Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Para Marco Aurélio Cunha, patologia foi maior que o socorro

Ex-dirigente do São Paulo acompanhou de perto o atendimento ao zagueiro Serginho e relembra momentos da tragédia no Morumbi

Entrevista com

Marco Aurélio Cunha

Ciro Campos e Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 07h00

Marco Aurélio Cunha, superintendente do São Paulo entre 2002 e 2011, acompanhou de perto o atendimento ao zagueiro Serginho minutos antes de ele morrer após uma parada cardiorrespiratória. O dirigente, que também é médico, estava no vestiário do Morumbi quando o atleta do São Caetano desabou no gramado aos 14 minutos do segundo tempo. Em entrevista ao Estado, Marco Aurélio Cunha disse que houve mudança em relação aos exames dos jogadores após o episódio. Para ele, no entanto, muitos dirigentes ainda reclamam com os custos que a medida traz. O ex-superintendente também relembrou os momentos de tensão durante a tragédia. Segundo ele, o atendimento a Serginho no estádio foi rápido - em três minutos, o atleta foi atendido na ambulância já com o desfibrilador. "Foi um prazo de ouro. A patologia foi maior do que o socorro."

O que mudou na medicina esportiva desde a tragédia com Serginho?

A medicina vai evoluindo e certamente exames vão surgindo. E cada vez mais sofisticados. O mais importante foi a compreensão dos dirigentes esportivos na investigação dos atletas, que é preciso investir na avaliação plena. Não é só um eletrocardiograma de repouso, uma esteira que vai determinar se ele está bem. Existem hoje provas muito duras para o atleta. A exigência cardiovascular é muito alta. E isso não é detectado em um exame comum.

Foi um divisor de águas no futebol do País?

Sim, foi um grande 'chacoalhão'. Um grande momento de reflexão, responsabilidade e valorização do ser humano. Com a penalização dos dirigentes do São Caetano e o desgaste, além, claro, da perda do Serginho, que é a maior de todas, todo mundo ficou preocupado e o dirigente passou a ser mais permeável às solicitações dos médicos. Porque ele não quer que algo igual ocorra no seu clube.

Como esse assunto era visto antes da morte do jogador?

Clubes grandes sempre fizeram trabalhos exemplares. Mas a detecção de um atleta que tinha uma alteração muito pequena e investigar aquilo a fundo não era tão feito. Hoje, se há uma pequena dúvida de um atleta na função miocárdica, haverá diversos exames. Vai esmiuçar até dizer que ele está bom. Isso não havia. Havia um patamar mais baixo das investigações.


Em relação ao investimento, há alguma reclamação dos clubes?

Quando os exames começam a ficar sofisticados, o dirigente reclama, acha caro. Ele não acha caro, por exemplo, quando quer vender o jogador por R$ 10 milhões e consegue R$ 8,5 milhões. Ele não liga de perder R$ 1,5 milhão. Mas quando um exame custa R$ 5 mil ou um aparelho que custa R$ 20 mil, ele reclama e fala que não tem dinheiro.

Aquele dia foi o pior momento que você passou no futebol?

Foi. Já passei apuros. Mas aquele dia foi o mais difícil. Fomos vencidos. Eu não tinha responsabilidade sobre o caso, mas aconteceu na minha casa, no Morumbi.

Onde você estava quando Serginho caiu no gramado?

Eu lembro de cada pedaço. O primeiro tempo eu assisti na cativa. Estava muito frio e eu estava febril. Preferi ver o segundo tempo no vestiário, pela televisão. Quando mostrou o Serginho caído, vi que era uma parada cardiorrespiratória. Saí correndo e fui para o ambulatório, avisei que havia um jogador com parada cardíaca no campo. Passei na ambulância no campo e dei um tapa no vidro para alertar o médico. Era importante chamar apoio. E corri para lá, onde já estavam o Dr. Sanches e o Dr. Paulo Forte tentando reanimá-lo. Isso durou três minutos.

Achou eficiente o primeiro atendimento?

Foi rápido. Foi uma atendimento rápido em um ambiente não-hospitalar. Não era adequado. Não teve como durar menos. Em três minutos, ele estava na ambulância, com o desfibrilador. Foi um prazo de ouro. A patologia foi maior do que o socorro. Não tem como prever uma parada cardíaca. Não tinha como reverter.

Todos ficaram chocados. O que mais te impressionou?

O mais impressionante foi o público. Gritaram o nome dele. Foi uma noite de comoção. Todo mundo foi embora em absoluto silêncio. Foi um velório. Todos saíram cabisbaixos, pois havia presenciado uma morte em campo.

Teme outros casos graves como o de Serginho?

Ainda vai ter morte súbita no futebol. Não dá para imunizar tudo. Às vezes, ele tem no campo de futebol um problema que não foi detectado. O jogador pode ter uma patologia que nunca se manifestou. E por azar será em um jogo. É o improvável. 

Muitas pessoas culpam o Dr. Paulo Forte? O que você acha disso?

Ele não teve culpa. Foi injusto, porque ele foi muito criticado. Eu sei o que ele passou. A investigação que ele pôde fazer foi apoiada em terceiros. E fora tudo que ele passou, havia o envolvimento dele com o jogador. Ele foi uma vítima também.

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