J. F. Diorio/Estadão
Nova arena tem média de público de mais de 30 mil torcedores por jogo J. F. Diorio/Estadão

Palmeiras celebra um ano da nova arena

Clube supera R$ 50 milhões com arrecadação na operação do estádio

Vítor Marques, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2015 | 07h00

O Palmeiras ultrapassará a marca R$ 50 milhões de arrecadação no primeiro ano de operação do seu novo estádio, o Allianz Parque, cujo primeiro jogo oficial aconteceu há exato um ano – derrota para o Sport, por 2 a 0 pelo Campeonato Brasileiro. Na prática, a renda anual triplicou em relação ao último ano de uso do antigo Palestra Itália.

A fonte expressiva de recursos da bilheteria (o ingresso é um dos mais caros do País) sustenta a parceria do Palmeiras com a WTorre, que bancou a construção da obra em troca do direito de uso por 30 anos. Uma multinacional americana (AEG) gerencia a arena.

Só no primeiro ano foram cinco megashows na arena, incluindo o de Paul McCartney, eventos corporativos e até uma balada, uma rave antes de um clássico contra o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro. A WTorre, porém, não revela números de faturamento ou lucro do estádio. Apenas diz que a arena fechará o ano “no azul”.

“Vemos outras novas arenas fechar o ano prejuízo, o que é normal para uma operação como essa. Nós vamos fechar ano azul”, afirma o CEO da empresa, Rogério Dezembro. “Tivemos um primeiro ano acima do que imaginávamos, com média de público acima de 30 mil pessoas (por jogo).”

Pelo acordo entre Palmeiras e WTorre, a renda dos jogos pertence ao Palmeiras, que também recebe um percentual da venda dos camarotes, outra fonte recursos do estádio. São 188 camarotes (eram 15 no Palestra) que custam entre R$ 250 mil (12 lugares) e R$ 600 mil (21 lugares) – 90% deles foram vendidos a empresas.

A inauguração do estádio também contribuiu para o Palmeiras aumentar o número de sócios-torcedores (são mais de 120 mil participantes do Avanti). Em jogos decisivos, o percentual de sócios-torcedores chega a 70% do público do estádio.

Já o parceiro do Palmeiras fica com a arrecadação dos shows, qualquer outros eventos que aconteçam fora dos dias de jogos e maior parte do acordo pelos naming rights (a venda do nome do estádio). Há uma expectativa que o investimento de cerca de R$ 700 milhões, o quanto custou a obra, seja recuperado dentro de 15 a 20 anos.

Por outro lado, o estádio recebe shows que afetam o gramado e desalojam o time, que se vê obrigado a jogar no Pacaembu. A WTorre admite que houve problemas após os primeiros shows, mas o gramado já não foi tão afetado após os espetáculos mais recentes.

“Tivemos shows sábado e domingo e um jogo na quarta-feira (contra o Fluminense). Já é possível minimizar o impacto no gramado”, afirma Dezembro. Até agora nenhum show tirou o Palmeiras de seu estádio em jogo importante, como será a final da Copa do Brasil, semana que vem, contra o Santos.

FLUXO DE CAIXA

Ao Estado, Rogério Dezembro afirmou que o estádio não está à venda, mas reconheceu que houve alguns problemas de fluxo de caixa no início da operação. “Tivemos um período crítico, no segundo trimestre, por causa do financiamento da obra. Isso no auge da escassez de crédito, mas agora isso passou (novembro e dezembro)”, afirmou. 

A comercialização de alguns pontos do estádio continua em disputa. O principal ponto é em relação à venda das cadeiras do estádio. O Palmeiras alega que só dez mil lugares são da WTorre e o restante pertence ao clube. A disputa está na Justiça.

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Era necessária uma ruptura. O velho Palestra não iria mais existir

O palmeirense ‘respira’ o <a href="http://esportes.estadao.com.br/futebol/clubes/palmeiras">Palmeiras</a>. Partindo deste princípio, a ligação da torcida Alviverde com a ‘sua casa’ sempre foi muito forte. Trata-se de uma tradição consolidada há décadas – sábado à tarde, estação Barra Funda, caminhada a passos calmos por 20 minutos e, horas antes do jogo começar, milhares se encontram nas ruas que circundam o Allianz Parque.</p>

Glauco de Pierri, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2015 | 07h00

Ali, aceita-se de tudo – os conhecidos ‘das antigas’, que vivem lembrando de glórias passadas; a turma que passou a frequentar fóruns de sites palestrinos no final dos anos 90 e que hoje toca sua corneta em grupos de WhatsApp; os antigos sócios do clube, que sempre vão à rua conferir o movimento antes de entrar para o novo estádio; os torcedores organizados, que fazem da rua seu palco das festas, com bandeiras de bambu, fogos de artifício, muita fumaça verde, sinalizadores – todos proibidos no moderno palco onde a equipe desfila.

Essa harmonia do palmeirense com a região do estádio é antiga, mas passou a ser maior no final dos anos 80, quando o Palmeiras passou a jogar quase todos os seus jogos como mandante no querido estádio Palestra Itália, conhecido popularmente como Parque Antártica. Um ano depois da inauguração de sua nova arena, é apenas agora que o palmeirense começa a desenvolver com a casa nova a sinergia que tinha de sobra com a antiga. Não se trata apenas de ‘empurrar o time para a vitória’, mas sim de reconhecer um novo local como ‘seu’. Como se sua antiga e aconchegante casa de bairro, erguida no início do século passado, de lembranças tão boas que fazem minar lágrimas dos olhos à primeira recordação, fosse derrubada para a construção de um edifício moderno, onde você vai morar nos próximos anos. É algo como a morte de seu avô, do seu querido pai. Eles não vão mais estar com você. Leva tempo para a gente se habituar.

O antigo Parque Antártica era como o palmeirense gostava. Charmoso, como todo jardim suspenso é; robusto, como precisa ser a casa de um time grande; pulsante, como deve ser a morada que recebe uma torcida ensandecida; efervescente, pois quando era preciso reclamar com os jogadores eles ouviam; amedrontador, porque nenhum time gostava de enfrentar o Palmeiras ali. Tínhamos nossos truques, nossas artimanhas, para fazer com que ele virasse um ‘inferno verde’.

Das arquibancadas do nosso velho Palestra, podíamos assistir o primeiro tempo mais perto das piscinas do clube social, na ‘reta’ onde ficavam a TUP e a Mancha Verde, e na segunda etapa caminhar um pouco e ver o jogo atrás do gol da ferradura. Após a partida, podíamos sair juntos, gritando pelo Palmeiras (ou xingando quem quer que seja) caminhando por baixo do Jardim Suspenso até a então Rua Turiaçu (atual Rua Palestra Itália). Das numeradas, era possível ‘passar instruções’ aos treinadores, ‘orientar’ o bandeirinha e o quarto árbitro. Até dos prédios em volta do estádio era possível celebrar os nossos gols, de camarote, bem pertinho dos nossos ídolos.

Se você fosse sócio do clube então, não precisava ir para a Disney. Porque todo dia era dia de se divertir no Palestra Itália – antes da natação, uma olhada no estádio. Depois da aula de futebol, uma subida na arquibancada. Se precisávamos fazer exercícios, oras, vamos fazer olhando para o campo, conferindo se o jardineiro está cuidando do gramado, imaginando a próxima jogada, celebrando um gol com o pensamento. Encontrando com pai, mãe, irmão, primos, amigos. Sem nenhuma pressa de sair dali, da nossa casa.

Mas, e toda boa história sempre tem um mas, o Parque Antártica precisava se modernizar. Não bastava mais um ‘banho de loja’ – foram muitos, como as extensões da arquibancada (primeiro foi a junção da numerada descoberta ao ‘chiqueirinho’, depois, a extensão da cadeira coberta para perto do parquinho), a criação do 'setor Visa', entre outros.

Agora, era necessária uma ruptura – o velho Palestra não iria mais existir – só de lembrar, causa angústia e amargura. Por quatro ‘intermináveis’ anos, todos observamos a demolição do nosso ‘caldeirão de emoções’ e a construção de uma ‘moderna arena’, que saiu da maquete e, como o nosso hino, surgiu imponente no bairro da Pompeia. Surgiu algo novo em nossas vidas. É como se, sem seu querido e falecido pai, você se visse com três filhos no colo. É hora de colocá-los para dentro desse mundo.

Do lado de fora o impacto visual é assombroso. Por dentro, parece ser impecável. É verdade que ali, do dia da inauguração na derrota para o Sport, até o agonizante empate em 1 a 1 com o Atlético-PR que manteve o Palmeiras em seu lugar, poucos foram os momentos de alegria do lado de dentro da arena em 2014. Em 2015 isso mudou. Vitórias em clássicos e duas disputas de finais, mas também vários momentos de intranquilidade do time em campo e da torcida, sem dúvida. Juntando tudo, ainda faltava alguma coisa. Faltava trazer o espírito que paira do lado de fora, remanescente do nosso Parque Antártica, para dentro. Precisávamos buscar a nossa alma ali na rua e colocá-la de volta em nosso estádio.

As últimas duas vitórias pela Copa do Brasil, contra Internacional e Fluminense, mostraram que o Allianz Parque pode sim ser o ‘caldeirão’ que o Palmeiras tanto precisa. É mais fácil do que os profissionais da bola imaginam: respeito ao torcedor, com garra e o chavão ‘coração na ponta da chuteira’. Não se trata de celebrar ‘divididas’, ou ‘defesas’, como muitos zagueiros fazem no futebol brasileiro hoje em dia, mas sim de comemorar gols. O palmeirense precisa pegar ‘gosto’ pelo estádio novo com time compactado, defesa bem postada, goleiro pegando pênalti, falta bem batida, sem tantos escanteios curtos, chutes de fora da área que levem perigo. Gols, muitos gols.

Foi assim que foi construída a ‘áurea’ do antigo Palestra. Valdemar Carabina, Djalma Santos, Ademir da Guia, César Maluco, Edu Manga, Tonhão, Edmundo, Evair, Zinho, Roberto Carlos, Mazinho, César Sampaio, Alex, São Marcos, entre tantos outros, transformaram o Palestra Itália na casa palmeirense. Esses titãs já não podem mais nos ajudar em campo. Está na hora de surgir novos heróis, com capacidade para manter acessa a chama que vai fazer arder o moderno inferno alviverde.

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