Reprodução/São Paulo Twitter
Reprodução/São Paulo Twitter

Papos individuais, apego à família e van para o treino: o dia a dia de Crespo no São Paulo

Treinador de 45 anos aposta na simplicidade e na proximidade com os jogadores para encerrar o jejum de títulos do clube do Morumbi

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2021 | 05h00

Depois de 24 anos na Europa, como um atacante multicampeão e dirigente e técnico, o filho de 45 anos decidiu que era hora de voltar à Argentina. Era o momento de ficar com os pais, em Florida, bairro de Vicente López, na Grande Buenos Aires. O motivo foi o mesmo que colocou a vida de muita gente de pernas para o ar: o início da pandemia causada pelo novo coronavírus. No retorno, fazia compras no mercado e na farmácia, conversava, fazia companhia. Foram meses assim. Depois, viajou de novo. Desta vez para o Brasil. O filho é Hernán Crespo, técnico do São Paulo.

Embora seja uma história corriqueira – quase todo mundo se desdobrou para cuidar dos idosos, grupo mais vulnerável ao coronavírus no início –, ela é contada com orgulho pelos argentinos para ilustrar como o filho milionário, que construiu a vida em Milão e Londres, não delega cuidados com a família do outro lado do oceano. O caso percorreu as redes sociais e programas de TV. Vale lembrar que Crespo é uma lenda do futebol argentino, com presença em três Copas e carreira consagrada. Com exagero, alguns torcedores mais apaixonados gostam de compará-lo a Ronaldo.

Há outros exemplos dessa idolatria familiar. Um deles foi o reencontro com as filhas na quarentena. Crespo é pai de três meninas: Nicole (16 anos), Sofía (14) e Martina (5) com a modelo italiana Alessia Rossi. Eles se casaram em 2005 e se separaram em 2019. As três moram na Itália com a mãe. Quando o pai veio para a Argentina, elas ficaram. Foi uma separação de mais de um ano. Ficou famoso o seu choro desconsolado ao vê-las na final da Sul-Americana conquistada pelo seu clube, o Defensa y Justicia, sobre o Lanús, em janeiro, em Córdoba.

Só mais uma história. O terno que Crespo usa à beira do gramado é uma homenagem ao pai, Jorge, que trabalhava na Bolsa de Valores de Buenos Aires. Quando adolescente, ele via o pai sair para trabalhar e lamentava ter de usar sempre o uniforme esportivo do time.

Crespo valoriza os relacionamentos não só dentro de casa. Quase diariamente, ele conversa com um jogador do São Paulo. Papo individual, olhando no olho. A ideia é criar vínculo para conhecer melhor o atleta. São quase sessões de coaching que procuram dar estabilidade emocional para suportar a pressão e render em campo. Neste aspecto, trabalha em parceria com o preparador Alejandro Kohan. Com esse “treinamento emocional”, recuperou Pablo, transformou Vitor Bueno em 9 e deslocou Dani Alves para a lateral. Os ganhos individuais influenciam no desempenho coletivo. O time está invicto na Libertadores, fez a melhor campanha na fase de grupos do Paulistão e despachou a Ferroviária: 4 a 2.

Mas Crespo também gosta das brincadeiras e muvucas. Quando os jovens fazem sua primeira viagem, por exemplo, eles passam por uma espécie de batismo, um trote do bem. É a hora de um discurso, de cantar uma música ou contar piada. Crespo está sempre no meio deles. Não é do tipo que conta piada. É centrado, mas interage.

Apesar dos poucos meses no Morumbi, o argentino é descrito como um “cara querido” e “humilde”. Ele cumprimenta todo mundo quando chega. É difícil vê-lo de cara fechada. Curiosamente, os adjetivos “humildade” e “simplicidade” foram os mesmos escolhidas por Juan Martín Moreno, assessor do Defensa y Justicia.

Ele surpreendeu muita gente ao falar um português competente para os seus dois meses de trabalho no Brasil. “Acho que é uma questão de respeito com o lugar onde estou, com as pessoas. Gosto de aprender”, disse. Crespo fala inglês, espanhol e italiano. O Estadão solicitou uma entrevista, mas foi informado de que ele concederá exclusivas “com o tempo”.

O jogador que fez fama na Europa não está sozinho no Brasil. Fez questão de trazer sua comissão. A maioria dos profissionais mora no mesmo condomínio na Barra Funda, nas proximidades do CT. Eles estão sempre juntos. Para ir ao treino, costumam usar uma van do clube. Crespo não dirige pelas ruas de São Paulo. No começo, usava o motorista do clube, mas agora vai em grupo. Às vezes, eles até vão treinar a pé. Em uma postagem nas redes com parte dos argentinos, o técnico se referiu ao grupo como “La Banda”.

Surpresa

Crespo virou técnico nas divisões inferiores do Parma. Isso foi em 2014, dois anos após encerrar o ciclo como jogador no clube onde começou a brilhar na Europa, entre 1996 e 2000. Também foi gestor, o que permitiu ver a estrutura de um time, mas sempre deixou claro que gostava mesmo era de estar no campo. E tinha de viver a experiência no seu país.

O jornalista Martín Goldbart, do periódico argentino La Nación, afirma que foi uma surpresa quando ele conseguiu levar o Defensa y Justicia ao título da Sul-Americana. Foi o primeiro troféu continental da equipe, encerrando jejum de 23 anos sem títulos. “Ele era uma incógnita. Tinha ideias de um técnico ofensivo, gosta dos goleiros que jogam com os pés e que os zagueiros saiam jogando. Mas não se imaginava que formaria um time tão competitivo. Foi uma surpresa”, afirmou o colega.

Crespo é um treinador em ascensão. A boa campanha no São Paulo tem de ser posta na balança com alguns fiascos. Em 2016, foi demitido do Modena, da Itália. Venceu 11, perdeu outros 19 e empatou cinco.

Na América do Sul, sua passagem pelo Banfield não deixou saudades. No Brasil, seu maior teste começa agora, nas fases agudas do Paulistão. Vai ter de suportar a pressão que virá se o time fracassar. Para isso, outros de seus trunfos são a serenidade e os pés no chão. Aqui vale lembrar de outra história, mais trágica e antiga, de 1993. Um incêndio na discoteca Kheyvis, em Buenos Aires, causou a morte de 17 jovens. Onde cabiam 150 estavam 600. Muitos eram estudantes do Colégio La Salle, em festa de formatura. Crespo, então com 18 anos, escapou da tragédia. Estava concentrado com o River Plate. Questionado pelo Clarín se o futebol havia salvado sua vida, o menino mostrou todo o seu equilíbrio. “Não podemos ser dramáticos. Não sabemos o que ia acontecer. Muitos dos meus colegas também se salvaram”.

Tudo o que sabemos sobre:
CrespoSão Paulo Futebol Clubefutebol

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.