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Antero Greco
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Paixão manipulada

Revelação de Platini apenas confirma suspeitas de que há 'ajustes' em sorteios de Copas

O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2018 | 04h00

A composição dos grupos em Mundiais há muito deixa a gente com um pé atrás, com a sensação de que houve algum tipo de manobra no sorteio. Agora, podemos colocar os dois pés na defensiva, com a certeza de que ocorrem no mínimo “ajustes”, para usar de eufemismo, na distribuição das seleções concorrentes. A contribuição para desfazer dúvidas veio de fonte inequívoca e incontestável, que atende pelo nome de Michel Platini e publicada aqui na edição de ontem.

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O ex-jogador e ex-presidente da União Europeia de Futebol admitiu, em entrevista a emissora rádio do país dele, que se deu um jeitinho para que Brasil e França só se encontrassem na final da Copa de 98, como de fato ocorreu. Platini falou na condição de ex-presidente do Comitê Organizador daquele torneio. Ou seja: era o número 1.

O que chama a atenção, nas declarações do antigo craque da Juventus e dos Bleus, foi a tranquilidade - a cara de pau, em Português sem frescura - para dizer que se sonhava com aquela decisão e que a manobra é usual no torneio. E arrematou com um: “Não iríamos jogar fora seis anos de trabalho”. 

Quer dizer, não dariam sopa para o azar. Ou sopa para o acaso das bolinhas que saíssem dos vários potes na cerimônia pomposa acompanhada por bilhões de torcedores no planeta. Para tanto, se estabeleceu que o Brasil ficaria no Grupo A e a França no C, com suposição de que se tratava de deferência ao então campeão e à anfitriã.

Platini alega que a tramoia parou por ali; o destino das equipes, depois do episódio, deveu-se só à competência (ou falta) de cada uma. Se brasileiros e franceses, por exemplo, não terminassem em primeiro nas respectivas chaves, o choque poderia ter acontecido antes. Ou sequer teria existido. 

Num ponto Platini está certo: a acomodação não foi inédita e isolada. Basta puxar pela memória e surgem casos emblemáticos. A anulação da suspensão de Garrincha, expulso na semifinal de 1962, e presente na decisão. A Argentina jogou com o Peru, em 78, sabendo do que precisava, após a vitória do Brasil sobre a Polônia. Alemães e austríacos fizeram jogo de compadres, em 82, porque lhes era conveniente; seguiram adiante e eliminaram o Chile.

A artimanha também dá errado. Em 82, não se imaginava que Itália e Argentina negassem fogo, na primeira fase, e ficassem em segundo nas respectivas chaves. Com isso, se enfrentaram na etapa seguinte, com o Brasil. Em 2014, se fez o possível para que brasileiros e argentinos só trombassem na final. A danada da Alemanha, com os 7 a 1, estragou tudo... ao menos para nosso lado.

Mundial envolve muitos interesses, de políticos e financeiros até a esportivos. Não se deve ser ingênuo de pensar que tudo vem pautado pelo destino e pela competência nos gramados. Tampouco se justificam tantas teorias conspiratórias a cada quatro anos. Mas pelo menos agora sabemos que, de alguma forma, manipulam nossas emoções. Ficamos com cara de tacho.

SONHO ÁRABE

Fábio Carille está “vai não vai” para o Al Hilal, ao que se comenta disposto a despejar uma nota alta na conta bancária dele. O treinador bicampeão paulista e campeão brasileiro balança com a perspectiva de amarrar o burro na sombra, com dois anos de contrato.

Ouvi um monte de comentários a respeito, e não foram poucos os que fizeram restrições à eventualidade de topar a empreitada. Que Carille iria interromper projeto importante no Corinthians, que marcaria passo na carreira, que isso, que aquilo. 

Pode até ser que a aventura árabe não acrescente aprendizado esportivo. Mas servirá como lição de vida, como foi para tantos treinadores brasileiros, ilustres ou não, e além de lhe render excelente dinheiro. E quem somos para criticar alguém que vai em busca de fortuna honesta?

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