Paulo Pinto / Estadão
Paulo Pinto / Estadão

Palmeiras: vice da Libertadores marcou reta final da Era Parmalat há 20 anos

Última grande campanha da parceria, que chegou ao fim em 2000, terminou com título do Boca Juniors

André Carlos Zorzi, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2020 | 05h00

O ano 2000 marcou o fim da Era Parmalat, considerada um dos períodos mais vitoriosos da história do Palmeiras, com títulos de LibertadoresCopa do Brasil, Campeonato Brasileiro, Copa Mercosul, Torneio Rio-São Paulo, Copa dos Campeões e Campeonato Paulista na década de 1990.

Em 21 de junho daquele ano, o Palmeiras chegou à final da Libertadores, quando foi derrotado pelo Boca Juniors, resultado que marcou a reta final da parceria com a empresa italiana. Relembre a campanha no torneio e a trajetória do time durante a Era Parmalat.

O último ano do Palmeiras na Era Parmalat

Na Copa São Paulo de 2000, torcedores chegaram a levar uma faixa ao estádio Bruno José Daniel, em Santo André, com os dizeres: "Fora Parmalat, o Palmeiras não precisa de você!".

Em entrevista ao Estadão à época, Paulo Angioni, diretor de futebol da Parmalat, afirmava que parte do orçamento previsto para todo o ano 2000 (cerca de 30%) já havia sido gasto antecipadamente. Parte disso ocorreu pela tentativa em manter um elenco forte para enfrentar o Manchester United, na final da Copa Intercontinental, equivalente ao Mundial, no Japão, em 1999.

Um grande aumento no valor do dólar também atrapalhou o contrato de alguns atletas, que eram pagos na moeda estrangeira. A saída de Gianni Grisendi, idealizador da parceria, da presidência da Parmalat no Brasil e na América do Sul em fevereiro foi mais um passo rumo ao fim da parceria. Pouco antes, a empresa já havia deixado de renovar contrato com a empresa que fazia pesquisas de retorno de mídia na área do futebol. O contrato da parceria chegou ao fim oficialmente em 31 de dezembro de 2000. 

O Palmeiras na Libertadores 2000

Buscando o bicampeonato e comandado por Luiz Felipe Scolari, o Palmeiras enfrentava uma redução de investimentos comparado ao que teve em 1999: estima-se que 5 milhões de dólares, cinco vezes menos que os 25 milhões na Libertadores anterior.

Nomes como Paulo Nunes, Evair, Oséas, Júnior Baiano e Zinho haviam deixado o time. Por outro lado, Arce, Roque Júnior, César Sampaio, Alex e o goleiro Marcos permaneciam.

Na 1ª fase da Libertadores 2000 o Palmeiras enfrentou dois times com estádios em grandes altitudes, o The Strongest, da Bolívia, e o El Nacional, do Equador. Completava o grupo o Juventude, campeão da Copa do Brasil de 1999 sobre o Botafogo.

Mesmo sem desenvolver um grande futebol e com cobranças da torcida, o time chegou à última rodada podendo perder por até seis gols de diferença para avançar de fase. Com três vitórias, um empate e duas derrotas, avançou ao mata-mata com 10 pontos, na liderança do Grupo 7.

O polêmico café do goleiro Marcos

Foi no jogo contra o The Strongest, no Parque Antártica, que o goleiro Marcos tomou goles de café encostado em uma trave, numa cena que ficaria marcada. "Esse cafézinho deu uma polêmica do caramba. Se eu tivesse tomado suco ou água ninguém tinha falado nada", desconversava, à época, alegando que havia tomado a bebida para se aquecer.

O reserva Sérgio criticou o colega: "Se eu fosse jogador de linha e o goleiro fizesse isso, e depois tivesse que jogar lá, as coisas não iriam bem. Quem vê do outro lado se sente menosprezado". Felipão tinha uma opinião diferente: "Por um aspecto mostra a sinceridade do Marcos, o menino que ele ainda é".

No jogo de volta, derrota palmeirense por 4 a 2 para a equipe boliviana, Marcos teve que aguentar a provocação boliviana, com jogadores fazendo gestos de beber uma xícara de café ao comemorar os gols.

Mata-mata do Palmeiras e o vice da Libertadores 2000

Nas oitavas, após derrota por 2 a 0 para o Peñarol no Uruguai, Felipão chegou a afirmar que estava "tudo armado para o Palmeiras não vencer a Libertadores pela segunda vez seguida". No jogo de volta, o time passou nos pênaltis após vencer por 3 a 1. Nas quartas de final, vitória fora de casa por 2 a 0 contra o Atlas. Na volta, os mexicanos jogaram melhor e o goleiro Marcos precisou fazer grandes defesas para evitar a eliminação. "O que valeu foi a classificação", afirmou o meia Alex após a suada vitória por 3 a 2.

Depois foi a vez do clássico com o Corinthians nas semifinais, com duas partidas no Morumbi. Na primeira, o Palmeiras chegou a estar perdendo por 3 a 1, mas chegou ao empate. O gol da vitória corintiana veio nos acréscimos, aos 46 minutos: 4 a 3 foi o placar fnial. No segundo jogo, o alviverde saiu à frente mas levou a virada. A equipe não desistiu e virou novamente o placar: 3 a 2. Nos pênaltis, Marcos defendeu cobrança de Marcelinho Carioca.

A grande final foi disputada contra o Boca Juniors, que no jogo de ida esteve à frente no placar em duas ocasiões, forçando o Palmeiras a buscar o resultado: 2 a 2. O jogo de volta no Morumbi acabou em 0 a 0. Sem critério de gols marcados fora, a decisão foi para os pênaltis. Asprilla e Roque Junior desperdiçaram as cobranças e o título ficou com a equipe argentina. Desde então, o Palmeiras ainda não conseguiu retornar a uma final de Libertadores.  

Os títulos do Palmeiras na Era Parmalat

A parceria entre Palmeiras e Parmalat foi assinada em 7 de abril de 1992, com um contrato de co-gestão até então inédito no futebol brasileiro. A repercussão foi tamanha que até mesmo o tradicional uniforme do clube foi mudado, ganhando listras verticais. Ao todo, onze  títulos importantes foram conquistados pelo alviverde ao longo da parceria.

Logo no início, vieram os bicampeonatos Paulista e Brasileiro, em 1993 e 1994. À época, o Palmeiras enfrentava um jejum de 17 anos sem vencer o estadual e 20 anos sem levar o nacional. Em 1993, o time também conquista o Torneio Rio-São Paulo, com o time reserva.

Em 1996, outra campanha histórica: com 92% de aproveitamento e 102 gols marcados em 30 jogos, o Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo foi campeão paulista. No mesmo ano, chegou à final da Copa do Brasil e perdeu para o Cruzeiro. O time integrou o pelotão de frente do Brasileirão naquele ano, mas acabou derrotado pelo Grêmio de Luiz Felipe Scolari, que seria campeão, nas quartas de final.

Em dezembro de 1996, foi anunciada a contratação de Telê Santana, que não chegou a assumir, de fato, o cargo de técnico. Despediu-se do clube em abril do ano seguinte, enquanto ainda se recuperava de uma isquemia cerebral. Em junho de 1997, veio a primeira contratação de Felipão pelo Palmeiras. Em sua primeira final de Brasileirão pelo clube, acabou levando a pior contra o Vasco da Gama.

Em maio de 1998, sagrou-se campeão da Copa do Brasil sobre o Cruzeiro. Em dezembro, foi a vez de vencer a Copa Mercosul diante do mesmo adversário.

Em 16 de junho de 1999 veio a principal conquista da Era Parmalat: a Libertadores da América, nos pênaltis, sobre o Deportivo Cali, da Colômbia. Em dezembro daquele mesmo ano o elenco passaria por mudanças importantes.

Além do vice da Libertadores, o Palmeiras começou 2000 com presença na semifinal do Paulistão (perdeu para o Santos) e com os títulos do Rio-São Paulo e da Copa dos Campeões, seus últimos títulos com a parceria. No Campeonato Brasileiro, foi eliminado pelo surpreendente São Caetano nas quartas de final.

Em 20 de dezembro, onze dias antes do fim do contrato com a Parmalat, o time sofreu uma virada história na final da Copa Mercosul. Terminou o 1º tempo vencendo o Vasco por 3 a 0, no Parque Antártica. Romário, com três gols, e Juninho Pernambucano, porém, decretaram a virada e mais um vice alviverde.

Pós-Parmalat: reencontro com Boca Juniors na Libertadores e rebaixamento

Logo após a saída da Parmalat, o Palmeiras ainda conseguiu fazer uma boa campanha na Libertadores de 2001. O time teve a 2ª melhor pontuação da fase de grupos e superou São Caetano e Cruzeiro no mata-mata, antes de se reencontrar com o Boca Juniors, desta vez nas semifinais. Após dois empates por 2 a 2, derrota nos pênaltis.

Já no segundo semestre, a equipe caiu de rendimento. Houve eliminações na 1ª fase da Copa Mercosul e uma campanha irregular no Brasileirão, com a 12ª colocação. Em 2002, a situação piorou. Sem o mesmo investimento dos anos anteriores e com boa dose de desorganização, o time foi eliminado logo na 1ª fase da Copa do Brasil pelo ASA de Arapiraca. Meses depois, acabou rebaixado no Brasileirão de forma inédita ao lado de Botafogo e Portuguesa.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.