Agustin Marcarian/Reuters
Agustin Marcarian/Reuters

Pandemia deixa times argentinos inseguros para virem ao Brasil jogar a Libertadores

Para infectologista, o ideal seria evitar o risco e não receber no País equipes estrangeiras enquanto situação não melhorar

Raul Vitor, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2020 | 10h53

Os números de casos do novo coronavírus no Brasil têm preocupado nos clubes da Argentina. Isso porque, com a volta da Copa Libertadores, marcada para o dia 15 de setembro, três dos cinco representantes do país que disputam o torneio terão pela frente adversários brasileiros e até mesmo um médico influente na nação vizinha manifestaram publicamente que o ideal seria não permitir a viagem dos jogadores ao Brasil.

Quem se posicionou de maneira contundente foi o infectologista Pedro Cahn, membro do comitê médico de combate à covid-19 da Argentina. "Se eu fosse presidente de clube, no momento atual, não iria jogar no Brasil. Isso é uma opinião pessoal. Pode mudar, é uma situação muito dinâmica, pode mudar em duas semanas. Mas, hoje, me parece utópico", revelou o infectologista, em entrevista à TV argentina ao TyC Sports.

De acordo com Alexandre Naime, professor de infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro titular da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) a alegação do médico argentino não é exagerada. Viagens internacionais para países que possuem uma alta transmissibilidade da covid-19 expõem os atletas a riscos.

"O Brasil é um país em que a transmissão do vírus não é homogênea. Há lugares em que ela está caindo e em muitos outros ela está aumentando. Expor os jogadores em aeroportos, em hotéis, em lugares onde possa ter aglomeração com os próprios atletas brasileiros, que talvez tenham mais contato com o vírus pela alta transmissibilidade, é, sim, algo preocupante", avaliou Naime.

De acordo com o infectologista brasileiro, por mais que os jogadores tenham um bom condicionamento físico e estejam com a saúde em dia, eles não estão livres da possível evolução de um quadro mais grave da doença. Segundo Naime, é por isso que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) teria levado os atletas do país para treinar em Portugal, onde a transmissibilidade do vírus é menor.

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Mesmo que seja raro, infelizmente existem chances do vírus evoluir (nos atletas) para um quadro mais grave. Ou seja, não é recomendável que você mande atletas para países onde há alta transmissibilidade
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Alexandre Naime, infectologista

"Mesmo que seja raro, infelizmente existem chances do vírus evoluir (nos atletas) para um quadro mais grave. Ou seja, não é recomendável que você mande atletas para países onde há alta transmissibilidade. Tanto que o COB enviou nossos atletas para treinarem em Portugal, onde a transmissão do vírus é baixa", explicou Naime.

Apenas um jogador brasileiro atua no futebol argentino: o atacante Guilherme Parede. Ele passou por Coritiba e Internacional, mas agora defende o Talleres, clube da cidade de Córdoba, que eliminou o São Paulo na Pré-Libertadores do ano passado. Para ele, a demora para o futebol ser restabelecido na Argentina não é um problema. Segundo o jogador é importante que ele seja restabelecido, mas somente quando o governo der o aval para que isso aconteça.

"É ruim ficar sem jogar, mas temos que entender que a situação da pandemia é complicada. O futebol está voltando no Brasil, assim como em outros países. É importante que também volte na Argentina, mas cada país tem sua lei e cada governo lida com isso da sua maneira. Estou em um país que não é o meu, então, só tenho que respeitar e entender a situação. Se Deus quiser logo tudo isso vai passar e o futebol irá voltar. Caso não volte, paciência. Temos que entender que é uma situação delicada para todo mundo", disse Parede.

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É ruim ficar sem jogar, mas temos que entender que a situação da pandemia é complicada. O futebol está voltando no Brasil, assim como em outros países. É importante que também volte na Argentina
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Guilherme Parede, Atacante do Talleres

No entanto, o jogador afirma que a situação fez com que ele cogitasse voltar ao Brasil. Por mais que os números da covid-19 assustem, Parede não teme retornar aos gramados de seu país. Sua mulher está grávida e manter-se perto de sua família seria bom, no momento.

"Não teria medo (de voltar ao Brasil). Até porque, se o futebol não voltar na Argentina eu não posso ficar sem jogar. Tenho que estar apto para desempenhar meu futebol e permanecer ativo, que é o mais importante. Se (o futebol) não voltar (na Argentina) tenho que conversar com o clube, que é detentor dos meus direitos, e ver quais são as possibilidades para voltar ao Brasil", explicou o jogador.

O River Plate será o primeiro time argentino a pisar em solo brasileiro. A equipe de Buenos Aires enfrentará o São Paulo, no estádio do Morumbi, no dia 17 de setembro. O Estadão tentou entrar em contato com o clube, para saber se o receio de viajar para o Brasil era, de fato, real. Contudo, eles preferiram não falar sobre o tema.

Nesta semana, a Conmebol iniciou uma série de reuniões para apresentar aos agentes envolvidos na realização da Libertadores as medidas de prevenção à covid-19, previstas no "Protocolo de Operações para Reinício de Competições de Clube". A Libertadores será retomada no dia 15 de setembro e a Sul-Americana, em 27 de outubro. 

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