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Investidora do Palmeiras, Leila pereira tenta a presidência do clube Divulgação|Palmeiras

Investidora do Palmeiras, Leila pereira tenta a presidência do clube Divulgação|Palmeiras

Como Leila Pereira, dona da Crefisa, se movimenta para chegar à presidência do Palmeiras

Investidora pode ser primeira mulher no cargo; Patrocinadora do clube desde 2015, empresa já injetou mais de R$ 1 bi na parceria e renova contrato por mais três temporadas, com investimento de R$ 81 milhões por ano

Fabio Hecico, especial para o Estadão , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Investidora do Palmeiras, Leila pereira tenta a presidência do clube Divulgação|Palmeiras

"Eu sei que é uma responsabilidade grande, mas estou preparada. Estou preparada para fazer o melhor para o nosso clube!" Com essa declaração, Leila Pereira oficializou sua candidatura à presidência do Palmeiras. A decisão foi tomada seis anos após ela fechar a primeira parceria de patrocínio ao lado do marido, José Roberto Lamacchia, dono da Crefisa e da Faculdade das Américas, a FAM, e dias antes de mais uma renovação de patrocínio por mais três temporadas, com investimento anual de R$ 81 milhões (pode chegar a R$ 120 milhões com metas atingidas) até 2024.

As marcas de suas empresas são estampadas na camisa do Palmeiras desde 2015. Com dinheiro e conquistas, Leila se tornou poderosa no clube. Ela tem tudo para assumir o comando do Palmeiras nos próximos três anos a partir de dezembro. Suas empresas vão superar investimentos de R$ 1,2 bilhão ao clube. Não há rivais declarados no pleito. Seria a primeira mulher a dirigir o Palmeiras em sua história. A empresária vem construindo um caminho legítimo para se tornar presidente. Ela não poupa esforços. Além de colocar dinheiro, também coloca seu patrimônio à disposição, como um avião particular que sempre está de tanque cheio para buscar ou levar jogadores em jogos importantes. Desde sempre alimenta o sonho de comandar o Palmeiras, embora no começo do namoro dizia que "jamais seria presidente, que estava mais interessada em suas empresas".

De 2015 para cá, isso mudou e Leila se tornou gigante no Palmeiras. Favorita para substituir Maurício Galiotte no próximo triênio, ela está motivada para fazer do Palmeiras o melhor time do País, talvez da América, o que já é pela conquista da última Libertadores, e levar sua bandeira para os quatro cantos do planeta. Ganhar um Mundial é uma obsessão. Está tão à vontade no clube que não teme cobranças ou desconfianças. Sua vitória é tão certa que ainda não há candidatos para enfrentá-la.

"Deveriam focar não em quem coloca dinheiro no clube e, sim, em quem gasta irresponsavelmente. E não vejo conflito (em ser patrocinadora e presidente). Se houver situação que envolva a Crefisa, encaminho para o Conselho Deliberativo, e o que ele decidir vai se cumprir", disse Leila em entrevista na rádio Capital na qual o Estadão participou, já antecipando uma das principais questões de sua candidatura. Ela estará dos dois lados da mesa, de patrocinadora e de patrocinado, e isso pode trazer desconfortos. 

Para evitar problemas, ela antecipou a renovação do patrocínio como "presente de aniversário do clube" ao ampliar o acordo por mais três anos. A parceria que começou em 2015 só terminará em 2024. "Nas eleições, esse assunto do patrocínio estará sacramentado. É importante deixar claro que o valor permanecerá sendo o maior do futebol sul-americano." Serão R$ 81 milhões por ano, com cotas de premiações que podem atingir R$ 120 milhões em caso de conquistas.

Estar dos dois é uma situação incomum. Mas na visão de profissionais do marketing esportivo, pode ser algo interessante para um clube de futebol desde que as coisas sejam separadas. Seu nome não pode estar dos dois lados dos documentos. Leila vai ter de se dividir em duas para evitar aborrecimentos e acusações, além de pressão desnecessária, algo perigoso no mundo da bola. Contra os conflitos, a recomendação de especialistas é para ser apenas a presidente do clube. E antes de assumir, se ganhar, apresentar as contas da parceria, numa espécie de 'declaração de imposto de renda' com todos os investimentos, ganhos, dívidas, reembolsos...

"O mais apropriado seria ela se desligar da empresa no período em que for presidente do Palmeiras, se eleita. Avalio que há uma incompatibilidade de cargos. Então, se fosse eu, me desligaria da Crefisa/FAM, para ter dedicação ao clube", enfatiza Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e professor no MBA de Gestão e Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios.

"À medida que a Leila passe a ocupar uma posição ainda maior no clube, pode ser que exista divergências políticas, como é normal no dia a dia de qualquer instituição grande como são Palmeiras e Crefisa. O ideal é que se crie regras de governança corporativa para que a mesma pessoa, Leila, não vista o boné de patrocinadora e também de presidente do clube, pois isso poderia ser alvo de conflito", avalia Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM, de São Paulo.

"Com a criação de regras para que essa boa relação seja estabelecida, sem dúvida nenhuma o Palmeiras tem a ganhar, afinal de contas ele tem alguém que é tão apaixonada pelo Palmeiras que não só quer dedicar seu tempo, sua vida e sua inteligência ao clube, como também já mostrou que sua paixão não a impede de colocar dinheiro, investir, fazer quase um papel de banco lá dentro. Há alguns milhões de reais que o clube deve para ela."

CONSTRUÇÃO

Aporte financeiro para contratação de atletas é o carro-chefe para a 'torcedora', que certo dia quis "fazer algo de verdade" pelo clube, conquistar a simpatia e a confiança de diversas alas palmeirenses, que nunca foram tão unidas quanto agora. O Palmeiras deu diversas voltas olímpicas de 2015 para cá e continua como um dos times com melhor elenco do País. O dinheiro da Crefisa mudou o Palmeiras. 

A parceira empresta valores com juros irrisórios, alguns nem são cobrados, e pega de volta o dinheiro caso o clube negocie o atleta comprado. Nesses moldes desde 2019, a Crefisa tem R$ 160 milhões a receber de atletas que não saíram, como Borja, maior investimento, US$ 10 milhões (hoje R$ 53 milhões), e Lucas Lima, adquirido por R$ 17,5 milhões. Ambos não fazem mais parte do elenco, mas ainda têm contratos presos ao Palmeiras. Borja está no Grêmio. E Lucas Limas, no Fortaleza. 

Com seu jeito, Leila foi esmagando a oposição. Alguns foram "colocados" para fora da briga política e outros passaram a comer em sua mão. Ela juntou grupos que pareciam ficar separados até a morte. Ela trouxe a torcida organizada para perto dela, com ajuda financeira nos carnavais e reformas de quadra. Tudo isso faz parte de uma construção de imagem dentro do clube. Agora, depois de seis anos, colhe os frutos.

DÍVIDA, REFORÇOS E TÍTULOS

Tudo começou com um patrocínio de R$ 23 milhões. Atualmente está em R$ 81 milhões. "O Palmeiras tem totais condições de cumprir com esses compromissos. Vai cumprir, não tenho dúvida. O investimento que foi feito girou em torno de R$ 160 milhões, não tenho de cabeça o número exato. Uma parte dessa dívida já foi paga, porque ela é garantida pelos ativos, que são os jogadores", minimiza a parceira e conselheira mais votada no último pleito, com 387 votos.

"No momento em que um grupo empresarial ou uma pessoa resolve emprestar dinheiro para um clube de futebol, são solicitadas garantias. Se o grupo ou pessoa se sente à vontade com as garantias pré-estabelecidas e resolve emprestar o dinheiro, é uma decisão dele", afirma Wolff. "Eu acredito que, antes de tudo, ela deve agir desligada do grupo em que atua hoje, suas empresas. Reforço que minha opinião é ela se manter focada no Palmeiras, tomando as decisões que são as melhores para o clube, pois acho que isso seria o melhor para o time."

Se eleita, sua rotina vai mudar e talvez ela só tenha tempo para o Palmeiras. Terá uma sala chique no prédio dos fundos do clube e dali dará expediente todos os dias. As vitórias é glórias são parte pequena (e boa) do trabalho de um presidente, que passa o dia resolvendo problemas e atendendo pedidos. Há o clube social para gerir.

"Se existe um risco maior, esse risco quem está tomando é a própria Leila ao assumir essa posição que, sem dúvida, não é nunca de decisões unânimes. Ela vai ter de lidar bem com isso. Mas para o clube não existem grandes riscos. Ao contrário, vai ter alguém ali com bom preparo, boas intenções e que já provou o amor para o Palmeiras", acredita Ivan Martinho.

Corneteira, ela terá de mudar sua postura caso assuma a cadeira. Terá de ser menos crítica. Mesmo não investindo mais em jogadores (agora faz empréstimos para a chegada de atletas), a Crefisa ainda conta com alguns atletas no atual elenco, casos de Dudu, Luan e Deyverson. Todos têm ótimo potencial de mercado e podem reorganizar o caixa da parceira em futuras negociações. Mas também há as frustrações, caso de Lucas Lima. Outros já retornaram o investimento, como Bruno Henrique, Juninho, Fabiano e Carlos Eduardo.

ALIADA DA MANCHA

O principal torneio do continente é um dos grandes motivos para Leila ter forte apreço pelos torcedores da principal torcida do Palmeiras. O famoso verso "Copa Libertadores é obsessão" vindo das arquibancadas virou lema da parceira. Ela sempre prometeu fazer de tudo para o clube brilhar no sonho verde. Já ganhou uma vez a competição e está na briga para vencer a segunda. Sempre que pode, Leila convoca a torcida para os jogos da Libertadores e depois faz questão de parabenizar os torcedores pelos espetáculos. 

Ela tem ligação direta com a alta cúpula da Mancha e não pensou duas vezes na hora de colaborar no carnaval da escola. Foram R$ 3,5 milhões de investimento e o primeiro título, em 2019, com desfile rico e luxuoso. Não parou mais. Virou uma segunda paixão.

Para ela, não há dinheiro que pague a alegria do torcedor com uma conquista. Ela investe pesado, pois também é uma satisfação pessoal para ela, diz. Mesmo no começo da parceria, resolveu arcar com R$ 8 milhões para reformas na Academia de Futebol para dar mais condições de trabalho aos jogadores, como disse. Deixar o Palmeiras forte é uma maneira de angariar apoiadores e crescer como parceira, dirigente e empresária. Ela tem o respeito de muitos no clube, mas também é tida por alguns como esnobe, prepotente, arrogante e intimidadora. Se eleita, terá de governar para todos.

Mesmo ex-jogadores famosos e que não se metem em política no Palmeiras parecem estar do seu lado, como o goleiro Marcos. "Um dia você me falou sobre seu sonho de ser presidente do Verdão. Nunca me meti em política no clube, continuo assim, mas se por acaso seu sonho se realizar, acredito que fará um excelente trabalho", postou São Marcos em suas redes sociais.

O apreço de Leila é grande entre os palmeirenses, mas também de quem esteve do outro lado, como o corintiano declarado Neto. Crítico e duro com gestores de futebol, sobretudo os do Corinthians, o ex-jogador e apresentador não poupa elogios para o trabalho dela. Na visão de Neto, a parceria de sucesso com a Crefisa devia render um busto aos investidores e servir de modelo. "Olha o que o Palmeiras já ganhou com a Crefisa. E pode ganhar mais. O que essa mulher fez pelo Palmeiras, não sei se outro patrocinador já fez por algum clube", disse. "Se tem uma coisa que o Brasil precisa é de gente igual à Leila e ao marido dela. Eles merecem um busto no Palmeiras, colocaram o Palmeiras em outro patamar no futebol."

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