Bryan Snyder/Reuters
Bryan Snyder/Reuters

Países tropicais promovem 'invasão' à Olimpíada de Gelo

Além do Brasil, nações como Jamaica, Ilhas Cayman e Togo estão em Sochi para fazer parte da festa

Ezra Fieser, The Christian Science Monitor

08 de fevereiro de 2014 | 16h00

SÃO PAULO - Não é fácil treinar para a Olimpíada de Inverno na ilha Grande Cayman. O ponto mais alto fica aproximadamente 20 metros acima do nível do mar e, durante o dia, a temperatura gira em torno dos 26 graus. “Comecei a treinar muito tarde”, diz Dow Travers, que vai competir em Sochi representando as Ilhas Cayman, um dos seis países caribenhos que enviaram atletas à Olimpíada. Apesar da incongruência de participar de uma importante modalidade de esqui alpino no mais alto nível do esporte e ter sido criado em uma ilha conhecida por suas paisagens submarinas tropicais, o atleta de 26 anos foi à Olimpíada graças a viagens da família e a um acampamento de esqui na França.

De Togo, na África Ocidental, até as Ilhas Cayman, países de clima quente têm frequentado cada vez mais os eventos da Olimpíada de Inverno. Neste ano, 15 nações do tipo, entre elas 12 tropicais, terão atletas em Sochi – nos Jogos de 2010 foram sete. Os observadores atribuem a tendência à combinação de um mundo mais globalizado, no qual os atletas de dupla cidadania competem representando países com os quais têm apenas laços simbólicos, com uma campanha ativa do Comitê Olímpico Internacional (COI) para atrair o interesse de países com pouca ou nenhuma tradição nos esportes de inverno, em parte com o objetivo de aumentar o público global.

“Para alguns desses países menores, que enfrentam dificuldades para se classificar para a Olimpíada de Verão, há outras oportunidades nos esportes de inverno”, diz Janice Forsyth, diretora do Centro Internacional de Estudos Olímpicos da Universidade Western, em Ontário, Canadá. “Esses países são incentivados a levar seu nome ao palco mundial, tornando sua presença conhecida.” Para o COI, o aumento no número de países participantes – são 88 nos Jogos de Sochi, seis a mais do que em 2010 – significa mais direitos de transmissão e, por consequência, mais renda. 

O México se tornou o primeiro país de clima quente a participar dos Jogos de Inverno quando inscreveu uma equipe de bobsled em 1928. Neste ano, há nove países caribenhos e latino-americanos no evento. O Brasil enviou 13 atletas, a lendária equipe de bobsled da Jamaica está de volta e há três peruanos inscritos, entre eles um ex-surfista de 42 anos, convertido em esquiador, que trabalha como consultor da Microsoft em Seattle, Estados Unidos.

Nenhum atleta de países tropicais jamais ganhou uma medalha nos Jogos de Inverno, embora a participação deles ainda chame a atenção. “Adoro quando me perguntam como é a neve nas Ilhas Virgens Britânicas, falando absolutamente sério”, diz Peter Adam Crook, jovem esquiador da modalidade half-pipe que é o primeiro atleta de seu país na Olimpíada de Inverno em 30 anos. “Trata-se de uma grande oportunidade e espero trazer apenas coisas boas da Olimpíada.”

Embora ainda haja certa confusão geográfica, a equipe jamaicana de bobsled derrubou em 1988 boa parte do ceticismo envolvendo os atletas de inverno saídos de climas tropicais. “Foi uma daquelas coisas que pegam todo mundo de surpresa. Todos ficaram boquiabertos”, conta Devon Harris, membro da primeira equipe, reunida às pressas para aquela edição dos Jogos e que acabou participando de outras duas edições. “Seis meses antes do início da Olimpíada, nenhum de nós tinha visto um trenó daqueles.” A equipe jamais ganhou medalhas, mas sua história inspiradora chegou aos cinemas com o filme Jamaica abaixo de zero, produzido pela Disney.

Agora, em Sochi, os jamaicanos do bobsled estão de volta. E eles tiveram de superar obstáculos financeiros comuns entre países pobres. Por meio de uma campanha de arrecadação, captaram em poucos dias US$ 120 mil, o suficiente para pagar a viagem. A equipe, ou dupla, é liderada por Winston Watts, nascido na Jamaica e naturalizado americano, que hoje mora no Wyoming, perto de onde a equipe americana treina.

Embora os laços de Watts com o país de origem sejam fortes, em muitos casos atletas com cidadania dupla ou tripla podem concorrer representando países com os quais tenham laços fracos – ou recém-descobertos, em certos casos. Jasmine Campbell, por exemplo, vai representar as Ilhas Virgens Americanas, país que sua família deixou quando ela era criança. Temos também Gary di Silvestri: o esquiador da modalidade cross-country e a mulher vão disputar os jogos em nome da Dominica. Eles foram à ilha pela primeira vez há sete anos e receberam a cidadania graças às suas atividades filantrópicas.

Se os atletas conseguem superar os requisitos de nacionalidade, ainda é difícil – e caro – decidir onde treinar. Para Travers, o esquiador das Ilhas Cayman, foi um acampamento de esqui na França que chamou a atenção dele para a modalidade de descida livre. “Só conseguia esquiar duas semanas por ano quando estava no ensino médio, e isso não permitiu que eu desenvolvesse muito meus talentos. Mas, depois de me formar, pude passar mais tempo nas pistas.”

Travers conseguiu a 69.ª posição no grand slalom em Vancouver/2010 e diz que sua meta é “fazer a descida mais limpa que puder”. E é improvável que ele seja o último esquiador das Ilhas Cayman a disputar os Jogos de Inverno. Seu irmão mais novo acaba de receber da Federação Internacional de Esqui uma carta revelando que ele está no topo do ranking entre os esquiadores de sua faixa etária.

PORTA-BANDEIRA DO BRASIL ESTREIA HOJE.

A trajetória de Jaqueline Mourão, a porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de Sochi, não é das mais gloriosas, mas ela é persistente e ama o esporte. Dessa forma, vai inaugurar hoje sua quinta participação olímpica, o que a iguala às recordistas brasileiras nesse quesito, que são Formiga, do futebol, e Fofão, levantadora campeã olímpica em Pequim/2008.

A mineira de Belo Horizonte, de 38 anos, participou dos Jogos Olímpicos de Verão em Atenas/2004 e em Pequim/2008 no mountain bike. Nos Jogos de Inverno de 2006 e 2010, disputou o cross-country. Neste ano, vai competir nessa modalidade e também no biatlo. É justamente nesse esporte, que pratica há quatro anos, que Jaqueline vai estrear hoje. A prova de velocidade feminina, de 7,5km, começará às 12h30 (de Brasília). Em Atenas, um dos pneus de Jaqueline furou logo na primeira volta. Ela tentou enchê-lo com a bomba titular e a reserva, mas não teve sucesso e pedalou o tempo inteiro com o pneu murcho. Terminou em 18.º lugar. Em Pequim, foi a 19.ª.

Nos Jogos de Inverno de 2006 e 2010, ambos no cross-country 10km, ficou em 67.º. Os resultados nunca a desanimaram, nem mesmo as perspectivas. “Quando comecei no ciclismo, aos 16 anos, um técnico muito famoso estava visitando a cidade e pedi para ele me ver pedalando. Pedalei muito forte, o máximo que pude, para mostrar que tinha algum talento. Quando terminei, ele me disse: ‘Se eu fosse você, parava agora, você não é boa'.”

Jaqueline enveredou cedo pelo mundo dos esportes. Seus pais trabalhavam fora e ela ficava em uma escolinha de esporte depois das aulas, dos seis aos 12 anos. Praticou natação, basquete, handebol... E isso tudo com problemas respiratórios que a acompanham até hoje. “Eu sempre tive bronquite e asma. Às vezes, as crises eram muito fortes, a ponto de me obrigar a ir a um hospital para fazer inalação. Mas os esportes sempre me ajudaram a superar esse problema.”

Empolgada, Jaqueline diz que vai comemorar qualquer resultado melhor do que uma 15.ª colocação. Ela nem esperava conquistar vaga no biatlo, esporte que não é sua especialidade. “Só quero dar o meu melhor. Vai ser complicado.”

 

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