ricardo Bernardes, ex-jogador de futebol, bate bola com os filhos em casa DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO

Luiz Ricardo Bernardes, ex-jogador de futebol, bate bola com os filhos em casa DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO

País do futebol, Brasil paga salário mínimo para mais da metade dos seus jogadores

De acordo com pesquisa que o 'Estadão' teve acesso, 55% dos atletas que atuam no Brasil ganham R$ 1.100

Toni Assis , especial para o Estadão

Atualizado

Luiz Ricardo Bernardes, ex-jogador de futebol, bate bola com os filhos em casa DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO

Prestes a completar 36 anos, Luiz Ricardo Bernardes, o Luizão, rodou o Brasil tendo como objetivo tornar-se jogador de futebol. Zagueiro de bons recursos técnicos, atuou em clubes de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás, Rio Grande do Sul, Roraima e Tocantins. Cansado dos baixos salários, e de muitas vezes não receber sequer o combinado, ele abandonou o futebol em definitivo em 2018. Com três filhos, o ex-defensor trabalha agora como motorista de frete na capital paulista.

O histórico de Luizão vai ao encontro à dura realidade da maioria dos jogadores que se aventura atrás de uma bola. Uma pesquisa divulgada pela plataforma Cupomvalido.com.br, que reuniu dados da CBF, Statista e Ernst & Young sobre o esporte, mostra que mais da metade dos atletas que atuam no Brasil tem de se virar com um salário mínimo.

Baseado em vencimentos com carteira de trabalho assinada, o levantamento indica que 55% dos boleiros recebem a remuneração de R$ 1.100, não considerando, por exemplo, os direitos de imagem. Entre os jogadores que faturam até R$ 5.000 o porcentual cai para 33%. Somente 12% têm remuneração superior a R$ 5.001.

De acordo com o estudo, o Brasil possui 7.020 clubes registrados, sendo que 874 agremiações são profissionais ativas. A região Sudeste é a que aloja a maior parte desses times (39%) e a que paga melhor também (média de R$ 15 mil). Já os vencimentos mais baixos estão concentrados no Nordeste (em torno de R$ 1.000). O País possui mais de 360 mil atletas registrados, sendo que 25% são profissionais.

DE ZAGUEIRO A MOTORISTA

Atrás do sonho de obter salários de primeiro escalão, Luizão acabou se tornando um andarilho da bola. Essa busca tinha um objetivo claro: despontar nos campos, vislumbrar bons contratos e levar uma vida confortável e glamourosa, a exemplo dos grandes nomes do futebol. “Tive boas condições de trabalho em Goiás. No Estado de São Paulo, o Noroeste e o Mogi Mirim também ofereceram boa estrutura. Mas nos outros clubes em que passei, só tive problemas: Inter de Limeira, Inter de Santa Maria, Uberaba, Tombense, entre outros. Aí você vai ficando mais velho e não tem mais paciência. Quando o dirigente vem com aquela conversa de que só vai poder pagar depois, já sei onde isso vai terminar. E, no meu caso, tenho família para sustentar”, comentou o ex-zagueiro ao Estadão.

Nesse período em que rodou o Brasil, Luizão disse que os salários giravam em torno de R$ 2 mil. “Às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos”. Desde que decidiu encerrar o ciclo no futebol, a sua vida mudou. E a troca dos campos pelo trânsito de São Paulo foi a opção escolhida para pagar as contas. Com a rotina atual de motorista de uma empresa de fretes, Luizão acorda antes mesmo de o dia clarear.

Às 4 horas ele já está de pé. O expediente tem início às 6h e normalmente acaba após o horário de almoço. Dependendo do volume de serviço, o dia de trabalho ainda pode se alongar. O ex-zagueiro dirige de 100 a 150 quilômetros por dia e atende as regiões norte, sul, leste e oeste da metrópole paulistana.

Mas o fato de ter pendurado as chuteiras não afastou Luizão dos campos. Bastante requisitado para jogar na várzea, ele reforça o orçamento familiar atuando aos sábados e domingos. “Dá uma média de R$ 700 a R$ 800 por final de semana. Mas, com a pandemia, todos os campeonatos foram suspensos e acabei ficando sem esse dinheiro”, lamentou. 

SALÁRIOS ESTRATOSFÉRICOS

Num comparativo a esse cenário de penúria para a maioria dos jogadores que atua no Brasil, Neymar é um objetivo quase inalcançável para quem corre atrás da bola. Principal nome brasileiro em atividade no planeta, o atacante revelado pelo Santos embolsa R$ 405 milhões ao ano. Se for considerado os rendimentos com publicidade e patrocínio, as cifras alcançam R$ 501 milhões.

O estudo indica que cerca de R$ 52 bilhões são movimentados no futebol aqui no Brasil. De acordo com a pesquisa, 80% do valor total dos salários está concentrada em apenas 7% dos atletas.

CALENDÁRIO

Para Walter Dal Zotto, presidente do Juventude, a chave para tentar iniciar uma mudança passa, em primeiro lugar, por uma reformulação estrutural no futebol brasileiro. Isso tem relação direta com um calendário que permita aos times estar em atividade o ano inteiro. “A minha ideia é estruturar e melhorar o calendário brasileiro. Ampliar o número de divisões. Teríamos de estruturar mais divisões no Campeonato Brasileiro porque existem clubes de camisa pesada na Série D que não conseguem subir”, afirmou.

O dirigente defende ainda que uma pequena reestruturação de recursos financeiros poderia dar mais condições para os clubes menores se manterem. “Tem muito dinheiro na Série A. Um porcentual mínimo desses recursos poderia ser canalizado para as Séries C e D e outras divisões. Assim, teríamos competições organizadas o ano inteiro para essas equipes. E com calendário já definido, elas poderiam investir mais, conseguir patrocinadores”, comentou.

Para Junior Chavare, gerente de futebol do Bahia, a melhora salarial dos jogadores que atuam em times mais modestos tem de estar diretamente ligada à estabilidade dos clubes. “Só com equipes competitivas e com a questão financeira em dia é que a remuneração dos atletas pode melhorar. Nas condições em que se trabalha atualmente, é difícil exigir algo a mais. Hoje o que deveria ser obrigação, pagar em dia, é muitas vezes uma exceção. Infelizmente a gente sabe que isso não acontece”, comentou o dirigente.

COMBATE À INADIMPLÊNCIA

Para Rinaldo Martorelli, presidente do Sindicato dos Jogadores de São Paulo, a mudança também passa necessariamente pela responsabilidade dos dirigentes que comandam os clubes. “Tem muita gente que entra no futebol e acha que vai ficar milionário. Não tem compromisso. Muitos dirigentes contraem as dívidas em nome dos clubes, não pagam e vão embora. É uma sequência de coisas. Há uma mentalidade muito mais voltada ao descumprimento, ao inadimplemento, do que o contrário. Isso acontece porque não há punição pessoal”, afirmou o dirigente.

Esses desmandos, na opinião de Martorelli, têm como consequência o enfraquecimento dos clubes e os baixos salários pagos aos jogadores. “Os caras não têm condição de bancar salário e aceitam qualquer coisa porque não vão pagar mesmo e não têm responsabilidade.”

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Tem muita gente que entra no futebol e acha que vai ficar milionário. Não tem compromisso
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Rinaldo Martorelli, presidente do Sindicato dos Jogadores de São Paulo

FUTEBOL É ILUSÓRIO

Para Marco Aurélio Cunha, ex-diretor da CBF e atualmente executivo de futebol do Avaí, além da concorrência ser muito grande no meio do futebol, o mercado é seletivo. “O gargalo é muito fino. Vamos imaginar que entre as Séries A, B e C tenham 60 times com cada um dispondo de 30 jogadores em seu plantel. Por alto, teremos 1.800 atletas em todas as três divisões. Nessa fatia, você vai ter uns 600 jogadores com vencimentos muito bons. O restante vai ganhar entre R$ 1.000,00 e R$ 5.000,00 mesmo”, diz.

Outro fator que precisa ser levado em conta, segundo Marco Aurélio Cunha, é o tempo útil de atividade. “Em um banco você entra e pode se aposentar nele. No futebol, você vai se doar até os 35 anos e, se ganhar de 2 a 5 salários mínimos, vai ser aquilo ali mesmo. E muitos não pensam no pós-carreira. Os ricos não se preparam, imagine os pobres. O futebol de grandes salários é uma ilusão”, comentou.

Um caminho cada vez mais seguido por jogadores brasileiros é atuar fora do País, mas não em grandes centros europeus. A procura é por qualquer lugar do mundo que pague, por exemplo, na moeda americana. Se um jogador receber salário de U$$ 3 mil (R$ 15 mil) em torneios da Malásia, Grécia, Tunísia ou qualquer outro país menos favorecido no futebol, ele já estará ganhando muito mais do que receberia em times modestos do Brasil.

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Criatividade e austeridade marcam ascensão do 4 de Julho no futebol nacional

Time do Piauí organizou bingo, fez promoção de camisas para quitar dívidas e diz não ter ações trabalhistas pendentes

Toni Assis, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2021 | 10h00

Com sede na cidade de Piripiri, que fica a 175 quilômetros da capital Teresina, o 4 de Julho até o ano passado se enquadrava no cenário dos times que mantinham boa parte do elenco com salário mínimo. À reportagem do Estadão, o diretor de marketing Waldenor de Brito, de 60 anos, comentou que a realidade do clube, de fato, passou a mudar neste ano.

“Já coloquei dinheiro do meu bolso aqui. Não só eu, mas outros dirigentes também. Para quitar as dívidas com o INSS, fizemos um bingo cujo prêmio era um bezerro. Quem ganhava devolvia o garrote para novas rodadas. Acho que foram umas onze no total, até arrumar o dinheiro que precisávamos. Não temos nenhuma dívida trabalhista e pagamos sempre em dia”, afirmou Brito, empresário do ramo de confecções esportivas que produz o uniforme usado pelos atletas.

Criatividade, aliás, é uma marca da atual gestão. Em outra ação, a diretoria fez uma edição limitada de cem camisas polo com o escudo do clube. A peça foi colocada à venda por R$ 500,00. “Esgotou rapidinho. Claro que o pessoal fez isso para nos ajudar”, afirmou o dirigente.

Essas iniciativas, na verdade, refletem a falta de recursos dos times do Nordeste. O 4 de Julho não tem Centro de Treinamento e usa o estádio municipal para fazer os trabalhos de campo com o elenco. A média salarial gira em torno de R$ 2 mil a R$ 3 mil. O teto é de R$ 5 mil e, no elenco, alguns atletas são remunerados com salário mínimo.

Há quem tenha ainda uma outra profissão para reforçar o orçamento. É o caso, por exemplo, de Wilsinho, que também trabalha como eletricista. Aos 42 anos, o veterano é uma das opções que o técnico tem para a lateral-direita. “E ele me disse que quer renovar o contrato. É um atleta com muito vigor físico”, disse em tom empolgado o diretor de marketing. “O Wilsinho entrou para história do futebol do Estado como jogador mais velho a ser campeão piauiense”, completou.

Fundado em 1987 e com quatro títulos estaduais no currículo, o 4 de Julho colhe os frutos da conquista do piauiense do ano passado. Também conhecido como Gavião Colorado, a equipe ganhou o direito de disputar a Copa do Brasil deste ano e fez a melhor campanha de sua história ao avançar até a terceira fase, quando perdeu de 9 a 1 para o São Paulo no Morumbi.

O clube deixou pelo caminho o Confiança, o Cuiabá e só parou diante do São Paulo mesmo. O 4 de Julho participou ainda da Copa do Nordeste, (acabou eliminado na fase de grupos) e está disputando a Série D do Brasileiro (é vice-líder no chave 2, a um ponto do Guarany de Sobral-CE).

“Nossa folha salarial é de quase R$ 120 mil mensais. O que melhorou a situação este ano foram as cotas da Copa do Nordeste e da Copa do Brasil”, disse. Esse montante foi de pouco mais de R$ 4,5 milhões. Segundo o dirigente, por causa desse reforço nos cofres do Gavião Colorado, a maioria dos atletas que ganhava salário mínimo até o ano passado ganhou um pequeno aumento em seus vencimentos, alguns chegaram a dobrar o valor.

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