Cesar Greco//Palmeiras
Diretoria já planeja mudar perfil do elenco para 2020 Cesar Greco//Palmeiras

Palmeiras investe alto, mas vê reforços fracassarem em 2019

Clube gastou cerca de R$ 140 milhões, atrás apenas de Flamengo, e corre o risco de terminar temporada sem ter conquistado algum título

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 16h00

Clubes mais ricos do Brasil, Palmeiras e Flamengo foram os que mais investiram em contratações para a temporada. Enquanto o Rubro-negro desembolsou cerca de R$ 180 milhões e viu os reforços corresponderem em campo, com o título do Campeonato Carioca, a liderança do Campeonato Brasileiro e com a equipe na semifinal da Libertadores, o Alviverde gastou quase R$ 140 milhões, caiu em todos os campeonatos e teve poucos atletas que se firmaram como titulares. Alguns, inclusive, já deixaram a equipe.

A falta de resultados do Palmeiras deixou a torcida insatisfeita com o elenco e principalmente com o diretor de futebol Alexandre Mattos, que passou a ser alvo da maior organizada do clube. Há menos de três meses do final do ano, o Alviverde vê seu projeto esportivo para a temporada indo por água abaixo.

Mesmo com a irregularidade apresentada em campo durante a temporada, Mattos continua com prestígio dentro do clube. Entre os cartolas mais próximos à presidência, a avaliação é de que Mattos errou, mas o projeto proposto por ele para o Palmeiras é vencedor. Dessa forma, ele é peça fundamental na sequência do segundo mandato do presidente Maurício Galiotte, que termina no final de 2021. 

Internamente, os dirigentes ainda falam que o planejamento para a próxima temporada terá “correções e alinhamentos” para que o que for considerado como erro em 2019 não se repita nos próximos anos. A ordem para Mattos, para o gerente de futebol Cícero Souza e para o técnico Mano Menezes é trabalhar.

Publicamente, Mattos admitiu que uma mudança no perfil dos próximos reforços “uma hora vai acontecer”. De acordo com o diretor, a ideia é melhorar o elenco com contratações pontuais para 2020. Nesta temporada, por exemplo, muitas apostas foram em jogadores pensado a médio prazo, para os próximos anos. 

“O Palmeiras, talvez por planejamento, por estruturar isso, gera expectativa e somos cobrados um pouco acima do normal. O que pagamos hoje para os jogadores os outros também pagam. Se você for no Inter, Cruzeiro, Grêmio ou Flamengo, eles pagam a mesma coisa e estão de parabéns. As equipes estão se organizando e temos que parabenizar todas”, disse Mattos, após a eliminação do Palmeiras na Copa Libertadores da América.

Dos dez jogadores que demandaram investimento do Palmeiras para esta temporada, dois já estavam no elenco alviverde. O clube comprou os laterais-direitos Marcos Rocha e Mayke, que estavam emprestados pelo Atlético-MG e Cruzeiro, respectivamente. 

Dos outros oito jogadores, os que podem ser considerados titulares são apenas os zagueiros Gustavo Gómez e Vitor Hugo. O meia Zé Rafael chegou a assumir a posição com o técnico Luiz Felipe Scolari, mas tem sido reserva com Mano Menezes. O volante Matheus Fernandes e o atacante Carlos Eduardo não têm espaço, enquanto o meia colombiano Angulo vinha alternando entre o time sub-20 e o elenco profissional. Os atacantes Felipe Pires e Arthur Cabral deixaram o clube no meio desta temporada.

Em relação aos jogadores que foram contratados “sem custos”, o meia Ricardo Goulart já retornou ao Shandong Luneng, da China, o volante Ramires faz trabalhos para ficar 100% fisicamente, o atacante Henrique Dourado nem sequer estreou e, por fim, Luiz Adriano assumiu a posição de titular como centroavante.

“Achar que está tudo errado? Não. Vamos fazer manutenção de elenco e melhorar. Ou contratamos caras para jogar de imediato, outras vezes por oportunidade de mercado, outros para preparar para o futuro, outro para criar desconforto no titular. Algumas vezes é para o cara crescer depois, com o tempo. É óbvio que tem que melhorar, não acho que a manutenção do elenco tem sido um erro”, defendeu Alexandre Mattos.

O caso de Luiz Adriano é um que serviu como crítica para a diretoria palmeirense. Após a saída de Gabriel Jesus, no fim de 2016, o clube demorou para achar um jogador para a posição. Borja e Deyverson foram contratados, mas não se firmaram. No início deste ano, o Palmeiras foi ao mercado e contratou o jovem Arthur Cabral em vez de um centroavante que já chegasse para ser titular. Ao todo, a diretoria gastou quase R$ 60 milhões até contratar Luiz Adriano no meio desta temporada sem custos, arcando “apenas” com salários e comissões, enquanto o Spartak Moscou da Rússia, permaneceu com 50% dos direitos econômicos do atacante.

Com exemplos próprios e também no Flamengo, que foi ao mercado em busca de jogadores pontuais, o Palmeiras espera acertar nas escolhas para a próxima temporada. Mattos diz que ainda não é hora de pensar em 2020, mas a diretoria já trabalha com a comissão técnica comandada por Mano Menezes para suprir as necessidades apontadas neste ano. Um atacante de lado de campo deve ser prioridade do Palmeiras na próxima janela de transferências.

Análise: Pedro Daniel, líder de esportes da consultoria Ernst & Young

"O Flamengo e o Palmeiras são os mais ricos do Brasil por motivos distintos. São planejamentos também distintos. O Flamengo é o maior faturamento com cota de televisão e está nesse ciclo virtuoso há algum tempo. O clube passou por uma reestruturação de 2013 pra cá e foi potencializado por boas vendas de atletas, como o Vinícius Júnior e o Paquetá. Tudo isso deu um fluxo de caixa para investir e ter essa vantagem em relação aos outros clubes.

O Palmeiras entrou em um ciclo virtuoso porque é quem mais fatura com bilheteria no Brasil e tem também o maior patrocínio (a Crefisa). O clube ainda teve algumas vendas nesses últimos anos. 

Por esses motivos, Flamengo e Palmeiras são os dois clubes que têm vantagens competitivas em relação aos outros. Fica claro pelo que é gasto nas janelas de transferências e pelo custo do departamento de futebol dos dois que tem um patamar diferenciado. É porque tem receita para fazer esse investimento.

Sobre se a diferença pode aumentar ou diminuir, como todo mercado no mundo, ocorreu uma concentração de renda nos clubes brasileiros. Aqui não existem mais 12 clubes disputando o Campeonato Brasileiro. Fica muito claro que são no máximo seis clubes. E Flamengo e Palmeiras são favoritos por terem esse custo mais alto que tende a trazer melhor performance. Esse cenário já vem acontecendo há alguns anos. Para os outros clubes, é possível alcançar um patamar desse, mas Palmeiras e Flamengo largaram na frente, e o mercado não espera.

O Flamengo já tem uma gestão financeira que consegue ser pontual e trazer com menos riscos, jogadores mais conhecidos, que já foram testados. Os jogadores mais conhecidos acabam trazendo retorno em publicidade. Com um titular da seleção brasileira, como o Filipe Luis, você ganha mercado. Com um treinador que já trabalhou na Europa, como o Jorge Jesus, também ultrapassa fronteiras, como a venda de jogos para transmissão em Portugal. O clube fica mais atrativo comercialmente, e isso faz parte desse ciclo virtuoso."

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Na contramão dos rivais, Palmeiras deixa os jogadores da base de lado

Clube não tem dado espaço a atletas que se destacam nas categorias de formação

Ricardo Magatti, especial para o Estado

12 de outubro de 2019 | 17h08

Na contramão de seus principais rivais Corinthians, São Paulo e Santos, e o Flamengo, líder do Campeonato Brasileiro, o Palmeiras tem deixado as categorias de base de lado nesta temporada. Apesar de ter investido alto na reformulação da base nos últimos anos, os jovens não têm sido utilizados no time principal.

No time titular atual não há sequer um jogador formado em casa. No elenco, o técnico Mano Menezes conta com o lateral-esquerdo Victor Luís, que, no entanto, subiu para o time principal em 2014, quando o clube recorria à base de forma emergencial. Ele foi emprestado a Ceará e Botafogo antes de regressar em 2018. Hoje, é reserva de Diogo Barbosa. Há também o colombiano Ivan Angulo, adquirido junto ao Envigado em junho e que, depois de se destacar no time Sub-20, subiu aos profissionais, mas ainda não foi utilizado.

A não utilização de jogadores da casa é um dos argumentos de quem mais critica o a gestão do diretor de futebol Alexandre Mattos. Ele é o principal alvo de protesto da torcida organizada Mancha Alviverde, que pede a saída do dirigente e do presidente Maurício Galiotte.

"É um processo natural, mas a avaliação técnica a comissão tem na mão. Se jogador da base está pronto, não tem dúvida que vai colocar. Muitas vezes vemos só um jogo e falam para colocar para jogar, não é bem assim. É por isso que jogador é emprestado, para passar por um processo de amadurecimento", explicou Mattos em entrevista recente.

O que o Palmeiras tem feito nos últimos anos é negociar em definitivo ou emprestar suas joias com o intuito de que elas voltem com mais experiência. Exemplo disso é o atacante Artur. Ele foi emprestado ao Londrina em 2017 e se tornou um dos destaques da Série B naquele ano. Retornou no ano passado, mas foi pouco utilizado pelos técnicos Roger Machado e Luiz Felipe Scolari e, assim, voltou a ser negociado por empréstimo nesta temporada, desta vez para o Bahia. É um dos principais jogadores do time baiano. O atacante Papagaio também chegou figurar no elenco profissional, mas foi negociado com o Atlético-MG no começo do ano. Ele não agradou em Belo Horizonte e se transferiu para o Goiás no mês passado.

A opção de não dar espaço a atletas oriundos da base não é por ausência de talentos, já que o Palmeiras coleciona títulos nas categorias inferiores. Em 2018, a equipe Sub-20 conquistou o Brasileiro, o Paulista e a Copa RS. Já o Sub-17 faturou o Mundial de Clubes (não reconhecido pela Fifa) e o Paulista. As conquistas também se acumulam nas demais idades.

 

Nos últimos cinco anos, o principal jogador revelado pelo clube foi Gabriel Jesus, do Manchester City e um dos atletas de confiança de Tite na seleção brasileira. Promovido ao profissional em 2015, o atacante participou da conquista da Copa do Brasil do mesmo ano e foi fundamental para o título brasileiro de 2016, antes de ser vendido por 32,75 milhões de euros (cerca de R$ 121,1 milhões, na cotação da época) para o futebol inglês.

Hoje, a principal aposta do Palmeiras para brilhar num futuro breve é Gabriel Veron. O atacante de 17 anos ganhou títulos por todas as categorias em que passou no time alviverde e treinou com o elenco principal em 2018. Ele tem passagens pela seleção brasileira de base e foi convocado para disputar o Mundial Sub-17, que será realizado no Brasil entre outubro e novembro.

RIVAIS

Os rivais fazem o oposto do Palmeiras. Corinthians e São Paulo têm pelo menos um atleta oriundo da base no time titular e ambos são destaques. O time alvinegro conta com o meia Pedrinho e a equipe tricolor recorre ao atacante Antony. Os dois também são titulares na seleção olímpica.

No Santos também há sempre espaço para os jovens. O alvinegro, conhecido por ter DNA ofensivo, sempre recorreu à base e já revelou inúmeros craques, como Robinho e Neymar. Depois que Rodrygo foi vendido ao Real Madrid, o nome da vez é o atacante Tailson. A joia de 20 anos agradou o técnico Jorge Sampaoli nos treinos e ganhou uma vaga entre os titulares nas duas últimas partidas.

No Flamengo, quem tem brilhado é Reinier. O meia é reserva no estrelado elenco flamenguista, mas tem aproveitado as oportunidades dadas pelo técnico Jorge Jesus diante das ausências de Arrascaeta e Gabriel. Marcou dois gols e disputou seis jogos no Brasileirão. Ele é da mesma geração de Gabriel Veron e Talles Magno, do Vasco, outro talento do futebol brasileiro.

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