Palmeiras: na torcida ninguém saiu triste

O que poderia ter sido apenas um jogo de compadres, com resultado acertado e forçando loteria nos pênaltis, acabou em uma goleada solene - 4 a 0 para o Palmeiras. Diante do próprio Palmeiras, o B. O cruzamento de chaves da segunda fase da Copa São Paulo de Futebol Júnior foi cruel com a torcida. Com duas equipes inscritas, os palmeirenses se cruzaram bem antes do que a diretoria gostaria. Num jogo de uma torcida só, ainda assim houve quem não ficasse indiferente e tomasse partido. "Prefiro o time A, porque os moleques são mais humildes. Não entram de salto alto", explicou o estudante Pedro Antonio Pereira da Silva, de 20 anos. "Não quero nem pensar. Os jogadores são todos amigos, mas alguém vai sair daqui triste, né?", previa Gilberto Haider, de 45 anos, pai de Brian, goleiro do Palmeiras B, que acabou levando quatro gols - dois deles marcados pelo seu melhor amigo, Marquinhos, camisa 10 do "adversário".Ao contrário de Silva e Haider, quase todos os outros 6 mil torcedores que foram ao Palestra Itália na manhã de ontem, debaixo de sol forte, não tinham preferência. A disputa "interna" valia a festa. E uma vaga nas oitavas-de-final da Copinha. "O dia em que o Palmeiras ganha ou ganha chegou", vibrava Renato Sabaine, de 37 anos, gerente de novos projetos do Consulado Americano. Sabaine aproveitou o clima tranqüilo nas arquibancadas para levar pela primeira vez o filho Júnior, de 10 anos, ao estádio. "Não há perigo de violência."O confronto curioso confundiu principalmente as crianças, em grande número no estádio. "Como é que eu vou saber que time está com a bola?", perguntava ao pai Anderson Barbosa Reis, de 7 anos. "Um time vai estar de verde e outro de branco", explicava Romualdo, paciente, como se estivesse habituado à situação. "Nunca vi o mesmo time se enfrentar. Isso deveria entrar no Livro dos Recordes."A confusão pegou de surpresa o feirante Fernando Augusto, de 15 anos. Morador do Itaim Paulista, Augusto levou 85 minutos de ônibus até o estádio - quase uma partida inteira -, tempo que usou para, brincando com os amigos, escolher se torceria para A ou B. Convencido de que era melhor apostar no A, trocou as economias por sua primeira camisa do clube do coração. E aí veio a decepção. Escolheu uma verde: R$ 10. Dentro do estádio descobriu que a equipe A jogaria de branco. Zoado pelos amigos, não perdeu o bom humor: "Ai, espero que isso não seja sinal de azar". Não foi.Organizada - Na arquibancada, os tradicionais picolé, pipoca, água gelada, refrigerante e torcida organizada. Sim, a Mancha Alviverde, na companhia de surdos, tambores e com muita voz para soltar, compareceu em peso para gritar 90 minutos e festejar muitos gols - marcados por quem quer que fosse. "Queríamos dividir a torcida em dois grupos, para ficar equilibrado, mas a polícia não deixou", lamentava Luizinho, diretor da Mancha Alviverde. "Mas o grito de ?Ole, Porco? vai sair de qualquer jeito." Quando os 22 jogadores entraram em campo, os fanáticos torcedores fizeram a festa, sem concorrência, pelo menos desta vez.Ao torcedor, um eterno sofredor, um alívio. O jogo começou e a estranheza de torcer para quem estivesse com a posse da bola foi passando. "Assim fica fácil, né?", disse Renato Pedro Antônio, de 39 anos, técnico de almoxarifado, cutucando o filho, Victor Hugo Barros Antônio, de 9. "Com essa dose dupla, duvido que o Victor não vire palmeirense", brincava o pai. Não era preciso apenas gostar muito de futebol para enfrentar os 90 minutos de um jogo com cara de treino coletivo. Era preciso ser muito, mas muito palmeirense. Mesmo com a bola rolando, o fanático paulistano Paulo Roberto Santos Filho, que mora no Rio, estendia com dificuldade uma faixa da Mancha Alviverde com "Rio de Janeiro" em imensas letras verdes. "Somos uns 15 sócios ativos na organizada do Rio. Eu não podia perder esse jogo histórico", contou ele, que estava de férias em Santa Catarina e veio de carro para assistir aos jogos da Copinha.E dá-lhe "Palmeiras, Palmeiras" na arquibancada. E dá-lhe chutão, impedimento, bate-rebate em campo. De repente, gol! O primeiro gol do Palmeiras A, marcado por Marquinhos, animou o estádio inteiro. Mesmo quem tinha simpatia pelo B não deixou de aplaudir. Afinal, era 1 a 0 para o Palmeiras. Mais um pouco e... falta marcada. Para o Palmeiras. Contra o Palmeiras. Era a senha para o juiz receber a primeira bronca da torcida. Em coro, forte, quase uma covardia. Um estádio inteiro contra uma só pessoa. "Sabíamos que seria um jogo difícil", disse, ao final da partida Roberto Braghetto, de 29 anos, o árbitro escalado para o confronto. "Se você erra, vira motivo de brincadeira. Conversei muito sobre isso com os assistentes antes do jogo."Formado em Administração de Empresas e professor de Educação Física, Braghetto tinha certeza da importância da partida. "Trouxe minha máquina fotográfica para registrar isso. Duvido que aconteça de novo uma partida de um clube contra ele mesmo. É histórico." Sobre a dificuldade de apitar um jogo de uma torcida só, ele desconversa. "A cobrança foi uma brincadeira. Até os cartões aplicados foram equilibrados. Dois amarelos, um para cada lado. E só um vermelho (para o B)."Sem paciência - Bola na trave, perigo de gol e o primeiro tempo ficou mesmo no 1 a 0. "Expulsa esses 22", berrou George Franco, de 47 anos, um palmeirense irritado com a baixa qualidade técnica da partida. Intervalo e quem perdeu a paciência como Franco abandonou o estádio. "Joguinho ruim mesmo", concordava Flausino Marquez, de 88 anos, sócio do Palmeiras desde 1962. "Mas se é o futuro do Palmeiras que está em campo, tenho mais é de torcer." Mudou de idéia, desistiu de voltar para casa e ficou para mais 45 minutos de história em jogo.Menos de 10 minutos e Marquez garantia, com aplausos, que não tinha se arrependido. Gol de Elias, para o Palmeiras A, de pênalti. Mais um pouco e, Marquinhos, de novo, marcava. 3 a 0 e muito nervosismo em campo. Uma falta tirou Paulo Henrique, do Palmeiras B, de campo. O atendimento, diante do reservado do Palmeiras A, mostrou que solidariedade não tem time. Ainda mais naquele caso. O técnico "adversário", Marcelo Martelotte, e alguns jogadores se preocuparam com o estado do jogador. Coisa de amigo. Coisa de amigo, aliás, foi o último gol. Gol de palmeirense para palmeirense. Um gol de André Gaúcho. Contra. Justamente no dia em que toda a torcida estava a favor.

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