Wolfgang Rattay/ Reuters
Wolfgang Rattay/ Reuters

Pandemia representa uma ameaça existencial até mesmo para os grandes times da Europa

Perspectiva de jogar a portas fechadas no restante do ano causará um enorme impacto sobre todos os clubes

Rory Smith, The New York Times

27 de maio de 2020 | 15h10

A língua alemã tem uma palavra para isto: Grössenwahn. O que equivale, aproximadamente, a megalomania, mas talvez arrogância seja melhor. A palavra em alemão se refere a uma supervalorização das suas habilidades, ilusões de grandeza. Este é o termo que Oliver Voigt usou ao descrever a sorte e a queda do Kaiserslauten, time alemão da terceira divisão que ele agora está encarregado de reformular e restaurar para algo semelhante ao que a equipe foi outrora, num momento precário para o esporte, e com uma margem de erro ainda menor.

O Kaiserslautern não é um clube acostumado a tais circunstâncias reduzidas. Tradicionalmente é um dos grandes clubes da Alemanha. Em 1998 foi campeão da Bundesliga e um ano depois chegou às quartas de final da Liga dos Campeões. Seu estádio foi usado para jogos da Copa do Mundo de 2006. Ele abriga 50 mil pessoas e leva o nome de Fritz Walter, o capitão da equipe da Alemanha Ocidental que venceu a Copa do Mundo de 1954.

Cinco jogadores do Kaiserslautern da época estavam na equipe vitoriosa. “Essa vitória trouxe dignidade para uma nação inteira depois da guerra”, afirmou Voigt. ‘Conquistar a Copa deu uma identidade para a Alemanha e cinco jogadores da equipe eram deste clube. O Kaiserslautern era um clube no centro das emoções dos alemães”.

Gerações de alemães viam o clube como um equivalente ao Bayern de Munique, o Borussia Dortmund e o restante dos grandes clubes do país. Hoje, contudo, ele está “de joelhos”. O clube passou a maior parte da década na segunda divisão. Em 2018, pela primeira vez na sua história, caiu para a terceira (antes de a temporada atual ser suspensa, estava no meio da tabela). “Há uma resposta simples para o que aconteceu”, disse Voigt, que foi recrutado no final do ano passado para ser diretor executivo do clube. “Se você gasta mais do que ganha, se age como se fosse o maior, você acaba como o Kaiserslautern”.

O Kaiserslautern é um exemplo extremo, mas não é o único. Nas duas últimas décadas uma onda se abateu sobre o futebol europeu, mudando drasticamente o panorama do futebol. Clubes poderosos caíram do seu pedestal, capturados por uma classe de equipes insurgentes movidas por dinheiro e ambição, sem preocupação com a história. Isto ocorreu na Inglaterra, no caso do Leeds United, o Nottingham Forest e o Aston Villa. E na Espanha, com o Deportivo de La Coruña, Racing de Santander e o Real Zaragoza. Como também na Itália, com o Torino, o Sampdoria e o Gênova; na França, com o Marseille e Bordeaux.

Houve outros times também que chegaram perto de cair no abismo, grandes nomes que vinham marcando passo por um tempo longo demais, caso do West Ham e do Newcastle, talvez, ou o Fiorentina, ou mesmo o AC Milan. Todos se viram presos na mesma armadilha: primeiro foram passados para trás financeiramente pelas superpotências do jogo, e depois ficaram na esteira dos clubes jovens, inteligentes e ágeis, - não só times como o RB Leipzig, o Manchester City e, a nível europeu, o Paris St. Germain, produtos e embaixadores de conglomerados corporativos, ou de Estados-nação, mas também outros como o Wolves, Atalanta, Sassuolo e Elbar.

Foi na Alemanha, contudo, que isto ficou mais claro. O Kaiserslautern se juntou na terceira divisão ao Munique 1860; na temporada seguinte o Karlsruhe também estava lá. A segunda Bundesliga abrangeu o Stuttgart e o Hamburg, emissários das duas maiores cidades alemãs e ex-campeões. Werder Bremen, campeão alemão em 2004, caiu na divisão na temporada seguinte.

A pandemia de coronavírus representa uma ameaça existencial até mesmo para os grandes times da Europa, aqueles que se consideram grandes demais para fracassar. Como afirmou Heinz Rummenigge, chairman do Bayern de Munique, já há uma crise. Não jogar a temporada, que foi retomada em 16 de maio, e ser obrigado a devolver dinheiro para as emissoras que transmitem os jogos será um desastre.

A perspectiva de jogar a portas fechadas no restante do ano, causará um enorme impacto sobre todos, disse ele. A perda de receita dos ingressos, do entretenimento e o merchandising corporativo, é “algo que preocupa todo mundo e mais ainda os grandes clubes”. O risco é de que os clubes não se adaptem como deveriam a essa nova realidade, e continuarão a gastar mais do que ganham, achar que são maiores do que se tornaram e sucumbirem à tentação da megalomania. Como os gigantes caídos comprovam, quando as circunstâncias diminuem, a pressão para ser bem sucedido nem sempre tem uma resposta e quando ela ocorre isto não é de imediato, às vezes nem ocorre.

“Se vencermos um jogo, a suposição é de que seremos promovidos”, disse Voight. “Se vencermos alguns jogos as pessoas falarão sobre a Bundesliga. Há uma forte pressão sobre o clube. É natural. À parte os nossos fãs mais jovens, todos no estádio viram este time conquistar um título. Para eles onde estamos hoje parece irreal”. Essa pressão conduz a uma espiral de soluções rápidas e reações irrefletidas. Managers, diretores e ideias vão e vêm, sem se chegar a nenhuma conclusão ou oferecer uma chance real de sucesso.

“A equipe tem visto muita mudança”, disse Thomas Hizlsperger, que foi jogador do Stuttgart e agora, aos 38 anos, é diretor executivo deste clube. “Não tem havido consistência. É o único clube de uma cidade grande. Os torcedores ficam frustrados rapidamente. Temos a Bosch, a Porsche e a Daimler aqui. Eles esperam ver o melhor. O clube não tem paciência para montar um plano e executá-lo”.

Ao mesmo tempo aumenta uma resistência a novas maneiras de pensar, uma tendência a ficar deitado sobre os louros da tradição. Hitzlperger observou, mesmo antes de se tornar diretor executivo, como Stuttgart era “lenta”; ele convenceu a direção do clube a lhe dar o controle prometendo ajudar o time a se tornar mais moderno. Em entrevista, disse como o Stuttgart ainda “se orgulharia da sua história”, mas tinha de aprender a ser um “time do século 21”.

O contraste óbvio neste caso é com o Leipzig e o Hoffenheim - dois clubes criados nas últimas duas décadas e cuja identidade tem a ver com modernidade. Mas eles não são as únicas bases de referência para a classe média alta que vem esvanecendo na Alemanha. “Mainz e Freiburg não são clubes com grande status, mas são regulares na Bundesliga”, disse Jonas Boldt, diretor esportivo do, talvez, maior exemplo de uma potência que desabou dentro do futebol europeu, o Hamburgo.

Lendário Dino do futebol alemão - assim chamado porque nunca foi relegado e foi campeão da Europa, o Hamburgo acabou despencando na lista dos maiores da Alemanha em 2018. Seu rebaixamento pode servir como o momento em que a nova ordem finalmente derrubou a velha, e a tradicional classe média do futebol europeu deu lugar a uma geração mais jovem de times e também de ideias.

Seu declínio, aos olhos de Boldt, foi a conclusão não apenas de um “círculo vicioso” de decisões erradas, mas também um sinal de que clube ficou tranquilo demais consigo mesmo, contente em olhar com sentimentalismo o que costumava ser. “Tradição e paixão são importantes. Mas você tem de trabalhar profissionalmente e tentar desenvolver alguma coisa”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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