César Greco / Ag. Palmeiras
Valdenílson, atacante do sub-20 do Palmeiras, faz treinamento físico no clube César Greco / Ag. Palmeiras

Pandemia causa incerteza entre jogadores nas categorias de base

CBF quer organizar torneios das categorias inferiores neste ano, mas clubes são pessimistas e atletas mostram ansiedade

Guilherme Amaro, Raul Vitor, O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2020 | 16h00

Enquanto os campeonatos profissionais começam a ser retomados pelo Brasil, os torneios de base ainda estão longe de ser definidos. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) informou ao Estadão que pretende realizar todas as competições inferiores, estendendo-se para o calendário do ano que vem, assim como acontecerá com o Brasileirão. Clubes ouvidos pela reportagem, porém, não acreditam que seja possível a organização dos jogos por causa do investimento em testes para coronavírus e outras medidas contra a pandemia.

Sem atividades presenciais, os jovens jogadores recebem treinos via internet dos clubes. Alguns garotos relatam a ansiedade causada pela indefinição sobre o futuro da carreira e também com a suspensão de pagamentos dos times, que dizem estar respaldados pela lei e aguardam decisão das entidades responsáveis pela organização dos campeonatos e da Saúde para marcar data viável a fim de retomar o trabalho nas base. Neste momento, está tudo parado.

O atacante Valdenilson, sub-20 do Palmeiras, aproveitou a paralisação para acompanhar o nascimento do filho, Brayan Miguel. Ele viajou ao Maranhão e, no dia 29 de junho, viu sua mulher Fabíola, na mesa de parto.

“Fiquei com bastante medo de um de nós pegar o vírus. Rezei, conversei com Deus para que não deixasse isso acontecer. Ela precisou de mim nessa quarentena e fiz de tudo para cuidar dela. E foi algo recíproco porque também tive o apoio dela nessa paralisação do futebol. Pensava: ‘se a pandemia não passar, como vou mostrar meu futebol?’. Isso ficava na minha cabeça por muito tempo, mas tive total apoio dela”, afirmou Valdenilson ao Estadão. Ele já retornou a São Paulo para ser avaliado nos treinamentos com o elenco principal do Palmeiras.

Também no grupo de apoio e por causa da retomada das atividades comandadas pelo técnico Vanderlei Luxemburgo com o time, o lateral-esquerdo angolano Ramiro não conseguiu ficar ao lado dos familiares durante a pandemia. Ele preferiu permanecer no Brasil e divide quarto de hotel com outro companheiro estrangeiro, o equatoriano Erick Pluas. Sua família vive em região pobre na cidade de Luanda e ele preferiu ficar.

“É um ano praticamente sem jogos, né? Isso atrapalha um pouco no desenvolvimento de qualquer atleta. A comissão técnica tem dado o melhor a nós em relação aos treinos, mas não temos a oportunidade de trabalhar conceitos técnicos e táticos na prática, já que não estamos reunidos nem no campo. Eu ainda tenho mais um ano no elenco sub-20 e estou otimista quanto ao retorno dos treinos presenciais e jogos da base ainda neste ano”, disse Ramiro.

APOIO PSICOLÓGICO

Não é apenas a parte física ou técnica que preocupa os clubes do Brasil em relação aos jovens da base. Os times estão atentos ao aspecto psicológico dos atletas neste momento de incerteza. Muitos oferecem apoio a distância.

Ex-técnico das categorias de base da seleção brasileira e atualmente no comando do sub-20 do Bahia, Carlos Amadeu destacou a importância de os jogadores receberem apoio psicológico por causa da covid-19 e da parada. Na visão dele, os mais afetados são os mais velhos, que estão perto de estourar o limite de idade da base.

“É um momento diferente, que exige muito cuidado e aprendizado. É natural que os atletas que estão no último ano sintam uma pressão psicológica maior. Criam-se dúvidas, incertezas e medos. Portanto, esse peso psicológico é inevitável. É por isso que os profissionais que trabalham com esses jovens devem ficar atentos. Aqui no Bahia nós procuramos saber as condições de cada um. Qualquer observação a mais nós passamos para o setor de psicologia do clube”, afirmou.

Duas perguntas para Valdenílson, atacante da base do Palmeiras

1. O que fez durante a pandemia do coronavírus?

Fiquei com minha família no Maranhão. Costumava acordar cedo para treinar, mas antes passava um café para todos na casa. Os treinos online com o sub-20 eram geralmente de manhã, mas também havia atividade à tarde em alguns dias. Costumava deixar a televisão ligada em canais de esporte, noticiários e também nas novelas à noite. Assistia também a filmes de ação no Netflix, vídeos no YouTube, jogava videogame online com meus amigos do Maranhão... Tudo para passar a hora mais rápido.

2. Como você avalia a importância da família nesse momento?

Todos os familiares me aconselharam bastante, não me deixaram desanimar com essa situação. Tenho o sonho de um dia trazê-los para São Paulo e dar uma vida melhor para todos eles.

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Equipes sub-20 podem ter jogadores de 21 anos nos próximos torneios

CBF, entidades regionais e clubes analisam a medida que a Fifa tomou para os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021

Guilherme Amaro, Raul Vitor, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 16h15

A CBF e as entidades estaduais conversam com o clubes para decidir o futuro dos campeonatos das categorias de base. Uma das sugestões analisadas é aumentar o limite de idade na categoria sub-20, a última antes do profissional, permitindo que atletas que completarem 21 anos possam disputar torneios.

A Fifa adotou essa medida para os Jogos Olímpicos de Tóquio, remarcados para 2021, com aval do COI. Os jogadores elegíveis para o torneio sub-23 que seria realizado neste ano poderão atuar no Japão no ano que vem, agora com 24 anos.

O técnico sub-20 do Palmeiras, Wesley Carvalho, é entusiasta da mudança de idade. Para ele, seria um modo de evitar frustração nos garotos que poderiam ser impedidos de disputar os torneios de base por terem estourado a idade.

“Se as federações e a CBF entenderem desta forma, seria uma boa chance de reparação aos danos que esses atletas terão neste período”, disse, em entrevista ao Estadão. “Os jogadores mais velhos tiveram um pouco de frustração. Na cabeça deles, seria a última chance de aparecer para oportunidade no profissional ou ser visto no cenário nacional”, acrescentou.

Wesley Carvalho também analisou o prejuízo que a pandemia tem causado para os atletas de base. O treinador disse que a perda de um ano influencia negativamente na formação desses jovens jogadores.

“A maioria dos profissionais já está formado como atleta e os de base estão a todo vapor no aprendizado. Eles adquirem maturidade de acordo com as experiências vividas em treinos e jogos, sejam mata-matas ou clássicos. São elementos que eles vão levar para a carreira toda e que serão decisivos na hora da transição”, destacou.

OUTRA CATEGORIA

Há clubes que contam com times sub-23, um acima do sub-20. Essa nova categoria foi criada nas últimas temporadas por diversos clubes justamente para não perder atletas que estouram o limite da idade para jogar na base sem receber chance no profissional.

É o caso do Ceará. Presidente do clube, Robinson de Castro não vê necessidade de mudar a idade. “No nosso caso, como temos o time sub-23, se o atleta não conseguir mais jogar no sub-20, ele sobe para o sub-23”, comentou o dirigente.

Outros clubes ouvidos pela reportagem, mesmo os que contam com elencos sub-23, avaliam como positivo aumentar o limite para os atletas poderem disputar torneios sub-20. Além dos Estaduais, os torneios sub-20 nacionais são Copa do Brasil e Brasileirão.

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Empresários acusam clubes de descaso com os jogadores das categorias de base

Segundo agentes, até times grandes deixaram de pagar ajuda de custo para os jovens atletas

Guilherme Amaro, Raul Vitor, O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2020 | 16h32

Empresários que cuidam da carreira de jogadores da base ouvidos pelo Estadão alegaram que muitos clubes não deram a assistência necessária para os garotos durante o período de paralisação de treinos e jogos, que ainda não acabou. Os times enfrentam crise financeira agravada pela pandemia do coronavírus. Os relatos vão desde clubes do interior dos Estados até os que compõem a elite nacional.

Os três agentes preferiram não ser identificados nesta reportagem. Temem pelos seus clientes. O discurso deles foi semelhante: sem apoio dos clubes, sobram para familiares e empresários se preocuparem com a formação dos jovens nos meses de paralisação e da crise.

Jogadores que ainda não têm contrato profissional recebem ajuda de custo. Em muitos casos, esse auxílio financeiro foi deixado de pagar, principalmente em outras modalidades, como futsal, basquete e vôlei.

“O clube para de pagar e o jogador vai fazer o quê? Não tem o que fazer nesses casos. Os principais destaques continuam recebendo, mas os atletas que ainda não estouraram pararam de receber”, disse um empresário.

Além dos jogadores, demais funcionários da base também têm sido afetados. Os clubes, amparados na Medida Provisória (MP) 936/20, suspenderam contratos e reduziram salários. As categorias inferiores foram as mais atingidas pelos cortes.

Até mesmo o Flamengo, clube que mais arrecadou no último ano, demitiu funcionários, começando pelas categorias de base. Durante a pandemia, profissionais que cuidavam dos alojamentos dos jogadores da base ficaram sem função. Treinadores, auxiliares e outros funcionários das comissões técnicas das divisões inferiores também foram cortados.

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