Ricardo Duarte/Divulgação
Ricardo Duarte/Divulgação

'Papito' Hellmann se respalda na história com o Inter para conduzir time

Ex-jogador da base e antigo auxiliar, treinador conduz time à reação no Campeonato Brasileiro

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2018 | 05h00

Para subir da Série B e entrar na briga pelo título da Série A neste ano, o Inter não fez nenhuma revolução. O clube gaúcho se tornou o azarão intrometido na lista dos candidatos à conquista do Nacional ao apostar em um técnico cria da casa. Odair Hellmann, 42 anos, fez o time renascer pelo trabalho e pela identificação com o elenco, que o chama carinhosamente de Papito.

O ex-volante vê a ligação com o clube como um dos principais fatores para o sucesso. Hellmann foi campeão pelo Inter da Copinha em 1998, e trilhou carreira nas categorias de base do clube e como auxiliar da seleção olímpica antes de ser efetivado, em novembro do ano passado.

"Tenho uma relação longa com o Internacional, desde a época de atleta. Minha história de vida está ligada ao clube. Passei pelas comissões de base também e desde 2013 estou no profissional. Isso ajuda no sentido de você conhecer os processos internos, o funcionamento do clube, as dinâmicas de trabalho", disse ao Estado.

A longa convivência dentro do Beira-Rio lhe possibilitou conhecer de perto vários dos atuais jogadores. Alguns admiram a carreira dele. "Estamos acostumados a pegar um treinador 'cascudo'. No caso do Odair, ele veio por baixo, da base, de outros cargos da comissão. Então, nos identificamos com ele", comentou o meia Edenilson.

Hellmann diz ter vivenciado o momento mais triste de sua vida quando encerrou a carreira de atleta. Em 2009, aos 32 anos, decidiu parar após ter sobrevivido ao trágico acidente de ônibus do time do Brasil de Pelotas. Três companheiros morreram. Na ocasião, o volante sofreu uma grave lesão nas costas.

O trabalho no futebol continuou, mas em outras funções. O auxiliar que virou interino e depois se tornou efetivo no Inter sonha em repetir a trajetória de Fábio Carille. O ex-corintiano passou por essas mesmas funções antes de, no ano passado, ganhar o título brasileiro.

"Sem dúvida, Carille fez um trabalho de referência, com um desempenho histórico. Conseguiu afirmar seus conceitos sobre uma base qualificada de grupo que já existia. Mas as comparações, acredito que devem ser feitas pelos analistas e especialistas", ressalta Hellmann.

Quem trabalha próximo ao técnico diz que ele se formou na carreira ao observar antigos colegas. "Ele construiu um modelo próprio de trabalho com base no que teve de melhor com Dorival Jr., Aguirre, Falcão e Argel. O Odair pinçou um pouco de cada um deles. Apesar de o time não ter ido bem no primeiro semestre, a sua manutenção foi um acerto", diz o diretor executivo, Rodrigo Caetano.

A boa campanha do Inter no Brasileiro (vice-líder, com 41 pontos) não deixou o treinador acomodado. Hellmann garante ser exigente. "Se trabalhamos bastante hoje, amanhã vamos trabalhar mais. A evolução precisa ser constante."

ENTREVISTA COM ODAIR HELLMANN...

Quais os principais segredos para o Inter estar com a boa campanha no Brasileiro?

Não acredito em receita pronta nem em segredo de sucesso no futebol. Acredito em metodologia de trabalho, conceito de futebol e comprometimento com o que é proposto. Se você consegue levar essas situações para o dia a dia e elas são bem assimiladas pelo grupo, o resultado chega, mais cedo ou mais tarde. E felizmente estamos conseguindo atingir os objetivos, gradualmente.

Após nas últimas temporadas o rival, Grêmio, ter se destacado, o que o Inter fez para reagir?

Nunca deixamos de olhar pra dentro, pra nós mesmos e de buscarmos as soluções por nossa conta, independentemente do momento rival. O primeiro passo era voltar à elite e, depois, planejar a reestruturação do clube como um todo. Cumprimos essa etapa e agora estamos vivendo a fase de consolidação de tudo que foi estruturado lá atrás.

Os resultados tão positivos eram esperados ou a meta para 2018 era mais modesta?

É importante salientar que não ganhamos nada ainda. Eu até por vezes sou repetitivo em frisar essa ideia, mas é exatamente o que transmito ao grupo. Vamos passo a passo, jogo a jogo, tentando o máximo em cada um deles para, no final, analisarmos onde chegamos. Estamos contentes com os resultado, mas nunca satisfeitos ou acomodados, porque isso no futebol é a morte. Se trabalhamos bastante hoje, amanhã vamos trabalhar mais. A evolução não só deve como precisa ser constante.

O quanto a sua longa ligação com o Inter acaba por ajudar neste trabalho com o time?

Tenho uma relação longa com o clube, desde a época de atleta. Minha história de vida está ligada ao Inter. Passei pelas comissões de base também e desde 2013 estou no profissional. Ajuda no sentido de você conhecer os processos internos, o funcionamento do clube, as dinâmicas de trabalho e, especialmente, o perfil de cada um no grupo de atletas e no corpo técnico.

No começo de trabalho o senhor ainda não era tão conhecido no cenário nacional e assumiu um time que vivia momento difícil. Como foi a pressão daquele momento?

A direção sempre nos respaldou e deu tranquilidade para que pudéssemos desenvolver o trabalho a longo prazo. Tanto que a efetivação ocorreu já no encerramento da temporada passada. Em conjunto, sempre externamos a ideia de que iniciaríamos um processo e que a concretização dele viria com o tempo, pela efetividade do trabalho e dos conceitos que introduzimos. O processo segue, já numa fase mais adiantada. Tem dado certo, felizmente.

No ano passado o Corinthians foi campeão com um treinador que também era jovem e trabalhava há tempos no clube. O trabalho do Carille serve como espelho?

Sem dúvida, Carille fez um trabalho de referência, com um desempenho histórico no campeonato do ano passado. Conseguiu afirmar seus conceitos sobre uma base qualificada de grupo que existia. Mas as comparações acredito que devem ser feitas pelos analistas e especialistas. Temos a nossa linha própria adaptada ao contexto em que estamos inseridos.

 

 

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Inter admite surpresa por campanha de disputa de título

Recém-promovido da Série B, clube disputa liderança na elite mesmo depois de campanha ruim no primeiro semestre

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2018 | 05h00

Quando um time sobe da Série B para a elite, geralmente alimenta objetivos simples como fazer uma boa campanha ou no máximo brigar por vaga na Copa Libertadores. O Inter começou o Campeonato Brasileiro deste ano com metas modestas após ter sido vice-campeão no acesso no ano passado, porém acabou surpreendido positivamente pelo rendimento e pelo posto de candidato ao título.

"A gente não imaginava tudo isso", admitiu ao Estado o volante Edenilson, remanescente da campanha na Série B. "O processo de reconstrução demora, mas como tínhamos um grupo com vários jogadores do ano passado, e não construído do zero, acreditamos na continuidade do elenco", afirmou o jogador.

O Inter tem apenas três derrotas no Campeonato Brasileiro e iniciou a rodada na vice-liderança, apenas um ponto atrás do líder, São Paulo. Invicto no Beira-Rio, a equipe desfruta em 2018 do otimismo e da surpresa em ter deixado para trás favoritos e se tornado candidato à taça. O clube tem a vantagem de neste segundo turno, enfrentar os concorrentes diretos como mandante.

No primeiro semestre a equipe não teve desempenho para se comemorar. No Estadual, perdeu para o rival nas quartas de final. Na Copa do Brasil, parou na quarta fase, ao ser eliminado nos pênaltis pelo Vitória.

Edenilson explica que os maus bocados encarados na Série B ajudaram a forjar o elenco atual. "Viemos do inferno e agora estamos vivendo praticamente a um ponto do céu. Se a gente não tivesse passado pela dificuldade, não teríamos crescido tanto. A torcida vinha machucada pelos insucessos recentes e até sentiu um pouco de raiva da gente em alguns momentos no ano passado", afirmou.

O Inter chegou à virada de turno como um dos líderes ao apostar em um elenco sem contratações de peso. O diretor executivo Rodrigo Caetano contou ter procurado reforços sem precisar gastar. "Todos os atletas que chegaram após minha chegada foram só pelo salário. Nenhum deles teve qualquer negociação de direitos econômicos. Foi assim que a gente pode atuar nesta janela", disse ao Estado.

O dirigente que passou por clubes como Grêmio, Vasco, Fluminense e Flamengo chegou ao Inter em maio e diz notado no time uma mudança de mentalidade. Em vez de baixa autoestima, o elenco incutiu o pensamento de que era possível fazer bonito no retoro à elite. "Está na cabeça de todos de que o Brasileiro é importante, de nível parelho e que o Inter não deve nada a ninguém. O fato de ter passado pela Série B, não diminui a grandeza", comentou.

 

 

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