Palmeiras: Reinaldo não tem ?dono?

Reinaldo, o maior candidato a revelação do ano no atual time do Palmeiras, é um caso raro. E por dois motivos: não tem empresário e 100% de seus direitos federativos pertencem ao próprio clube. Contratado no início do ano junto a um grupo de empresários argentinos (atuava no Quilmes), o volante de 21 anos tem vínculo assinado com o Verdão até 2008.A situação significa dizer que, em caso de venda, o Palmeiras ficará com toda a quantia - diferentemente do que aconteceu, por exemplo, com Vágner Love, quando somente 50% do dinheiro do CSKA (cerca de R$ 4,5 milhões) foram para os cofres do clube.Reinaldo seria, então, uma espécie de "jogador modelo" do Verdão: não tem empresário, não tem vínculo com outro clube, não produz burocracia e tem alto potencial de retorno em caso de venda.Tudo isso, porém, pode mudar logo. Jogando nos profissionais há um mês, o volante, que começou no Nacional e teve uma passagem relâmpago pelo Siena, da Itália, antes de atuar no Quilmes, já desperta a cobiça de empresários. Muitos telefonam oferecendo-se para trabalhar como seu procurador. Reinaldo só não sabe qual escolher. "Estou conversando com vários e, em breve, acertarei com um deles".Nesse caso, Reinaldo deixaria de ser exceção. E entraria num esquema que, hoje, é quase impossível de ser desmontado: o da barganha de empresários por uma porcentagem no contrato do jogador, em caso de negociação com um clube do exterior. "Para não perdermos o atleta que está se destacando, fazemos um contrato mais longo com ele, com uma multa rescisória mais alta. Em troca, damos a ele uma porcentagem no contrato", explica Ilton José da Costa, supervisor de futebol do Palmeiras.Essa porcentagem, no entanto, é quase sempre negociada por empresários, que abocanham uma parte no negócio como ?comissão?. "O ideal é que o jogador fosse auto-suficiente para negociar isso, ou tivesse alguém da família que pudesse assumir a condição de negociar", diz Ilton. É o caso, por exemplo, do meia Juninho, que tem o pai Oswaldo Giroldo como seu procurador. "O problema é que, com a Lei Pelé, os empresários ganharam muita força", reclama Ilton.O assédio começa sempre muito cedo. "Temos atletas de 15, 16 anos, com um potencial enorme. Mas, por lei, não podemos fazer contratos maiores do que cinco anos. E assim, com 21 anos, quando o atleta está prestes a explodir, temos de renegociar seu contrato. E é aí que aparece o empresário", diz Ilton.Antes de voltar ao Palmeiras, onde já havia estado no final da década passada, Ilton trabalhou por três anos no Santos, onde participou do processo de revelação de jovens craques como Diego e Robinho. Foi no clube da Baixada que Ilton aprendeu a lidar com a Lei Pelé. "Quando esses jogadores começaram a se destacar, trabalhamos para renovar seus contratos, oferecendo a eles uma porcentagem na hora da venda", conta Ilton.Foi a maneira encontrada para mantê-los na Vila Belmiro por mais tempo. No caso de Diego, a divisão chegou a 50%; com Robinho, 60% para o clube e 40% para o jogador. A diferença nos dois casos é que foi o pai de Diego quem conversou com a diretoria santista. Já Robinho foi representado por seu empresário, Wagner Ribeiro, tido hoje por alguns conselheiros santistas como "persona non grata" na Vila.Ribeiro tem boa relação com a diretoria palmeirense. Em julho do ano passado, ajudou o clube a ganhar uma briga com o Nacional pelo atacante Kahê, hoje na Ponte Preta. Meses depois, "encaixou" o desconhecido Alex Afonso, que não vingou e acabou no time B. Detalhe: com um contrato de três anos.Alex Afonso só começou a mostrar bom futebol este ano, na Série A-3 do Paulistão. Depois, atuou no time principal com Paulo Bonamigo, mas com a chegada de Emerson Leão, foi emprestado para o Fortaleza. Coincidência ou não, Leão declarou recentemente: "Entre um jogador de empresário e um do clube, prefiro o do clube".O raciocínio do treinador é simples: "Não trabalho para empresário, sou funcionário do clube. Vou dar lucro para os outros? Trabalho para dar lucro para o clube. Não dizem que eu ganho muito? Então tenho que dar lucro ao Palmeiras".Leão cogita fazer contratos em que teria participação na venda de atletas revelados por ele. "Já me ofereceram esse tipo de coisa, nunca topei. Mas agora já penso nisso".DIVIDINDO O BOLO - Boa parte do elenco palmeirense é comprometida também com outros clubes. Legalmente, perante à CBF, eles são vinculados ao Palmeiras. Em seus contratos, porém, há cláusulas que dão a seus ex-clubes uma porcentagem sobre o valor de uma eventual venda para outra agremiação.É o caso do volante Roger, por exemplo, reserva imediato de Reinaldo. Se quiser vender Roger, o Palmeiras terá de repassar 50% do valor para o União São João, o último clube do volante.Esse é o recurso encontrado pela diretoria palmeirense para baratear o custo das contratações, já que, ao invés de comprar 100% dos direitos do jogador, o clube compra apenas uma parte deles."Na negociação, tentamos ficar com a maior porcentagem, é claro. Mas nem sempre isso é possível. Então a gente estuda a porcentagem que dá para ceder na negociação", explica Ilton José da Costa. "Toda contratação é sempre um risco. Não dá para saber se o jogador vai dar certo. Com alguns, a certeza é maior. Por isso, investimos nos 100%", emenda o diretor.Esse foi o caso de Reinaldo, não o de Roger. Coincidência ou não, o primeiro é titular. E o outro, reserva.

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