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Luis Fernando Verissimo
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Paixão ceifada

Times carregam consigo a paixão de uma torcida, esta coisa meio infantil e irracional

LUIS FERNANDO VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2016 | 06h00

Me lembro vagamente das notícias do acidente que matou todo o time do Torino, em 1949. O time voltava para casa depois de um jogo em Portugal. O avião chocou-se contra uma colina ao tentar aterrissar, em Turim. No topo da colina está a Basílica de Superga. Hoje, no lado da colina, há um monumento aos passageiros do avião. Lembrei-me dos detalhes que começaram a chegar da tragédia. Aos poucos: não existia a televisão, notícias e fotos custavam a chegar. O acidente causou uma comoção na Itália e no mundo do futebol.

O Torino era o grande time da época. O clube decidiu cumprir os últimos quatro jogos do campeonato com um time juvenil, e foi campeão daquele ano, 1949. A comoção perdura até hoje, e inclui romarias à Basílica de Superga. Lembro-me da minha emoção ao saber do acidente, mesmo à distância, mesmo sabendo pouco sobre os jogadores mortos. Um time inteiro! Podia ser o meu time. Em 1958, quase dez anos depois, houve o acidente com o time do Manchester United, numa tentativa do avião de decolar do aeroporto de Munique. Também morreram todos. 

Acidentes assim são especialmente pungentes porque, além da natural emoção que nos causa a morte de tantas pessoas, times carregam consigo a paixão de uma torcida, esta coisa meio infantil e meio irracional que liga uma comunidade a um time, às vezes apenas a uma camiseta.

A torcida do Chapecoense tinha razão em amar seu time acima de qualquer expectativa, com sua conquista recente e sua projeção no cenário continental. Pode-se imaginar a dor do torcedor chapecoense com a morte violenta do seu time, com sua paixão ceifada desse jeito. Como nos casos do Torino e do Manchester United, a comoção levará tempo para amainar.

Para individualizar um sentimento sobre uma das vítimas da tragédia, lembro-me também de ver jogar o Mario Sérgio, no Internacional e no Grêmio. Diziam que Mario Sérgio desnorteava as defesas, olhando para um lado e fazendo o passe para o outro. Ele combinava técnica que beirava o virtuosismo com uma visão de jogo incomum, e nunca brilhava só por brilhar. Como comentarista também deixa um vazio. 

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