Valeria Gonçalvez/Estadão
Valeria Gonçalvez/Estadão

Palmeirense de 82 anos relembra as nove taças e sonha com a décima

Emydgio Scuarcialupi, de 82 anos, revive com orgulho os títulos do passado e se emociona com as memórias

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

25 de novembro de 2018 | 05h00

Mesmo com 82 anos e cabelos brancos que impõem respeito, Emygdio não gosta de ser chamado de senhor. Prefere "você". É como se todos fossem seus amigos ou conhecidos. É assim que ele também define a sua própria torcida, a do Palmeiras. Mas isso não é de hoje. Emydgio tem uma história de vida que se mistura à do clube. Nascido em 22 de março de 1936, esse advogado viu todas as nove conquistas de campeonatos brasileiros do alviverde. 

Algumas ele ouviu pelo rádio, outras estava nos estádios, no velho Parque Antártica, no Pacaembu e no Morumbi, e as mais recentes pela TV. A memória de Emygdio Scuarcialupi vai e vem pelas alegrias e não falha. Reviver os títulos é uma forma de ser campeão de novo, 18, 27 vezes, até onde mandar a enjoada tabuada do nove. Orgulho. 

A moldura das lembranças é sua própria história. Em 1950, aos 14 anos, colocou na cabeça que queria ser sócio do clube. Como seu pai havia morrido, ele não tinha um responsável oficial. O ex-presidente Delphino Facchina assumiu o papel de "pai" e assinou tudo. Nos anos 1960, época de ouro da Primeira Academia e de quatro títulos nacionais, ele estava entrando na faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Era a sua academia. "A conquista do Paulista de 1959 foi tão importante quanto à do Brasileiro do ano seguinte. Foi uma vitória em cima do Santos de Pelé", recorda-se.

O filho de italianos sabe de cor a escalação da Segunda Academia, bicampeã em 1973 e 1974. Ele diz como se declamasse um poema – "Leão; Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu, Leivinha, César Maluco e Nei". Fala com as mãos grudadas na poltrona da sala de sua casa, na zona sul de São Paulo, e argumenta que o Palmeiras cedeu seis atletas para a Copa de 1974. Uma seleção. Literalmente. 

Ele acha que os times de 1993 e 1994 foram "maravilhosos", mas não se comparam aos da Academia. E lembra com carinho da taça de 2016, a primeira que os netos acompanharam. 

Na parte de trás da casa (verde, mas só por coincidência), ele mostra o seu lugar preferido: churrasqueira e uma sala com o brasão da família e as camisas históricas. Na hora da foto, ele pinça uma camisa sem patrocinadores. Emygdio é simpático, falante e arrisca até alguns chutes na bola que o neto, Heitor, deixou no quintal. 

Diariamente, ele vai até o escritório na rua Benjamin Constant, centro de São Paulo. Com 50 anos de carreira, consegue transitar por todas as áreas do Direito. Em casa, gosta de zapear com o controle da TV nos jogos e mesas redondas. Ele também escreve e entrega ao Estado uma folha de sulfite com uma frase escrita à mão. "O futebol é o mais belo e emocionante esporte coletivo. "Lamentavelmente, porém, nele participam brutamontes, trogloditas e mastodontes", diz. É verdade esse bilhete. 

Para a foto, ele chama a mulher Lucia. Um casamento de 47 anos e outro de nove títulos (quase dez). Conversa no sofá macio. Café. A cadela Chiara quer atenção. Lembranças. Ontem junto com hoje. Abraço. Não dá mesmo para chamá-lo de senhor. 

 

 

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