Pantera estréia na 2ª Divisão do Rio

Quase dez anos depois de marcar um gol histórico - o da vitória do Brasil sobre a Argentina, em pleno Monumental de Nuñez, em Buenos Aires -, o atacante Donizete, 36 anos, deixou a carreira vitoriosa e o orgulho de lado para se dedicar a um projeto delicado: tentar levar o modesto Macaé à Primeira Divisão do futebol do Rio. Ex-atleta de Botafogo, Vasco, Corinthians e Palmeiras, Donizete aceitou convite dos dirigentes do Macaé, clube que leva o nome da cidade do litoral norte do Rio, e assinou contrato por dois anos, e neste sábado estréia na Série B do Campeonato Carioca contra o Ceres Clube da Zona Oeste do Rio. No acordo, havia outros interesses. O Macaé vai ajudá-lo na criação de escolinhas de futebol - as panterinhas, numa referência ao apelido de Donizete, conhecido como pantera negra. Ele está tão encantado com a cidade que já faz planos mais arrojados: quer construir em Macaé um hotel e uma discoteca. "O carinho das pessoas daqui me cativou. Eu saio pelas ruas e só ouço elogios e pedidos para que volte a jogar pelo Vasco, pelo Botafogo." A opção por um clube sem tradição e de recursos limitados tem claras desvantagens. Donizete sabe disso. E cita a mais incômoda: ter de jogar em campos de várzea, esburacados, com vestiários precários, muitas vezes sem água. "Tenho atuado em ?estádios? que não possuem nem arquibancada e os torcedores ficam de pé, bem próximos da gente. O gramado às vezes não existe, parece asfalto." Para quem guarda no currículo títulos importantes, como o de campeão brasileiro pelo Botafogo em 1995, o da Taça Libertadores da América, em 1998, defendendo o Vasco, e o do Campeonato Paulista de 1997, pelo Corinthians, disputar a Segunda Divisão do Rio é uma prova de "superação", termo que ele mesmo repete para explicar a nova decisão. "De repente, eu volto a um grande clube para encerrar a carreira. É um baque jogar em estádio vazio. Mas não quero reclamar. O povo de Macaé é muito simpático." Donizete também fez sucesso no México, onde esteve de 1990 a 1995 como atleta do Universidad Guadalajara. Chegou a comprar um apartamento nessa cidade. E foi lá que nasceu seu filho mais velho, Bruno, de 13 anos, hoje um "meia talentoso" na escolinha do Flamengo. O outro é brasileiro: chama-se Renan, tem 9 anos e é atacante do infantil do Vasco. "Os garotos são bons de bola, seguiram o exemplo do pai." Além da alegria pelos títulos, Donizete não esconde a satisfação ao lembrar detalhes do confronto do Brasil com a Argentina, em 8 de novembro de 1995. Era apenas um amistoso, mas com a marca da rivalidade entre as duas seleções. Ele fez o único gol da partida, no primeiro tempo, e quebrou um tabu de 19 anos - longo período em que o Brasil não derrotava os argentinos na casa deles. No intervalo, enquanto desciam para o vestiário, os jogadores do Brasil tiveram de se esquivar de pilhas, rádios, chinelos, pedras. Foi quando então despontou novamente Donizete, o algoz daquela noite no Monumental de Nuñez. Ele estufou o peito, virou-se para a platéia e rebateu. "Aqui é o pantera negra, seus bocós. Vocês vão ter de aturar."

Agencia Estado,

02 de abril de 2005 | 08h55

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