Roberto Zacarias
Roberto Zacarias

Interesse em Endrick, do Palmeiras, evidencia tendência da Europa em levar talentos ainda mais cedo

A joia palmeirense, de apenas 15 anos, é monitorado por gigantes europeus e tem sido um dos principais destaques da Copinha

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2022 | 10h00

Com a Copa São Paulo de Futebol Júnior ainda em disputa, os principais talentos dos clubes brasileiros estão em evidência para os holofotes da imprensa e torcedores. Toda a visibilidade da competição desperta o interesse e observação não só do mercado nacional, como também internacional. O atacante do Palmeiras, Endrick, de 15 anos, é um exemplo disso e já tem seu nome vinculado a grandes clubes da Europa, ilustrando a tendência das equipes do exterior em contratar jogadores cada vez mais jovens. 

Nos últimos anos, o exemplo mais emblemático é o de Vinícius Júnior. Considerado hoje o jogador mais valioso do mundo, segundo o CIES Football Observatory, o atacante, revelado pelo Flamengo, foi vendido ao Real Madrid, em 2017, antes mesmo de completar 18 anos, por R$ 165 milhões. No ano seguinte, Rodrygo, do Santos, seguiu o mesmo caminho, e também se transferiu ao clube merengue, seis meses depois de atingir a maioridade. 

Segundo o levantamento mais recente do observatório francês CIES Football, o Brasil é o país que mais exporta atletas para o mundo. De acordo com o estudo, são 1,2 mil jogadores atuando em 23 campeonatos. Diante dessa vitrine mundial, os clubes brasileiros, sobretudo nos momentos de dificuldades financeiras, enxergam nos talentos da base uma oportunidade de arrecadação, o que, muitas vezes, resulta na saída precoce de jogadores para o exterior. 

Para Júnior Chávare, dirigente de futebol, com experiência em trabalhos voltados à captação e formação de jogadores ao profissional em clubes como São Paulo, Grêmio e Atlético Mineiro, o mundo ideal é que esse atleta, antes de ser vendido para fora, possa ajudar o time dentro de campo e proporcione, além de dinheiro aos cofres da agremiação, um retorno técnico. 

“É preciso tomar cuidado para não queimar etapas. Em alguns casos, os clubes têm pressa para vender o jogador porque precisa usar esse dinheiro para sanar pendências financeiras. Com isso, na maioria das vezes essas vendas ficam aquém do que poderiam se esse menino tivesse mais tempo para se desenvolver. Porém, cada dirigente sabe a realidade do seu clube e onde isso afeta no seu dia a dia”, acrescenta Chávare. 

 

O presidente do Fortaleza, Marcelo Paz, segue uma linha de raciocínio parecida em relação ao aproveitamento desses jogadores no profissional. “Quanto mais tempo o atleta passa no time principal, em nível de experiência e minutos jogados, isso tende a valorizá-lo. O timing perfeito é quando existe uma resposta dentro de campo, para, aí sim, posteriormente, poder gerar um retorno financeiro ao clube, que seja vantajoso para ambas as partes”, completa. 

Na elite do futebol brasileiro, alguns clubes tentam retomar o protagonismo em relação a venda de atletas para o exterior e buscam a valorização das categorias de base. O diretor-executivo do Internacional, Paulo Bracks, admite que essa é uma das metas do clube. “Quando um atleta da base é vendido, o ideal é que já tenha outro preparado para suprir essa saída e dar início ao mesmo processo. Mas é claro que esta linha de sucessão demanda tempo e é necessário planejamento, algo que estamos trabalhando muito desde o primeiro dia que assumimos”. 

Visando a temporada de 2022, o Internacional promoveu quatro atletas campeões do Sub-20 para fazer parte do plantel principal. Os nomes escolhidos para fazer a transição foram: o zagueiro Tiago Barbosa, o lateral-esquerdo Thauan Lara, o volante Matheus Dias e o atacante Nicolas. Bracks afirma que este processo de transição entre base e profissional é fundamental. “É normal que exista uma ansiedade pela subida de vários atletas, pelo ano extremamente vitorioso dentro de campo, mas somos muito criteriosos e cautelosos, pois a queima de etapa pode ser prejudicial”, acrescenta. 

O executivo do Colorado também reconhece que a atual situação econômica dos clubes brasileiros é um fator que facilita ainda mais a saída precoce desses atletas. "Em um cenário em que a instituição esteja tranquila com suas finanças, é possível sustentar o assédio e cifras para decidir pelo melhor momento. Mas a maioria dos clubes brasileiros, hoje, estão à mercê da proposta", completa o dirigente.

A arrecadação com venda de atletas costuma estar entre as prioridades de determinados clubes para atingir a receita planejada na temporada. No entanto, nem todos detêm a visibilidade necessária para atrair o interesse de compradores. Marcelo Segurado, Diretor-Executivo do Santa Cruz, entende que só o talento dos jogadores não é o suficiente para chamar atenção de um grande clube europeu. Nesses casos, o peso da camisa também é relevante.

“Nem todos os clubes brasileiros têm essa grife de exportação. Diante disso, as equipes de menor expressão tendem a colocar suas promessas em instituições maiores, com mais visibilidade, para que eles possam resguardar um percentual de futura venda, lucrar com essas transações posteriores e também com projeto de formação”, argumenta o dirigente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.