Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão
Imagem Robson Morelli
Colunista
Robson Morelli
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Para a torcida, foi tarde

Carille se perde em meio a um esquema de jogo ultrapassado e declarações provocativas

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2019 | 04h00

O basta de Andrés Sanchez ao Corinthians 2019 terá consequências drásticas. A primeira delas já foi anunciada no vestiário do Maracanã, após a surra de 4 a 1 sofrida para o Flamengo. Fábio Carille chegou ao fundo do poço, com oito partidas sem vencer. Andava no fio da navalha e de língua afiada. Sua demissão foi anunciada pelo próprio dirigente máximo, visivelmente insatisfeito e incomodado com tudo o que ocorreu no clube durante a semana. Para muitos corintianos, a decisão de Andrés demorou para ser tomada. Sem Carille, o Corinthians, ao menos, recupera a confiança da torcida. O próprio Andrés convocou os corintianos para a rodada do meio de semana do Brasileirão. Esse foi o seu segundo ato após o jogo. 

Para Carille, a decisão foi a mais fácil de todas. Ele não deu sequer entrevista após a partida no Rio de Janeiro. Não teve nem o trabalho de se explicar ou de defender um time sem proposta de jogo, de vestiário péssimo e ameaçado de ficar sem a vaga na Libertadores.

O fato de apenas o goleiro Cássio responder perguntas sobre o episódio também dimensiona a fragilidade de um elenco sem alma e personalidade. Tudo errado no planejamento de 2019. O Corinthians apostou num esquema que vinha dando certo e não percebeu os riscos que corria com ele. O presidente mostrou-se ainda inconformado com algumas palavras de Carille, principalmente sobre o fato de o clube ter de pagar a multa de sua rescisão, estimada em R$ 5,5 milhões, em prestações mensais, feito as “Casas Bahia”.

Isso pegou muito mal para o treinador. Foi decisivo para acabar com a pouca convicção de Andrés para manter o treinador até o fim do ano, ou até o término do seu contrato em 2020.

Carille se perdeu num esquema ultrapassado. Não bastava mais ser eficiente somente do meio de campo para trás, condição, aliás, perdida nas últimas jornadas do Campeonato Brasileiro. Nem a defesa se salvava mais. Contra o Flamengo, por exemplo, o queijo foi furado por caminhos diferentes, sem resistência técnica ou tática.

A bronca da torcida nas últimas semanas diz muito sobre esse sistema do “se fechar atrás e aproveitar uma bola na frente” para ganhar o jogo. Os ursos aprenderam a se safar da armadilha.

Carille bebeu muito das fontes de Tite e Mano Menezes, mas também esses tiveram e têm problemas na carreira e no jeito de comandar no futebol. Tite se vê às turras com uma seleção brasileira que há muito não joga bem, e agora deu para não ganha mais, e Mano entregou o boné no Cruzeiro porque não conseguia fazer a equipe jogar – tem agora nova oportunidade no Palmeiras. O que quero dizer é que a forma de pensar o futebol no Corinthians já não servia mais. E Carille não se deu conta disso. Todo mundo sabia da carência do elenco. Do meio de campo para frente, o Corinthians não funciona, continua apostando numa defesa bem postada e naquela bola salvadora. É muito pobre. Carille parou no tempo e só se sustentou no cargo porque tinha na bagagem conquistas importantes e a palavra do presidente de que não seria demitido. Mas nem essa combinação o ajudou diante de trabalho fraco e confuso.

Mas não foi isso a gota d’água. O que levou Carille para a fila do desemprego foi uma série de declarações equivocadas e provocativas, do que disse sobre o parcelamento da multa até a exposição gratuita de alguns jogadores, apontados como responsáveis pelo fracasso do time.

Ele não tinha mais o comando do vestiário. Ninguém corria por ele. Não será de se estranhar, por exemplo, se o Corinthians, já no meio da semana, mostrar outro ânimo para seguir na temporada. Jogador nenhum deu a cara à tapa pelo treinador. Ele próprio não apareceu para se despedir honrosamente. Andrés promete mais mudanças no time.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.