Juiz do caso Marin não sabia nada de futebol e desconhecia a Fifa

Juiz do caso Marin não sabia nada de futebol e desconhecia a Fifa

Até o nome da entidade soava estranho para o magistrado

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

07 Novembro 2015 | 17h00

Na última quarta-feira, o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, teve um mal-estar ao chegar à corte de Nova York. Mas não foi um policial ou seu advogado quem primeiro saiu em seu socorro. “O senhor está bem?”, questionou Raymond Dearie, o juiz da Corte do Brooklyn e que assumiu a responsabilidade de julgar Marin e todos os demais cartolas encrencados com o escândalo da Fifa.

Um dos nomes mais reconhecidos da Justiça americana, Dearie era um total desinformado há apenas dois anos no que se refere ao futebol. Na transcrição de uma das primeiras audiências, em 2013 com Chuck Blazer, o juiz foi sincero ao declarar que não sabia nem mesmo como pronunciar a palavra “Fifa”. “Vou soletrar, já que não estou certo sobre como se fala isso: F.I.F.A”, disse o juiz. “Fifa, excelência”, respondeu Evan Norris, procurador.

Mas, se o futebol e a Fifa eram novidade para o juiz, sua história mostra que passou sua vida julgando e condenando gângsteres, terroristas e o crime organizado.

Dearie começou a trabalhar como promotor ainda em 1971. Nos anos 80, seria o então presidente Ronald Reagan quem o nomearia procurador federal. Ele passaria uma boa parte daquela década investigando e apresentando denúncias contra a corrupção de políticos locais. Um dos alvos foi o deputado Charles Schumer, que acabaria inocentado e hoje é um dos homens mais fortes do Partido Democrata.

Mas foi como juiz que Dearie passou a ser um dos nomes mais conhecidos da Justiça americana. Tomou decisões sobre casos de ampla repercussão sobre tráfico de drogas, assassinatos, terrorismo e mesmo sobre o envolvimento de dois homens com o grupo separatista do Sri Lanka, Tamil Tigers.

Ele ainda presidiu o julgamento de Najibullah Zazi, um imigrante afegão que confessou ter conspirado ao lado da Al Qaeda para detonar uma bomba no metrô de Nova York.

Temas sensíveis também fizeram parte de seu histórico de 71 anos. Ele foi um dos onze juízes de uma corte secreta criada para examinar a supervisão sobre a inteligência estrangeira e questões de espionagem que não possam ser reveladas ao público.

Mas o juiz Dearie é também conhecido por seus gestos humanos. Nos anos 90, um comissário de bordo apareceu diante de sua corte depois de ter tentado roubar joias de um membro da família real britânica num voo. Ele o ordenou uma pena relativamente leve e apenas mandou um recado ao comissário: “Se você aparecer por aqui de novo, mando para um tratamento médico”. 

Em outro caso envolvendo um suspeito de terrorismo, ele convocou espiões britânicos para depor e sugeriu que cada um deles usassem perucas e maquiagem para que não fossem identificados.

Em 2009, ele se recusou a mandar uma imigrante da Libéria para a prisão depois que ela se declarou culpada por estar contrabandeando animais vivos. A condenada foi declarada como tendo “sérios problemas mentais”.

A atenção ao cartola brasileiro nesta semana não foi um ato isolado. Depois da última audiência com Blazer, em 2013, o juiz o desejou “muita sorte”. O americano estava com câncer.

Dearie não é mesmo nenhum carrasco. Que o diga o ex-vice da Fifa e ex-presidente da Conmebol, Jeffrey Webb. O cartola também está envolvido até o pescoço no escândalo de recebimento de propinas e evasão de divisas e em julho fez acordo pelo qual pagou U$ 10 milhões para ficar em prisão domiciliar.

Acabou indo para uma residência perto de Nova York, mas, dois meses depois, ficou sem dinheiro para pagar despesas como as da empresa que faz sua vigilância. Então, pediu a Dearie que permitisse a ele ir paa uma casa que tem no Estado da Geórgia. O juiz aceitou.

AUDIÊNCIA

Dearie só deve se reencontrar com José Maria Marin na Corte do Brooklyn no dia 16 de dezembro, data marcada para nova audiência com o cartola brasileiro, que cumpre prisão domiciliar em seu apartamento na Quinta Avenida, em Nova York, desde a terça-feira. O dirigente foi extraditado da Suíça, onde estava detido desde o dia 27 de maio, para os Estados Unidos após fazer um acordo com a Justiça americana.

Marin corre o risco de ser condenado a 20 anos de prisão. Por enquanto, ele cumpre o acordo de permanecer no seu apartamento após dar garantias de fiança no valor de cerca de R$ 57 milhões. Na sexta-feira, o dirigente teve de depositar US$ 1 milhão na conta da Justiça americana como parte do acordo de sua prisão domiciliar.

O julgamento de Marin, segundo fontes próximas do processo, pode levar mais de um ano até que se chegue à sentença final.


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