Gustavo Aleixo/Cruzeiro
Estádios vazios por causa da pandemia têm prejudicado as finanças dos clubes Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Estádios vazios por causa da pandemia têm prejudicado as finanças dos clubes Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Pandemia vai fazer clubes brasileiros perderem até 46% das receitas em 2020

Estudo projeta importantes reduções nas finanças das equipes principalmente por causa de falta de bilheteria e redução de patrocínio

Ciro Campos , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Estádios vazios por causa da pandemia têm prejudicado as finanças dos clubes Gustavo Aleixo/Cruzeiro

O ano de 2020 se aproxima do fim e os clubes brasileiros, aos poucos, começam a ter noção mais consolidada do grande prejuízo gerado pela pandemia do novo coronavírus. Foi uma temporada desafiadora para todos. A diminuição dos valores dos contratos de televisão, a falta de público nos estádios e a ausência dos patrocinadores devem levar as principais equipes do País a registraram receitas até 46% menores em relação a 2019. Os dados são de uma projeção feita pela consultoria Sports Value, especializada em finanças e balanços de clubes.

O estudo mostra que, em média, os clubes brasileiros vão perder entre 29% e 37% das receitas neste ano. Os dois times que mais devem ser atingidos pela queda serão Cruzeiro e Santos. Ambos devem ter diminuição de 46%. Para o responsável pela pesquisa, Amir Somoggi, os números são reflexo de uma política financeira em que as equipes dependem quase exclusivamente de poucas fontes financeiras para sobreviver.

"O impacto poderia ser menor para as equipes, talvez na casa dos 18% a 20% de redução. Os clubes poderiam ter trabalhado em outras frentes. Quase 80% do sustento das equipes depende de patrocínio, cotas de televisão e venda de jogadores. Justamente essas receitas são as que mais sofreram o impacto da pandemia", explicou Somoggi ao Estadão. Para produzir o estudo, ele acompanhou os balanços periódicos das equipes.

Cruzeiro e Santos aparecem na frente dos demais por razões diferentes. O time mineiro vive uma grave crise financeira desde o ano passado e amargou nesta campanha grande redução da receita por causa do rebaixamento à Série B do Campeonato Brasileiro. No caso do Santos, uma das causas é o fato de o ano de 2019 ter sido muito positivo nas finanças graças à venda de jogadores. Por isso, o cenário comparativo apresenta grande queda.

Aliás, a verba com transferências foi a responsável por diminuir os elevados prejuízos. O estudo mostra que Flamengo, Grêmio e Corinthians compensaram algumas perdas grandes causadas pela pandemia. O time carioca, por exemplo, fez dinheiro com as saídas principalmente de Reinier (R$ 186 milhões) e Léo Duarte (R$ 62 milhões). A equipe gaúcha conseguiu negociar Everton Cebolinha com o Benfica por R$ 128 milhões. O mesmo time português pagou cerca de R$ 131 milhões por Pedrinho, do Corinthians.

Por causa da negociação por Pedrinho, o Corinthians é quem apresenta a menor queda de receita do estudo, com somente 4%. Outra causa para isso é o fato de o clube ter apresentado em 2019 um resultado péssimo, com o déficit de R$ 177 milhões. "O impacto com a venda de jogadores neutralizou a questão econômica em algumas equipes. Os clubes não vivem mais a época de que tudo está ótimo. A dúvida agora é como sair do buraco. É preciso ser criativo para conseguir reagir", afirmou Somoggi.

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O impacto com a venda de jogadores neutralizou a questão econômica em algumas equipes. Os clubes não vivem mais a época de que tudo está ótimo. A dúvida agora é como sair do buraco. É preciso ser criativo para conseguir reagir
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Amir Somoggi, Diretor da Sports Value

O especialista recomenda que as equipes possam apostar em produtos digitais para conseguir impactar mais o torcedor. Pela estimativa de Somoggi, a participação do torcedor nas receitas das equipes está restrita a somente 20% do total. O ideal era elevar esse percentual para entre 35% e 40%. A maior fatia ainda é dependente de cotas de TV, patrocínio e venda de atletas.

Um aspecto curioso da pesquisa é que os clubes que possuem como ponto forte as arenas sofreram bastante. Os principais exemplos são Athletico-PR e Palmeiras, que pela projeção do especialista terá um déficit de R$ 130 milhões nesta temporada. "O Palmeiras é o clube que mais depende do estádio para fechar o orçamento. A arena nova e a torcida engajada contribuem para isso. Mas na prática a equipe não tem conseguido cortar todos os custos", explicou.

SANTOS E CRUZEIRO

Os dois times com os piores números apresentados pela pesquisa da Sports Value admitem estar preocupados com a situação. O novo presidente do Santos, Andrés Rueda, disse ao Estadão na última semana que tem um plano para melhorar as finanças do clube da Vila Belmiro. No último sábado ele ganhou a eleição e ficará no cargo até dezembro de 2023.

"Precisamos acertar despesas ordinárias com receitas ordinárias. Teremos de fazer ajustes, gastar apenas o que temos de receitas correntes. Renegociar prazos e redução de juros com os credores. Mostrar credibilidade ao mercado destinando parte da receita extraordinária para abater as dívidas. Aos poucos, a gente vai colocando a casa em ordem", disse o dirigente santista.

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Precisamos acertar despesas ordinárias com receitas ordinárias. Teremos de fazer ajustes, gastar apenas o que temos de receitas correntes. Renegociar prazos e redução de juros com os credores. Mostrar credibilidade ao mercado destinando parte da receita extraordinária para abater as dívidas. Aos poucos, a gente vai colocando a casa em ordem
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Andrés Rueda, Presidente do Santos

O diretor financeiro do Cruzeiro, Matheus Rocha, explicou que o clube tem estudado diversas ações para atrair mais recursos. Uma das propostas recentes foi criar um fundo de investimentos. "Estamos fazendo um experimento e temos no nosso radar outras formas de captações também", contou.

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Chip, concurso de camisa e lojas virtuais: como os clubes inovaram para 'salvar' o sócio-torcedor

Times brasileiros se desdobram durante pandemia para manter a contribuição do público, que ainda não pode ir aos jogos

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 14h34

Os clubes brasileiros tiveram de ser criativos nos últimos meses para manterem de pé os programas de sócio-torcedor. Com os estádios fechados por causa da pandemia do novo coronavírus e sem receitas com bilheteria, as diretorias apostaram em soluções variadas para não perderem a contribuição mensal dos participantes. Em vez de descontos em ingressos, chip de celular, promoções em lojas virtuais e até concurso para lançamento de camisa foram algumas das soluções.

Segundo estimativas de especialistas em marketing esportivo, o sócio-torcedor chega a representar até 15% do faturamento dos clubes. A quantidade de participantes dos programas teve quedas acentuadas nesta temporada porque uma das principais motivações para contribuir deixou de existir com a pandemia. As partidas com portões fechados desanimaram quem procura participar de olho apenas em descontos e prioridade na compra de ingressos. Portanto, restou aos clubes mostrar que ser sócio-torcedor traz outras vantagens.

No Grêmio, a proposta foi reforçar o comércio virtual. Quem mantivesse os pagamentos do sócio-torcedor em dia, teria descontos em dobro na loja do clube na internet. "O clube teve nesse ano uma queda de receita no sócio-torcedor de somente 15% pela nossa projeção. Mas conseguimos aumentar em sete vezes o volume de vendas na loja virtual em relação ao ano passado", disse ao Estadão o diretor de marketing do clube, Beto Carvalho.

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O clube teve nesse ano uma queda de receita no sócio-torcedor de somente 15% pela nossa projeção. Mas conseguimos aumentar em sete vezes o volume de vendas na loja virtual em relação ao ano passado
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Beto Carvalho, Diretor de marketing do Grêmio

A falta de jogos ainda faz falta, é claro. O Grêmio estima que em dia de jogos o clube chega a vender R$ 400 mil em produtos oficiais nas lojas da arena. Porém, além de estimular o comércio virtual, a diretoria montou um programa para que os descontos nos ingressos sejam aplicados futuramente, quando a presença de público for restabelecida.

O Cruzeiro teve a ideia de criar um fundo de investimento voltado ao sócio-torcedor. O objetivo é unir torcedores que querem emprestar dinheiro a quem quer pegar algum crédito. Só podem participar dessa modalidade participantes da categoria mais cara do sócio-torcedor, a Diamante, cuja mensalidade é de R$ 1 mil. Segundo o diretor financeiro do clube, Matheus Rocha, o objetivo é captar R$ 9 milhões em cotas de R$ 25 mil cada. 

"A pandemia deixa as pessoas mais distantes e o clube quer estreitar o relacionamento com o torcedor e fazer com que participem dessa vida financeira do clube", disse Rocha. "O fundo de investimento tem condições vantajosas. Estamos fazendo um experimento e temos no nosso radar outras formas de captações também", completou.

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A pandemia deixa as pessoas mais distantes e o clube quer estreitar o relacionamento com o torcedor e fazer com que participem dessa vida financeira do clube
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Matheus Rocha, Diretor financeiro do Cruzeiro

O rival do Cruzeiro, o Atlético-MG, conseguiu ganhar mais de 20 mil novos sócios meses atrás com um concurso em que os torcedores poderiam desenhar uma camisa especial do time. O Inter, por sua vez, organizou uma campanha para premiar quem permanecesse como sócio-torcedor. Os colorados receberam uma camisa especial e o nome escrito em um monumento na frente do Beira-Rio. Com isso, o clube gerou um aumento de 28% nas receitas em novembro.

O Palmeiras encontrou uma saída diferente. O clube prepara o lançamento da própria operadora oficial de celulares, a Alô Verdão. O intuito é conseguir elevar as receitas e também aumentar a quantidade de participantes do sócio-torcedor, o Avanti. Quem já for contribuinte do programa terá descontos especiais na compra do chip. "Queremos mostrar que participar do Palmeiras como integrante do Avanti vai bem além de só ir ao estádio. Agora trazemos um produto que vale no Brasil inteiro", comentou o diretor de marketing do clube, Roberto Trinas.

Depois de registrar uma queda de 40% no quadro de sócios, o Fortaleza divulgou uma promoção com desconto de 50% em todos os planos, desde que a assinatura seja anual. "Também entendemos o momento que a sociedade como um todo vive. O jogo de futebol é o carro-chefe, e sem ele, o torcedor tem suas prioridades dentro de casa. O desemprego e a redução do salário foi um fato em boa parte de nossa população este ano", disse o presidente do clube, Marcelo Paz.

SOLUÇÕES POSITIVAS

Para especialistas em marketing esportivo, os times de futebol conseguiram captar que o fanatismo da torcida não mudaria mesmo durante a pandemia e sem poder receber público nos estádios. "Acredito que os clubes tentaram manter essa ligação e buscaram diferentes formas de oferecer produtos e benefícios, mesmo cientes das dificuldades. De qualquer maneira, o desafio é constante, e aqueles que tiveram mais criatividade e manterem esse elo próximo, mais oferecendo do que recebendo, certamente colherá os frutos durante e após a pandemia", disse o professor da ESPM Marcelo Palaia.

Para André Monnerat, diretor de negócios da Feng Brasil, empresa especializada em programas de sócios e engajamento de fãs, os clubes procuraram encontrar alternativas que mexessem com a paixão do torcedor.  "Normalmente quem se interessa em ser sócio é alguém que vê seu clube como uma parte muito importante de sua própria identidade. As ações que funcionam melhor são aquelas que tocam este sentimento do torcedor, que mexem com símbolos importantes de sua paixão, que o fazem se sentir em uma ligação realmente especial com o clube e como parte de algo maior", acrescentou Monnerat. 

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