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Papagaiada

Conmebol copia a Europa, com final em campo neutro, e esquece que está na América do Sul

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2018 | 04h00

Boas ideias não têm fronteiras tampouco nacionalidades – são bens comuns de todos e merecem ser copiadas. Mas há situações nas quais importar certos procedimentos soa mais para papagaiada do que sensatez. Como a iniciativa da Conmebol de determinar finais em jogo único, tanto para a Copa Libertadores como para a Copa Sul-Americana a partir de 2019. 

A entidade que dirige o futebol por estas bandas havia anunciado a mudança algum tempo atrás, porém ontem revelou que Santiago receberá o duelo decisivo da Libertadores, enquanto Lima hospedará a Sul-Americana. Dessa maneira, acreditam os dirigentes, será dado grande passo para o desenvolvimento do esporte na região. Haverá movimento turístico, promoção de cidades, integração de países, atração de publicidade e venda de direitos para o mundo todo.

Enfim, numa canetada Libertadores e Sul-Americana poderão equiparar-se à Uefa Champions League (a boa e velha Liga dos Campeões) e à Uefa Europa League, que serviram de modelo inspirador para a mudança. Num passe de mágica, nossos torneios darão espetacular salto de qualidade.

Mas América do Sul não é Europa – em todos os aspectos. E aqui não há nenhum sentimento de servilismo em relação à turma do Hemisfério Norte nem de desdém à nossa região. Trata-se só de constatação. Óbvia, por sinal. 

Nem começo pela tradição na forma de disputa, essa deixo para mais adiante. O primeiro ponto a levantar é a imensidão do continente e as formas de deslocamento para público e delegações. A malha aeroviária dos europeus é extensa, com dezenas (ou centenas, dependendo da cidade) de opções de ligação. Sem contar a facilidade – e o preço – dos voos charters. São frequentes os casos em que grupos de fãs saem de seu país no dia do jogo, vão para o estádio e voltam para casa de madrugada. É vapt-vupt, um pulinho logo ali...

As rodovias são excelentes, com sinalização padronizada aos parâmetros da Europa. A rede ferroviária continua imbatível, com diversos tipos de trens, dos rotineiros (muito bons) aos rápidos (excelentes). Também se pode sair num dia e voltar após a partida. Há, em alguns casos, ligação por mar. 

E aqui? Existem voos regulares para as duas localidades, desde que a partida seja de preferência de São Paulo ou Rio, com algumas exceções. Mesmo assim em poucos horários compatíveis para quem quer ver o jogo. Por carro e por trem, é possível também, se o sujeito tiver paciência, resistência física e uns 15 ou 20 dias para ir e voltar. 

Ou seja, para o torcedor comum é um sacrifício e tanto. Para as equipes também, embora nesses casos escolham voos fretados. Para a cartolagem não há grande transtorno; muitos dispõem de tempo de sobra. Para quem mora em Santiago e Lima, pode ser programa bom, se tiver ingressos.

Agora o que mais incomoda: a estocada fatal numa tradição de quase 60 anos, dos jogos de ida e volta, nas sedes dos finalistas. Sempre foi uma grande farra, momento único, ver o time apresentar-se em casa e eventualmente levantar a taça no próprio estádio. Alegria inesquecível.

Incomparável e com certo viés popular. O valor da entrada já não é muito acessível para a maioria; agora, com custos de viagem, hospedagem, alimentação será elitista. Só vai quem tiver grana sobrando. 

Nem tudo que funciona na Europa serve para a América do Sul. Por que não copiam segurança e conforto nos estádios, bons gramados, arbitragens de nível? Isso sim. Vão logo no mais difícil?! Não basta europeus pegarem nossos melhores jogadores; agora nos rendemos às peculiaridades dos torneios deles? Vão pasteurizar a Copa Libertadores como foi feito aqui com a São Silvestre desde que a transformaram num evento matutino e não no fecho de ouro do ano.

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